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Homenagem ao Jesuíta Balduíno Loebens

15/09/2014 14:55:56

Por Aloir Pacini SJ*

O corpo do padre Balduíno Loebens, SJ, 73 anos, foi encontrado pelos Índios Rikbaktsa, às 20h15min, sob a luz da lua na noite do dia 08/09/2014, no Rio Juruena, próximo à aldeia Pedra Bonita, no Estado do Mato Grosso. No outro lado do rio está o município de Castanheira (MT).g_20140909120429

O jesuíta estava desaparecido desde o dia 06, sábado. Ele almoçara na Aldeia Nova e subiria para a aldeia Areias Brancas para celebrar e pernoitar ali, no dia 6. Passou ainda na aldeia do Júlio para comprar própolis, mas não chegou na aldeia Areias Brancas. Os indígenas desta aldeia o procuraram e encontraram o barco no domingo de manhã: estava com a proa encima de umas pedras e a popa ainda dentro da água. Como não havia gasolina no tanque o sinal era de que o motor ficou ligado até gastar toda a gasolina. Há indícios de que o Padre Balduíno tenha sofrido um mal súbito e caído na água; ou mesmo estivesse tentando ligar o motor que tivesse parado e se desequilibrado e caído no Juruena; ou ainda que o barco tenha batido numa pedra, pois debaixo do barco existe uma saliência, e o choque o tivesse jogado para a água. Contudo, o que de fato aconteceu só Deus sabe, pois as batidas na voadeira não são muito graves e os seus pertences estavam sobre a voadeira da forma como o Padre Balduíno as arrumava.

Os indígenas procuraram na região por terra e por rio até a tarde de domingo. Como não o encontraram, foram à Fontanillas para pedir auxílio, pois ali estava acontecendo um festival de pesca. Uma equipe de bombeiros, Rikbaktsa e voluntários passaram a realizar as buscas. Foi localizado então, o corpo do Padre Balduíno boiando no rio Juruena, cerca de 20 quilômetros abaixo do barco.

O bispo de Juína, Dom Neri Tondello estava pessoalmente na região e foi quem recebeu a notícia dos indígenas que encontraram o corpo e “amarraram uma cordinha no pé” para não rodar, enquanto foram avisar: “Dom Neri, encontramos o corpo do Padre!” Enquanto eles se deslocaram ao local, a aldeia Pedra Bonita já tinha levado o corpo para lá e fizeram o ritual fúnebre conforme os costumes tradicionais da Tribo Rikbaktsa e queriam sepultá-lo ali.

Dom Neri respondeu ao pedido de sepultamente do corpo na terra indígena, com outra pergunta, qual das aldeias? Como não havia consenso entre os Rikbaktsa a respeito, o corpo foi levado para Juína nesta noite mesmo e velado na catedral. Dom Neri ainda pediu que os Rikbaktsa fossem fazer o ritual fúnebre na catedral no dia seguinte e disponibilizou ônibus. Às 14 horas começou um ritual dos Indígenas Rikbaktsa (cerca de 500 índios) em frente à prefeitura e foi se dirigindo como uma onda até a Catedral de Juína, onde aconteceria a celebração Eucarística, às 15 horas. Em seguida, o sepultamento aconteceu no cemitério de Juína.

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Homenagem da Tribo Rikbaktsa.

O Padre Balduino Loebens começou a atuar como Missionário Jesuíta ainda estudante em Utiariti, onde ficou dois anos acompanhando os estudantes de várias etnias. Foi ordenado padre em 1972 e, desde então, dedicou sua vida para evangelizar e cuidar das comunidades economicamente mais pobres, principalmente as aldeias indígenas. Atuou mais de 40 anos na região de Fontanillas, ao longo do Rio Juruena, atendendo as aldeias da Etnia Rikbaktsa e a população circunvizinha. Foi a Irmã Salete Lonardelli, que partiu em 1998, que o auxiliou a se qualificar nos trabalhos em saúde e passou a ser reconhecido pelos conhecimentos e atendimento nesta Pastoral. O Padre Balduíno era coordenador da Pastoral Indígena dos Rikbaktsa, na Estação Santo Inácio (Fontanillas), membro do CIMI (Conselho Indigenista Missionário) Regional Mato Grosso, organizava atividades na Pastoral da Saúde para os Rikbaktsa e população, por meio da ABILLAS (Associação Bioenergética de Fontanillas). O Padre Paulo César dos Santos da CPT MT observou: “Estamos em total solidariedade nesta hora de partida e de testemunho total e radical do nosso grande Pe. Balduíno. De todos os lados estamos ouvindo falar dele aqui em Cuiabá, é a vida que se estende pela beleza do que foi e do que sempre será.”

