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Histórias de Hermínio

23/09/2015 10:18:58
Hermínio Bello de Carvalho em caricatura de Nássara.
Hermínio Bello de Carvalho em caricatura de Nássara.

Por Carlos Ávila

“Não sou eu quem me navega/quem me navega é o mar/é ele quem me carrega/como nem fosse levar…” – belos versos do poeta-timoneiro Hermínio Bello de Carvalho, na voz de seu parceiro Paulinho da Viola. Hermínio navegou muito na vida e bebeu rios de chope – e do seu uisquinho, é claro! – no Rio (acabou ganhando um divertido apelido: Hermínio Bebe pra Caralho); tem histórias & histórias na Taberna da Glória e em mil outros bares; também em teatros e shows – sempre ao lado da fina flor da MPB.

Recém-lançado, “Taberna da Glória e outras glórias – mil vidas entre os heróis da música brasileira” (Edições de Janeiro) reúne textos de Hermínio, selecionados por Ruy Castro, que saíram anteriormente em livros, periódicos e encartes de discos. São histórias de gente como Araci de Almeida – a grande intérprete de Noel, Pixinguinha, João da Baiana, Clementina de Jesus, a “divina” Elizeth Cardoso, Dolores Duran, Tom Jobim etc. (incluindo ainda duas estrangeiras: as cantoras Sarah Vaughan e Nellie Lutcher).

De origem humilde, Hermínio nasceu em 1935, em Olaria – Zona Norte do Rio, e trabalhou 23 anos numa empresa de serviços marítimos; frequentou desde cedo os programas de auditório da Rádio Nacional – tornou-se jornalista, produtor e compositor (é parceiro, entre outros, de Pixinguinha e Paulinho da Viola). Certa vez, numa entrevista, deu seu currículo preferido: “Estudei violão clássico, bebi feito um louco, fiz conferências sobre música popular na Europa e poesias”.

O texto inicial do livro, sobre Aracy (a sua “Araca”) – “Dama da Central, Arquiduquesa do Encantado e Rainha dos Parangolés” – é divertidíssimo. Desbundada e desbocada, Aracy, segundo Hermínio, “elevou o palavrão à categoria de uma cantata de Bach”; ele conta que certa vez, na frente do Hotel Normandie, instalaram uma banca vendendo o Novo e o Velho Testamento. Sai Aracy, com um bando de amigos que “deve ter passado por uma boa rodada de uísques e chopes. Araca, abrindo a bolsa, pródiga como sempre, resolve salvar aquelas ímpias almas:  – Agora, vou pagar uma rodada de Bíblias!”.

“Amigos no uísque e na dor” – assim definiu Hermínio sua amizade com o grande Pixinguinha (“como Nazareth, uma espécie de elo ou transição entre a música popular e a erudita”). Capaz de “dar nó em pingo d’água”, Hermínio produziu – imaginem! – um disco chamado “Vivaldi & Pixinguinha”, com o grupo Camerata Carioca, colocando lado a lado o nosso mestre do choro e o genial compositor da música barroca italiana – autor das belas (e conhecidíssimas) “Le quattro stagioni”.

Mas as histórias com Pixinguinha e outros músicos parecem infinitas: “os personagens entram e saem dos textos de Hermínio, intrometem-se na vida uns dos outros e alguns vivem mais de uma vez a mesma história” – segundo Ruy Castro.

O longo texto “Elizeth Cardoso – crivada por Michelangelo no teto da Sistina” e o breve “Dalva de Oliveira – um mar de veneno” destacam-se; mas há muito mais sobre Isaurinha Garcia, Jorge Veiga, Emilinha, Dolores Duran, Radamés etc. – o livro traz também um ótimo caderno de fotos. Não há como não se divertir com as incríveis histórias do vivíssimo Hermínio (80 anos conservados em velhos toneis de Carvalho).

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