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Caminhão é também aumentativo de caminho? Sim, e há prova!

31/05/2018 09:32:35

Santana do Livramento 23/05/2018 Greve dos Caminhoneiros na fronteira com Brasil/Uruguai. Foto Marcelo Pinto/APlateia

Por Jacques Alfonsin

Quando não se fala de outra coisa, muitas outras, tão ou mais importantes quanto, são esquecidas, inclusive pela conveniência de quem não as quer lembradas. Antes de deflagrada a atual greve dos caminhoneiros, o Brasil inteiro esteve com a sua atenção voltada quase exclusivamente para o trágico desabamento de um edifício no Largo Paissandu em São Paulo. Depoimentos de moradoras/es de prédios nas mesmas precárias condições daquele foram tomados, lembrando-se dramas semelhantes ocorridos no passado, caracterizados sempre por um sem número de promessas das administrações públicas de serem tomadas as providências necessárias e urgentes para se enfrentar o problema secular de acesso da população pobre ao seu direito de moradia. De tão prorrogado permanentemente, de direito esse só tem o nome.

Assim que os caminhoneiros pararam o país todo aquele debate foi distraído para essa nova fonte de atenção, discussão, polêmica, troca de acusações sobre responsabilidades, bombeiros da política de improvisação tomando providências descabidas, tentando apagar o fogo de pressões  mais do que previsíveis, sem qualquer resultado prático. A greve parou o país, filas de automóveis se formam nos postos de gasolina e venda de gás, as mercadorias começam a desaparecer dos supermercados, aulas são suspensas, e o (des)governo sob  o qual estamos sujeitos passa um atestado sucessivo e itinerante de incompetência tratando com aspirina uma doença que já infeccionou o corpo todo do povo paciente.

Caminhões parados, descontado seja o absurdo de alguns dos seus condutores se servirem de um protesto para pedirem “intervenção militar”, podem abrir caminhos, paradoxalmente, para se refletir sobre tudo o que depende desse transporte direta e indiretamente, seja para afirmar, seja para  ameaçar ou violar direitos. Caminhão pode ser entendido também como o aumentativo de caminho. Se o caminhão para – seja por iniciativa de caminhoneiros fazendo greve, ou de seus patrões impondo locaute, é outro problema – sofre tudo o que depende da sua circulação, como está acontecendo agora, mas serve também para confirmar (des)caminhões há muito denunciados e todos eles com placas indicativas de perigo colocadas nas estradas por onde eles passam:

a) a mais completa falta de controle com que o atual (des)governo do Brasil mantém a nação num (des)caminhão de insegurança, precipitação, (des)orientação e incerteza;

b) (des)velar a injusta, inconstitucional instauração de toda uma política disfarçada de pública, mas na realidade privatista, adepta de um novo colonialismo entreguista do nosso território, das nossas riquezas, da Petrobras, do pré-sal, como forma de abrir um novo (des)caminhão para o capital estrangeiro, aqui, ampliar o domínio que já exerce de fato;

c) provar sua mais completa indiferença pelas garantias devidas aos direitos sociais do seu povo, inclusive as que lhe serviriam de caminho do acesso à terra urbana e rural, condição física de alimentação e moradia, carregando tudo isso no conhecido (des)caminhão do lixo de preconceitos ideológicos que confundem direitos humanos fundamentais de gente pobre com o crime.

d) desmontar todas as possibilidades abertas pela Constituição Federal e pelas leis tendentes a, se não eliminar, pelo menos diminuir, os efeitos perversos do nau uso, do abuso aqui prevalecendo da chamada liberdade de iniciativa econômica. Ela é responsável pela costumeira barragem ideológica interpretativa da lei, que corta qualquer caminho capaz de detectar o (des)caminhão onde se despeja e despacha para a inexistência a função social do direito de propriedade, principal causa de violação dos direitos humanos fundamentais sociais;

A inquietação popular consequente a toda essa desordem institucionalizada que se pretende impor como lei e direito, como advertia Roberto Lyra Filho, criando interrogações angustiadas todos os dias, está minando a esperança de se vencer uma crise levada ao extremo desde o golpe de 2016. O arrastão da publicidade enganosa da sua sustentação levou multidão de ingênuas/os e desinformadas/os às ruas, agora está sendo substituído por outra. A de um golpe sobre o golpe, ao patrocínio do qual é chamada a violência intervencionista das forças armadas. Não poderia haver saída –  e isso possa se imaginar como saída  –  mais  inconveniente e inoportuna, que o comprovem as Comissões da Verdade. Se os remédios receitados pelo (des)governo de hoje só agravam o estado do povo paciente, não há de ser o medo, a violência, nem a ameaça, nem a tortura, nem o assassinato armados de ontem que o curarão.

O (des)caminhão de 1964 e de outros golpes anteriores sofridos pela nação tem de ser contido, como a história já se encarregou de mostrar,  pela conscientização popular do que sempre lhes serve de motivação, um poder de dominação e repressão da cidadania reproduzido a partir de sua própria força de reprodução indefinida,  covardemente disfarçada de pública e republicana. Se para isso não bastam discursos inflamados de indignação ética, a coragem da ação contrária tem de ser realista. Precisa vencer o complexo de inferioridade que lhe foi imposto, covenientemente e de fora, como se toda a desobediência, protesto, rebeldia e subversão fossem injustas e estivessem viciadas de ilegitimidade.

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