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Deus não é uma sentença metafísica

08/05/2015 12:35:45

Roteiro Homilético – 10 de maio / 2015 – VI Domingo da Páscoa /B

 

Neste domingo, a liturgia proclama, na 2ª leitura, a palavra do apóstolo João: “Deus é amor”. E o evangelho – continuação de domingo passado – apresenta Deus como a fonte do amor que animou Jesus a dar sua vida por nós, ensinando-nos a amar-nos mutuamente com amor radical.

 

 

“Deus é amor” e não uma sentença metafísica! “Amor” é uma expressão abreviada que quer abrir nossos olhos para a bondade Deus presente em nossa realidade cotidiana, e isso, sob dois aspectos: o amor que se revela na doação de Cristo por nós (o amor como dom) e o amor que nós devemos praticar para com os filhos de Deus (o amor como missão), sendo que o primeiro é modelo e fundamento do segundo. Assim, “amor” não significa, antes de tudo, que nós amamos a Deus, mas que Deus nos amou primeiro, dando seu Filho por nós (1Jo 4,10, 2ª leitura).

 

Este amor, manifestado na doação do Filho de Deus, é o maior: “Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida por seus amigos” (Jo 15,13) (evangelho). “Amigos”, nestas palavras de Jesus, deve ser entendido no sentido de “aqueles que ele ama”, pois o modelo de nosso amor é o que amou primeiro. O amor do Cristo é que nos tornou seus amigos. Amigos em vez de servos. Cristo não nos amou porque éramos amáveis, mas seu amor nos tornou amáveis (cf. Rm 5,7-11). Assim deve ser também o nosso amor pelos irmãos. Um pouco como aquela mulher que tem um marido não muito brilhante, porém muito amável a seus olhos, porque ela o escolheu (cf. 15,16).

 

O amor de Cristo por nós existe numa comunhão total, expressa, em Jo 15,15, em termos de “revelação”: Jesus nos revelou tudo aquilo que ele mesmo ouviu do Pai (cf. Jo 1,18). É a plena clareza da amizade, não a manipulação que caracteriza a relação servil. Quando Jesus nos envia para produzir fruto, para expandir seu amor, não devemos considerar isso como uma carga, mas como comunhão, participação de sua missão, que o Pai lhe confiou em união de amor.

 

Podemos ainda perguntar por que este tipo de amor é o maior. A comparação sugere que existem outros amores, menores. É o maior, porque ele não é condicionado por outra coisa, por privilégios, proveitos, compensações – afetivas e outras – etc. É o maior, porque é gratuito e, nesta gratuidade, vai até o limite: a doação total e gratuita de si mesmo em favor do amado. É o amor até o fim de que falou João no início da narração da Ceia (13,1).

 

Jesus nos confia a missão de repartir (e multiplicar) seu amor “para que sua alegria esteja em nós e nossa alegria seja levada à perfeição” (15,11). Isso, porque amar-nos até o fim é sua alegria, pois é a realização de seu ser, de sua comunhão com o Pai. É evidente que só seremos capazes de encontrar nossa plena alegria neste amor doado até o fim, na medida em que comungarmos com Cristo e assumirmos seu amor total como sendo a verdadeira vida. Quem se procura a si mesmo, não pode conhecer a alegria cristã.

 

O amor de Deus, manifestado em Cristo, toma a iniciativa e vai à procura de todos quantos possam ser amados. Ora, procurando amar a todos, Deus “escolhe” cada um que ele quer amar, e ama-o com amor de predileção (para Deus, isso não faz nenhum problema, pois ele não é limitado material e afetivamente). Deus ama o Filho. Este nos revela o amor do Pai amando-nos até o fim. E nós somos chamados a fazer o mesmo, para a multidão dos que podem ser nossos irmãos e filhos de Deus (e isso, não o podem somente os que não querem). Esta é a dinâmica do amor universal de Deus. Não ama “em geral”. Ama a cada um como amigo. Daí a necessidade de que estes amigos sejam unidos entre si por este mesmo amor. Este amor que forma comunidade é destinado a todos os que não se opuserem a que Deus os ame assim.

 

Disso temos um exemplo eloquente na 1ª leitura. Deus não conhece acepção de pessoas, nem se deixa influenciar por divergências de sistema religioso. O que ele quer mesmo é congregar todos os seus filhos num mesmo amor pessoal. Pedro, chefe da comunidade cristã, é escolhido para ser o instrumento desta missão, superando, inclusive, os tabus do sistema judaico, em que ele foi criado (At 10,9-16). Ora, quando ele vai ao encontro de seu campo de missão, já encontra os destinatários animados pelo Espírito de Deus. Como poderia recusar-lhes o batismo?

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