Colunas Sebastien Kiwonghi

18/06/2010

Entre a indiferença e a insensibilidade: há esperança nos trilhos do trem da vida

Considerando que os holofotes estão mais voltados para a organização da Copa do Mundo do que para os problemas cruciais da humanidade, procura-se trazer à baila, neste artigo, alguns temas importantíssimos para suscitar uma profunda reflexão e promover uma verdadeira mudança comportamental diante da absoluta falta de atenção aos problemas do outro, imagem e semelhança do totalmente Outro. Procura-se revelar que a alteridade do outro é um comando para fazer sair o ser humano da sua letargia, inércia, indiferença e insensibilidade diante dos problemas do mundo vividos pelo outro que é uma revelação na sua finitude do Outro que é Infinito.

No último artigo da nossa autoria no Dom Total, foi demonstrada a pertinência das informações relativas à revisão do Estatuto de Roma que instituiu o Tribunal Penal Internacional e o uso da criança soldados nas milícias na África e no mundo. Há de ressaltar nesse caso, as outras datas comemorativas do mês de junho que, evidentemente, não terão maior divulgação devido à Copa do Mundo como se pode esperar.

Já no dia 12, ocorrera a comemoração do Dia Internacional contra o trabalho infantil. É revoltante saber que, segundo a ONU, centenas de milhões de meninos e meninas no mundo inteiro estão engajadas em atividades vistas como violação dos seus direitos fundamentais à liberdade, à educação, à saúde e ao lazer. Destas crianças, mais da metade estão expostas às piores formas de trabalho infantil, trabalhando em ambiente perigoso, como escravos ou outras formas de trabalho forçado em atividades ilegais como o tráfico de drogas, prostituição e conflito armado.

No dia 15 de junho celebrou-se a luta contra a fome. Sabe-se que milhões de seres humanos vivem na pobreza extrema, para não dizer na miséria deplorável, outras ainda sobrevivem abaixo de um dólar por dia enquanto uma minoria goza de todos os privilégios até imunidades, não se importando com a causa dos mais pobres. “We are the World”, mas que mundo esse?

Quanto ao dia 16 de junho, mais uma vez a mídia nem usou sequer uma “vuvuzela” sul africana para divulgar a comemoração do Dia Internacional da Criança Africana. Pode-se indagar, mas o porquê de uma criança africana ser celebrada e não européia ou latina americana? Pois é, vale lembrar que tal Dia foi criada em 1991 pela Organização da Unidade Africana, atualmente União Africana, para recordar as vítimas da tragédia de Soweto em 1976 em que morreram centenas de jovens negros sul-africanos em sua maioria crianças, que protestavam contra a péssima qualidade de ensino e a imposição da “africâner” como língua a ser adotada nas escolas. Seria, então, a continuidade da política de “apartheid”.

A OUA na época procurou também incluir nesta data os direitos negados à infância do continente africano. O 19º aniversário do massacre de Soweto deve levar as grandes potências que apoiavam na época o poder da minoria branca que instituiu a política de apartheid sem se importar com as condições dos negros arrancados de suas terras férteis para as “senzalas” de Soweto a (re) pensar a sua atual política para com o continente africano na aplicabilidade dos Objetivos do Milênio. (Re) pensar, sim, como reduzir em dois terços a mortalidade infantil até 2015, e qual o seu compromisso para reduzir as tragédias que assolam o continente, sobretudo, na questão de saúde gratuita para as crianças africanas e mulheres grávidas.

Já que a Copa do Mundo acontece na África, torna-se imperioso tal compromisso para lembrar não apenas as vítimas de Soweto, mas também as outras que morrem de guerras, malária, sarampo e HIV/sida. Comenta-se sobre o barulho enlouquecedor das “vuvuzelas”sul africanas, mas pouco, quase nada, sobre os gritos abafados de milhões de crianças africanas que morrem com menos de cinco anos. Segundo o relatório da ONG “Save The Children” – Salve as Crianças-, somente na África subsaariana todos os anos morrem 4 (quatro) milhões de crianças com menos de cinco anos. São vidas ceifadas pela ganância dos grandes e daqueles que têm, mas são insensíveis e indiferentes aos problemas cruciais dos pobres e miseráveis, paradoxalmente, ricos em recursos minerais, mas sensíveis e eficazes em salvar os bancos com bilhões de dólares e euros a fim de não ser afetados em sua avareza dourada. Ao invés de “Save the Children”, importa-lhes o “Save the Money “, o “Save the Bank”.

