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Sem papas na língua

10/07/2015 10:40:20
Correia de Almeida: língua afiada.
Correia de Almeida: língua afiada.

Por Carlos Ávila

Poucos o conhecem ou já leram seus poemas – em geral, sátiras e epigramas: Correia de Almeida (1820/1905); o poeta nasceu e viveu em Barbacena, onde estudou letras, latim e música (ordenou-se padre em 1844). A publicação de sua obra teve início em 1854 com “Sátiras, epigramas e outras poesias”; editou vários livros no Rio.

“Ramerraneiro e rabugento ex-professor de latim, caduco e desmemoriado, modorrento, surdo, míope, desdentado e tropeçudo, decrépito e desenxabido, impertinente, maçante e intolerável” – assim, o próprio Correia de Almeida se intitulava, divertidamente, na capa de um dos seus livros.

Numa crônica, publicada em 1973, Drummond solicitava a publicação de seus poemas – “para que os leitores de hoje possam sentir o sabor do verso epigramático manejado há um século”. O poeta-professor da UFMG José Américo Miranda repôs em circulação a poesia de Correia de Almeida, em 1982 (infelizmente, numa edição independente e acanhada, hoje esgotada); seria bem-vinda uma nova edição.

Correia de Almeida – poeta sem papas na língua – pertence à linhagem satírica de nossa poesia que inclui Gregório de Matos, “o boca do inferno”, e o Bernardo Guimarães do “Elixir do Pajé” e de poemas como “A orgia dos duendes”; “Ao charuto”; “Ao meu aniversário” etc. Gregório e Bernardo já foram recuperados; o bem menos conhecido Correia de Almeida ainda não (salvo engano nosso, há apenas o estudo de Maria Marta Araújo“Com quantos tolos se faz uma república: Padre Correia de Almeida e sua sátira ao Brasil oitocentista”; Ed. UFMG, 2007).

Segundo o ensaísta Eduardo Frieiro, Correia de Almeida não era “um satírico ácido, malevolente, provocador. Dominava na sua sátira, ao contrário, o tom humorístico, o sentimento do risível unido ao gosto da brincadeira, a propensão para o castigat ridendo mores” – com o riso se castigam (ou se criticam) os costumes.

O poeta tirava sarro de tudo e de todos, até de si mesmo: “Esta é a figura cediça/do tal Correia de Almeida/padre que apenas diz missa/vate que não faz Eneida” – escreveu sobre uma foto sua, já velho.

Segue abaixo um soneto de ponta-cabeça – com os tercetos invertidos – do versejador-gracejador Correia de Almeida, cuja obra reclama releitura crítica e republicação urgente.

Já se tem dado o nome de mania
ao soneto, que grassa atualmente,
qual métrica, rimada epidemia.

O contágio requer que se argumente,
e convém que decida a academia
se o soneteiro está, ou não, demente.

Há sonetos de todas as bitolas,
dissilábico, heroico, alexandrino,
imenso, mediano, pequenino,
mais ou menos idôneo às cantarolas.

E eu, aluno que sou dessas escolas,
invento este, sublime e superfino,
os pés do bicharoco ponho a pino,
e ofereço o brinquedo aos rapazolas.

 

 

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