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Artesanais e de baixa tiragem

11/09/2015 06:00:38
Polito: plaquetes pela Espectro Editorial.
Polito: plaquetes pela Espectro Editorial.

Por Carlos Ávila

O Brasil possui uma tradição de livros realizados artesanalmente e com baixa tiragem. São, em geral, belas e sofisticadas edições, com impressão em tipos móveis, papéis e gravuras especiais – às vezes com folhas soltas e sem costura.

Sobre essas edições, Drummond observou o seguinte: “podem os enjoados resmungar que o livro de tiragem mínima é fruto de uma cultura decadente, a demitir-se de sua função social, que é luxo de mandarins, e ofende o povo. Não ofende nada, e, se repararmos bem contribui para reintegrar o homem em sua dignidade, valorizando o artesanato na era da fabricação de milhões”. Segundo o poeta mineiro, o editor artesanal “concilia a criação mental com o esforço físico, e nos oferece produtos que trazem a dupla marca de nossa condição”.

No seu livro “Editores artesanais brasileiros” – fruto de uma dissertação de mestrado na USP e lançado pela Autêntica, em 2013 – a professora e pesquisadora Gisela Creni registra e analisa o trabalho de sete dos principais editores artesanais do século 20 no país: João Cabral de Melo Neto (na editora O Livro Inconsútil); Manuel Segalá (na Philobiblion); Geir Campos e Tiago de Melo (na Hipocampo); Pedro Moacir Maia (na Dinamene); Gastão de Holanda (no Gráfico Amador) e Cleber Teixeira (na Noa Noa). Todos iniciaram suas edições na década de 1950 – com exceção de Cleber, que começou em 1965.

Um dado curioso é que a maioria desses editores eram também poetas – e mais: publicaram primordialmente livros de poemas (incluindo traduções), inclusive alguns títulos de autoria própria. Pela Livro Inconsútil de Cabral (este comprou uma prensa manual no período que viveu em Barcelona, a serviço do Itamarati, e ali concebeu suas edições) saíram livros de Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Vinicius de Moraes, Joaquim Cardoso, Joan Brossa e do próprio poeta pernambucano (“Psicologia da composição”, um título fundamental na sua trajetória, marcante e renovador para a poesia brasileira).

A poesia brasileira deve muito à atuação editorial daqueles escritores-artesãos e/ou artistas gráficos. Pena que o estudo de Gisela não inclua o trabalho do nosso Guilherme Mansur, realizado na sua Gráfica do Fundo de Ouro Preto – belas edições artesanais, de pequena tiragem, com tipos móveis e, muitas vezes, papel reciclado, sempre com capas e ilustrações criadas pelo poeta/designer ouro-pretense.

Hoje, com o avanço da tecnologia e os recursos dos computadores, essas edições continuam sendo realizadas, dentro de uma nova perspectiva – para o deleite dos happy few e curtidores de raridades. Trata-se de um trabalho quase secreto, de bom gosto e cuidado gráfico. Vejam-se, por exemplo, as charmosas plaquetes da Espectro Editorial, do poeta/tradutor Ronald Polito, ou ainda, as sofisticadas publicações da Demônio Negro, de Vanderley Mendonça.

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