No dia 20 de junho comemora-se o Dia Mundial dos Refugiados. Resta, então, registrar o grito da esperança que sai da nossa carruagem de liberdade nos trilhos da vida, retomando, deste modo, a mensagem do vídeo gravado por Angelina Jolie, embaixadora da boa vontade do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) para celebrar o Dia precitado, nesses termos, já traduzidos do inglês: “Ter uma casa, pertencer a um lugar onde se sente seguro é algo que a maioria de nós tem garantido... Por favor, lembrem de milhões de pessoas pelo mundo, forçadas a deixar seus lares. A Única esperança de retorno pode ser esquecida.” (grifo nosso)

Comentários







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Camila Caravelli | 08/10/2011 17:53
Golpe contra a ditadura: uma reconsideração geopolítica duvidosa: Prezado professor Sebastien é com satisfação que leio o artigo do senhor. Acredito que as interferências em prol da democracia é apenas mais uma desculpa para as grades potências tomarem o poder em Estados em desenvolvimento. Acredito que não é possível impor a democracia em país algum, este sistema deve ser conquistado pela própria nação, por um processo histórico necessário e importante. Essa falsa imposição imposta pelos representantes da ONU não é mais tão invisível aos olhos das pessoas, a sociedade começa a perceber que tudo se trata de um interesse com vistas econômicas e não um favor visando o crescimento e a segurança dos países em desenvolvimento. Tudo gira em torno de interesses.
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Camila Caravelli | 08/10/2011 17:52
Prezado professor não sei o por que, mas não é possível mais responder aos seus artigos recentes. Por isso, respondo ao artigo: Golpe contra a ditadura: uma reconsideração geopolítica duvidosa neste artigo. É mesmo uma pena não podermos mais responder aos seus artigos. Por que isso está ocorrendo? Irei enviar o meu comentário na próxima mensagem, pois aqui o espaço será pequeno.
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ALBERTO VERAS | 20/06/2010 19:14
Grande mestre, parabéns por fazer memória a tantos fatos importantes e que relatam a crueldade capitalista imposta pelos exploradores europeus que impuseram pela política racista e divisionista para atender seus objetivos. O junho africano , é de lutas e o nosso aqui ainda está vinculado aos ideais da colonizacao, pois fomos o último país do mundo a abolir a escravidao.Neste mes temos muitas festas juninas; sao joao,santo antonio,sao pedro, corpus cristis, dia dos namorados e talvez um pouco lembrado o dia mundial do meio ambiente.Ótimo artigo, brilhante como sempre, Alberto Veras
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alexandra da silva | 19/06/2010 15:28
Dr.sebastien kiwonghi .parabéns pelo artigo .esse artigo mostra a realidade de milhões de crianças que só precisam serem olhadas com um olhar de misericordia ,precisamos acorda para realidade que esta em nossa volta e sermos mais snsivel com o proximo.abraço
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Maria de Fátima da Rocha Oliveira | 18/06/2010 20:29
Dr. Sebastien Kiwonghi, parabéns pelo artigo. É a mais pura verdade. A maioria das pessoas no mundo, que poderia fazer alguma coisa a favor do pobre e miserável, pára para ver as partidas de futebol da Copa, mas é incapaz de fazer qualquer coisa para ajudar o próximo. A maioria se esquece que um dia pode ser o "próximo". Dinheiro não compra tudo neste mundo. É preciso que a Humanidade valorize a vida ou se autodestruirá, pois há uma banalização generalizada da vida humana. Abraço, Maria de Fátima
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