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Computação e literatura

17/07/2015 06:00:38
Erthos: pioneiro na computação.
Erthos: pioneiro na computação.

Por Carlos Ávila

Pouquíssima gente conhece ou já ouviu falar em Erthos Albino de Souza (1932/2000); os mais chegados à poesia experimental (ou de vanguarda) já ouviram, certamente, falar nele. Erthos nasceu em Ubá (MG), mas radicou-se na Bahia, onde trabalhou por longos anos como engenheiro da Petrobrás.

Erthos foi um pioneiro nas pesquisas e criações poéticas utilizando o computador (com o qual teve contato muito cedo, por motivos profissionais) no Brasil; outro pioneiro nessa área foi o artista plástico Waldemar Cordeiro – ambos eram ligados aos concretistas de São Paulo.

Infelizmente, Erthos não deixou nenhum livro (ou texto teórico) sobre suas experimentações; seus poemas visuais continuam espalhados em publicações como “Código”, “Pólen”, “Artéria”, “Qorpo estranho”, “Muda” etc. – essa produção precisa ser reunida em livro, com urgência.

O poeta André Vallias organizou uma exposição-evento sobre Erthos, no Rio (Instituto Moreira Salles, 2010); no momento, um grupo de jovens pesquisadores paulistas (sob a coordenação de João Reynaldo) vem realizando a digitalização e a disponibilização online das revistas “Código”, editadas por Erthos, em Salvador, entre 1974 e 1990.

Entre os trabalhos desenvolvidos por Erthos estavam pesquisas sobre o vocabulário de alguns autores e obras literárias (uma espécie de estatística da recorrência de certas palavras ou termos). Utilizou o computador para investigações desse tipo com as “Cartas Chilenas”, a “Reunião” com os dez primeiros livros de Drummond, a pequena (mas importante) obra do simbolista baiano Pedro Kilkerry, o “Grande Sertão: Veredas” de Guimarães Rosa e até as letras de Caetano Veloso. Buscava as chamadas palavras-chave desses criadores.

Esta lembrança-evocação de Erthos (um criador/pesquisador ainda a ser redescoberto e estudado) surgiu da leitura de um artigo publicado pelo “New York Times” (republicado em tradução pelo “Estado de São Paulo”). O texto de Steve Lohr relata pesquisas sobre literatura envolvendo o uso de computadores, realizadas por Matthew L. Jockers – doutor em literatura, fascinado por computação, que se tornou um programador autodidata. Suas análises revelaram, por exemplo, que a romancista Jane Austen foi uma das autoras que mais influenciaram outros escritores de língua inglesa. O estudo envolveu análises estatísticas de milhares de volumes.

Segundo Lohr, “a análise digital evidentemente não dá a última palavra. Ela é um sinal de que a tecnologia usada para catalogar grandes volumes de dados vai muito além do setor da internet e da pesquisa científica, e chega a campos aparentemente estranhos como as ciências humanas”.

Ora, se a tecnologia não cria nada por si mesma, sem a interferência da mão e da mente humana, ela pode ajudar – e muito! – no estudo e análise de textos literários. Era o que Erthos já fazia dentro de suas possibilidades na época. O que diria ele dessas novas pesquisas com máquinas ultramodernas, que hoje fazem parte do nosso dia a dia?

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