Blog CULTURA

O som do vinil

15/07/2015 06:00:57
Paulinho: capa de Elifas Andreato.
Paulinho: capa de Elifas Andreato.

Por Carlos Ávila

Um dos poucos espaços onde ainda se vê alguma qualidade musical em nossa TV é no Canal Brasil. Desde julho de 2007 está no ar na emissora o programa “O som do vinil” – com apresentação, direção e pesquisa de Charles Gavin (ex-baterista dos Titãs).

Nos anos 1960/70, a MPB recebeu um forte impulso com programas apresentados por diversos cantores e compositores, afora a realização dos históricos Festivais da Canção – principalmente na TV Record. Hoje o que se assiste nas TVs relacionado à música é, em geral, de baixíssima qualidade estética e artística (exceções: o pioneiro “Ensaio”, com Fernando Faro; ou ainda o “Prelúdio”, com o maestro Júlio Medaglia, ambos na TV Cultura/SP)

“O som do vinil” é um espaço onde a melhor MPB tem vez e voz. O programa de Gavin foca álbuns clássicos que marcaram época; trata-se de uma conversa informal, mas informada (já que Gavin é um dedicado pesquisador), com artistas em torno de seus discos lançados em vinil.

Agora, as transcrições das entrevistas já realizadas estão saindo em livros pela Ímã Editorial. Já foram lançados volumes com Egberto Gismonti, João Donato e Paulinho da Viola. Trata-se de um registro fundamental, em prol da memória de nossa música popular.

A conversa de Gavin com Paulinho desenrola-se em torno do disco “Nervos de aço”, lançado pelo compositor em 1973 – um dos mais marcantes de sua já longa carreira. A faixa-título traz o famoso samba-canção de Lupicínio Rodrigues (originalmente gravado, em 1947, por Francisco Alves).

O primoroso LP traz também sambas antológicos de Wilson Batista e do desconhecido Miginha, além de uma parceria de Zé da Zilda, Cartola e Carlos Cachaça (“Não quero mais amar a ninguém”); “Sonho de um carnaval” de Chico Buarque; e, de autoria do próprio Paulinho, “Comprimido”, “Não leve a mal”, “Cidade submersa”, o belo “Choro negro” e “Roendo as unhas” – esta última uma ousada e inovadora composição: “depois é que a gente percebeu que era uma coisa como foi o ‘Sinal fechado’, um coisa diferente do meu trabalho; que era mais uma ideia e um momento diferente” – explica o sambista a Gavin.

Desde a capa – um inusitado desenho de Elifas Andreato, com Paulinho em lágrimas e com flores na mão – “Nervos de aço” tem a marca da diferença: “É um disco um pouco triste” – assinala Paulinho – “mas acho que ele tem elementos que a gente procurava, trazendo alguma coisa de diferente; não só nos arranjos, mas no uso dos instrumentos”; “de repente tem um cravo fazendo a introdução de um samba”.

Com a sabedoria e a serenidade de sempre, Paulinho fala longamente sobre seu marcante LP; fala também sobre sua formação musical e a Portela; sobre Nelson Cavaquinho, Cartola, Zé Kéti e seu parceiro Elton Medeiros. Gavin encerra seu programa (agora registrado em livro) com um depoimento do sambista Monarco sobre Paulinho. “O som do vinil”: música no ar, vida inteligente na TV.

Comentários