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Cristãos comprometidos com a fé e a política

11/05/2018 11:55:46
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Por Robson Sávio

No período entre os dias 4 e 6 de maio, em Fortaleza, aconteceu uma reunião ampliada do Movimento Nacional de Fé e Política. Representantes de 14 estados, totalizando cerca de 85 participantes, se dedicaram à análise de conjuntura sociopolítica, atividades de formação e a preparação do 11º Encontro Nacional, que se realizará em julho de 2019, em Natal (RN) comemorando os 30 anos do movimento.

O Movimento Nacional Fé e Política foi criado em junho de 1989, durante um encontro de pessoas unidas pela fé cristã engajada nas lutas populares, com o objetivo de alimentar a dimensão ética e espiritual que deve animar a atividade política.  Ao longo de sua existência o Movimento promoveu encontros de estudo, dias de espiritualidade e publicou quinze cadernos sobre a relação entre Fé e Política.  Por definir-se como um serviço de formação e estímulo a grupos de reflexão, o Movimento não é mais do que um grupo informal de serviço aos grupos de base. Sua organização é muito simples: todos os seus membros são voluntários, sua coordenação geral é formada por seis membros escolhidos entre os antigos militantes mais dois representantes de cada estado dos locais onde foram realizados encontros nacionais. A secretaria-executiva é encarregada de ajudar a equipe do local onde será realizado o Encontro, produzir e publicar textos que ajudem a reflexão dos grupos, alimentar a página do Movimento na internet e fazer a articulação geral entre os grupos interessados. O espaço onde tudo acontece de fato é nos grupos de base. O Movimento apenas lhes proporciona incentivos e ideias. Mais informações em (www.fepolitica.org.br).

Segundo Leonardo Boff, um dos fundadores do Movimento, “A fé tem a ver diretamente com Deus e seu desígnio sobre a humanidade. Mas ela está dentro da sociedade e é uma das criadoras de opinião e de decisão. Ela funciona como uma bicicleta. Possui duas rodas, mediante as quais se torna efetiva na sociedade: a roda da religião e a roda da política. A roda da religião se concretiza pela oração, pelas celebrações, pelas pregações e pela leitura das Escrituras. Pela roda da política, a fé se expressa pela prática da justiça e da solidariedade. Como se vê, política é sinônimo de ética. Temos que aprender a nos equilibrar em duas rodas para andar corretamente. A Bíblia considera a roda da política como ética mais importante que a roda da religião como culto. Sem a ética, a fé fica inoperante. São as práticas que contam para Deus. Melhor que proclamar “Senhor, Senhor” é fazer a vontade do Pai. Concretamente, fé e política se encontram juntas na vida das pessoas. A fé inclui a política, quer dizer, um cristão deve se empenhar pela justiça e pelo bem-estar social; deve optar por programas que se aproximem daquilo que entendeu ser o projeto de Jesus e de Deus.”

A reunião em Fortaleza do Movimento contou com a análise se conjuntura conduzida pelo professor Juarez Guimarães (cientista político da UFMG) e pela Pastora Romi Bencke (secretária do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs – CONIC). Na ocasião, foi feito amplo debate sobre os desafios que a realidade política brasileira impõe aos cristãos comprometidos com uma sociedade mais justa, fraterna e solidária.

No sábado, dia 05, uma primeira mesa de debates intitulada “Políticas Públicas na perspectiva do Bem Viver”, com a participação da professora Tânia Bacelar (UFPE) e de Ivo Lesbaupin (Iser – Assessoria) analisou os desafios para a construção da sociedade do bem viver (um conceito que propõe a construção de novas realidades políticas, econômicas e sociais a partir de uma ruptura radical com as noções de “progresso” e “desenvolvimento”, pautadas pela acumulação de bens e capital, pelo crescimento infinito e pela exploração inclemente dos recursos naturais e que está colocando em risco a sobrevivência dos próprios seres humanos sobre a Terra).
Ainda no sábado, com a participação de Frei Betto e do Padre Manfredo Oliveira (UFC) discutiu-se o tema ética e sua relação com as práticas sociais. As abordagens trataram dos desafios sociais e ecológicos da crise de época, que também é uma crise de paradigmas, que se impõe sobre a sociedade capitalista, atualmente. É urgente o cuidado com as pessoas, principalmente “nas periferias existenciais e sociais”, conforme o Papa Francisco que também alerta toda a humanidade para o cuidado com a Casa Comum (a natureza).
O domingo foi dedicado a encaminhamentos com vistas à mobilização da grande rede de agentes sociais e políticos que formam o Movimento. Também foram acertadas as
principais ações para o próximo encontro nacional, em Natal.
Segue, abaixo, a carta divulgada pelo Movimento no final do encontro:
“O Movimento Nacional Fé e Política reunido em Seminário nos dias 04, 05 e 06 de maio em Fortaleza-CE, com o Tema POLÍTICAS PÚBLICAS, ÉTICA E PRÁTICAS SOCIAIS NA PERSPECTIVA DO BEM VIVER, com 80 (oitenta) participantes representando 13 (treze) Estados e o Distrito Federal, manifesta sua indignação diante dos últimos acontecimentos que ameaçam a democracia e o Estado de Direito. Tudo isso tem acarretado a perda da soberania dos direitos do povo brasileiro, em especial dos pobres e trabalhadores(as).
Temos constatado que o golpe jurídico-parlamentar ocorrido em 2016, com o impeachment da Presidente Dilma, demonstra parcialidade de parte da justiça brasileira com a participação da grande mídia e do capital nacional e internacional, e consolidam-se comportamentos nefastos à democracia como: o ódio, a intolerância e a violência. Esta última, expressa em diversos assassinatos de lideranças que se colocam em apoio aos direitos humanos dos pobres e excluídos, como aconteceu com a Vereadora Marielle Franco e seu motorista Ânderson.
Frente a tudo isso, os participantes do Seminário Nacional de Fé e Política vêm manifestar seu apoio e solidariedade ao Presidente Lula, companheiro de caminhada deste Movimento, depois de sua injusta condenação, sem provas e a sua prisão arbitrária.
Da mesma forma, em face da luta em defesa da reforma agrária e direitos dos trabalhadores/as do campo, repudiamos os diversos assassinatos, cerca de 70 (setenta), que ocorreram no campo, bem como, repudiamos a prisão do Padre Amaro. Tais violências têm como principal objetivo intimidar os(as) lutadores(as) sociais e criminalizar os movimentos sociais e populares.
À luz do Evangelho e do compromisso do Movimento Nacional Fé e Política com a construção da sociedade do Bem-Viver, reafirmamos nossa luta pela Vida, bem como direito a justiça de todos os pobres e excluídos da sociedade brasileira.
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