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O poeta de Aiuruoca

31/07/2015 12:32:37
Dantas: rústico e telúrico.
Dantas: rústico e telúrico.

Por Carlos Ávila

“Este é o País das Gerais./Não veio das estradas do Sul,/Nem se formou no Setentrião./Quando Maçaranduva se engravidou,/Entre rosas e flores nas rochas,/O peito da terra empolou,/E rios subiram e não desceram./Desde então, o País das Gerais,/Que era manso e tranquilo/Como um leito, se tornou severo/E duro como um cepo” – verbo & voz de Dantas Mota (1913/1974), o poeta de Aiuruoca, pequena cidade do sul de Minas: o nome é de origem Tupi – Ajuruoka: ajuru (papagaio), oka (casa); ou seja, “casa de papagaio”.

Desconhecido e esquecido, Dantas é autor, entre outros, dos livros “Elegias do País das Gerais” (de onde foram retirados os versos acima) e “Primeira Epístola de Jm. Jzé da Sva. Xer., o Tiradentes – aos ladrões ricos”. O poeta foi advogado muito atuante em todo o sul de Minas e no Vale do Paraíba; viveu sempre em Aiuruoca, mas mantinha contato com escritores no Rio, em São Paulo e Belo Horizonte – sua obra completa saiu pela Ed. José Olympio, em 1988.

A poesia mineira do séc. 20 possui dois poetas de primeiro plano: Drummond e Murilo Mendes (afora Guimarães Rosa, poeta da prosa) – já traduzidos em vários idiomas. Numa faixa intermediária – marcos de referência – os modernistas Emílio Moura e Henriqueta Lisboa; e poetas de menor destaque, mas com dicção e personalidade próprias, como Abgar Renault, Bueno de Rivera e Dantas Mota. Isso num espaço demarcado, que vai do modernismo à chamada Geração de 45 (ou seja, antes do período das vanguardas dos anos 1950/60). O que foi produzido depois – pelos criadores das gerações seguintes – faz parte de outra história.

Dantas criou um estilo único: versos longos e derramados – influenciados pelos versículos bíblicos, com um “ritmo lento e severo”, na observação certeira de Drummond –, que escorrem como as águas barrentas do rio São Francisco, forte presença na sua obra. Trata-se de uma poesia irregular, com seus altos e baixos; um tanto estranha, rústica e telúrica, com conteúdo social (não meramente ideológico).

Biografemas: Dantas curtia muito um papo, regado à pinga e acompanhado por cigarros de palha (contava sobre suas andanças de advogado, a cavalo, no entorno de Aiuruoca). Embora fosse uma figura culta – leitor de autores sofisticados da literatura universal – tinha o jeito simples do homem da roça, inclusive na maneira de falar (era uma espécie de “caipira” de sabedoria).

A poesia de Dantas chamou a atenção, entre outros, de Mário de Andrade, Drummond, Sérgio Milliet e Affonso Ávila, que escreveram sobre ela. Sua linguagem impura, que incorpora lodo e limo, pede ainda estudo e avaliação crítica. É desafiante e difícil para o leitor – dura como um cepo.

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