Blog CULTURA

Sob o signo do estranho

29/07/2015 12:30:30
Blecher: estranho e experimental.
Blecher: estranho e experimental.

Por Carlos Ávila

Partiu cedo Max Blecher (1909/1938) – romeno e judeu como o dadaísta Tristan Tzara –, mas, como afirmou, em seu leito de morte, “viveu em 29 anos mais do que muitos outros em 100”; deixou obra pequena (um livro de poemas + três de prosa), mas densa, escrita sob o signo do estranho e do experimental, a julgar por “Acontecimentos na irrealidade imediata” (vertido do original por Fernando Klabin – tradutor também de Cioran e Mircea Eliade – e lançado aqui pela Cosac Naify).

Uma doença rara (e com o seu quê de estranha também) jogou Blecher anos numa cama; ironicamente, tendo se deslocado para Rouen (França) a fim de estudar medicina, foi diagnosticado, pouco depois, com o “mal de Pott” (tuberculose da coluna vertebral); deixou o curso e viveu “em tratamento” até a morte precoce.

Para Blecher, “as palavras cotidianas não têm valor em determinadas profundezas da alma”; como o escritor mergulhou na sua, foi levado a transfigurar as palavras – a descotidianizar a linguagem – dentro do possível: foi à lama da alma.

Publicado em 1936, o pequeno, mas poderoso, livro de Blecher não pode ser qualificado como um romance, ou mesmo uma novela. Trata-se, antes, de uma narrativa antilinear, onde se misturam real e surreal (o autor aproximou-se dos surrealistas franceses, no auge na época, mantendo, inclusive, correspondência com Breton).

Mas Blecher vai além; é uma espécie de “estrangeiro em si mesmo”. Traz à tona enigmas autobiográficos – crises e cismas; imagens desconcertantes escorrem pelo seu texto em meio à descrições/perambulações por uma urbe sombria.

Há também um erótico algo enviesado: “A cumplicidade do vício é mais profunda e mais direta do que qualquer tipo de entendimento verbal. Ela atravessa instantaneamente o corpo como uma melodia interior, transformando por completo os pensamentos, a carne e o sangue”.

E um onírico realçado por quinquilharias e cenários (“a impressão de espetáculo me perseguia por toda parte”), reforçado pela presença do cinema (“ó sala de cinema B., longa e soturna como um submarino naufragado!”), do panopticum (carroça ambulante de diversões, com coisas e criaturas extraordinárias: ilusionistas, levantadores de peso, equilibristas, figuras de cera) e da “quermesse do mês do mês de agosto”. Tristezas e exaltações; e ainda uma frustração extrema no “teatro de variedades da cidade”.

Ao fim e ao cabo, resta a caixa de comprimidos brancos, entre “botões, cordões, barbantes coloridos, papeluchos, tudo com um cheiro forte de naftalina”: alucinações; na sequência, a dolorida e descolorida convalescença, pela manhã, “como uma extrema fragilidade da luz”.

“Em que consta o sentido da minha realidade”? – pergunta-se o narrador que não encontra respostas; o leitor sai mudo do poético (e inquietante) livro de Blecher como de um fantasmagórico filme expressionista.

Comentários