Sentiremos a ausência deste incansável amigo que dedicou sua vida a serviço dos Povos Indígenas, mas nos alegramos, pois está vivo: morreu nas águas que tanto o banhou e navegou levando o bem viver por onde passava. Dedicou-se sempre à Saúde Integral dos Povos Indígenas e da população em geral, pois atendia pessoas de todo Brasil e do exterior. Seu sorriso permanecerá em nossas lembranças e seu espírito estará presente nesta Amazônia tão linda e tão sofrida. Que seu exemplo simples anime outros missionários a continuarem a causa em defesa dos povos indígenas. O rio Juruena foi uma das suas grandes companhias neste meio século de sua vida. Conhecia sua força e fraqueza, suas armadilhas e seus segredos. Um dia, em tempos de ditadura e forte repressão, amarraram seus braços nas costas com algemas, como bandido, porque apoiava a luta pela demarcação da Terra Indígena do Japuíra, os acampamentos de sem-terra. Recordava este momento como um momento difícil, pois pensava que o iriam jogar na água assim amarrado sem poder nadar, ou mesmo temia que o barco batesse numa pedra, pois os carrascos não conheciam o rio, certamente se afogaria. Depois o arrancaram do barco no município de Juruena e o colocaram na prisão para um grande interrogatório de intimidação. O Padre Duílio e a comunidade católica de Juruena agiram rapidamente para o libertar com intervenção do Ministro da Justiça. Foi torturado com os sem-terra numa de suas viagens de volta para Fontanillas… Porém nunca desistiu de seus ideais.

Consternados, os Rikbaktsa falam muitas vezes em tristeza, mas estão mantendo os contatos com a família do Balduíno, com os jesuítas e com a Diocese para manterem o trabalho de solidariedade que vinha sendo feito aos povos indígenas e a todas as comunidades da região. O padre Martinho Lenz, sócio da Província BRM, representou o padre Vicente Zorzo, provincial, durante os encaminhamentos de luto de três dias declarados por Dom Neri. Em clima de oração, depois dos funerais, o bispo de Juína, as duas irmãs do Padre Balduíno (Irmãs Felícitas e Bernadete das Irmãs Escolares de Nossa Senhora), os jesuítas Padre Martinho Lens, Felício Fritsch, Claudio Lehnen e Aloir Pacini, nos encontramos ali para discernir os próximos passos.

Dom Neri disponibilizou um carro para irmos até Fontanillas recolher diários e objetos pessoais do Padre Balduíno, com o fim de guardar na sua casa em vista de um futuro museu. Não está claro como vai continuar o trabalho do Posto de Saúde articulado com o trabalho de Pastoral da saúde da diocese, pois o Padre Balduíno era pessoa fundamental nesta articulação: foi assumindo progressivamente uma vida simples, chinelos de dedo e calças de tergal, para o caso de cair na água, poder nadar com facilidade; teve um modo de evangelizar inculturado, valorizando e afirmando os valores culturais dos outros, e pleno, pensando o todo das necessidades humanas, um modo de presença libertadora junto ao Rikbaktsa, com respeito aos costumes indígenas e povos da Amazônia; promoveu encontros de pajés para fortalecer suas práticas tradicionais como fonte de equilíbrio e saúde das comunidades indígenas; com métodos de saúde tradicionais indígenas e, captando outras tantas medicinas, soube tratar as suas mais de 108 malárias, reforçou a saúde comunitária, os métodos naturais, homeopáticos e fitoterápicos de cuidado da saúde dos demais; foi uma presença testemunhal focada no serviço como Jesus Cristo lhe pedia.

Depois de dezenas de anos, o rio Juruena, em tempos aparentemente mais tranquilos, onde por tantos anos o padre Balduíno navegou levando vida, esperança, apoio e a alegria do Evangelho, se torna a água do seu novo nascimento e o rio Juruena o acolheu em seus braços para a sua passagem derradeira.

Feliz Páscoa, Padre Balduíno!

 

images * Aloir Pacini SJ é Jesuíta, indigenista. Graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE. Mestre em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e doutor na mesma área pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Professor da Universidade Federal de Mato Grosso.

 

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