Colunas Pablo Villaça

19/02/2010

A Fita Branca (Das Weisse Band)


Direção: Michael Haneke

Roteiro: Michael Haneke

Elenco: Steffi Kühnert, Susanne Lothar, Marisa Growaldt (Magd), Michael Kranz (Hauslehrer), Ursina Lardi (Baronin Marie-Luise), Ulrich Tukur

Sinopse: No ano de 1913, estranhos eventos acontecem um escola no norte da Alemanha, tudo indica que um ritual de punição esteja afetando o sistema do colégio.

Estreia: 12/2/2010 (Brasil)

Ao longo dos últimos 20 anos, o cineasta alemão Michael Haneke construiu uma filmografia admirável a partir de histórias nada palatáveis sobre seres humanos ainda menos. Aliás, se há algo que podemos deduzir a partir de sua obra, é que Haneke encara a Humanidade com pessimismo; se a oportunidade surgir, até mesmo o aparentemente mais nobre dos indivíduos irá torturar e matar seu semelhante caso isto lhe traga algum benefício – e, embora seja um pouquinho mais otimista que o diretor (sou pessimista quanto à Humanidade, mas acredito no Indivíduo), devo confessar que sua visão niilista do mundo (mesmo considerando, por exemplo, o desfecho otimista de Tempos de Lobo) normalmente proporciona material para ricas discussões.

Pois se Haneke já é habitualmente cínico com relação aos seus personagens, imaginem então o que faz neste A Fita Branca, que, não por acaso, é ambientado na Alemanha pré-Primeira Guerra Mundial: focado numa pequena vila que aparentemente ainda vive num regime plenamente feudalista, o roteiro do próprio diretor aborda uma série de incidentes violentos que tomam o lugarejo de surpresa sem que os habitantes consigam identificar o(s) autor(es) das ações. Enquanto tentam compreender exatamente o que está acontecendo, aqueles indivíduos são obrigados a lidar com suas próprias crises internas, desde confrontos entre pais e filhos a protestos mais chocantes sobre a natureza do trabalho e da remuneração oferecidos pelo Barão que domina o local. Em meio a tudo isso, o pacato professor (Friedel) da única escola da vila tenta trazer algum sentido para o que testemunha enquanto vive uma profunda paixão por uma jovem babá.

Fotografado por Christian Berger num preto-e-branco austero obviamente (e apropriadamente) mais preocupado com a tristeza e a rigidez daquele universo do que com a beleza das imagens em si, A Fita Branca poderia perfeitamente ser apresentado numa sessão dupla com Dogville – outro brilhante longa que usava o microcosmos de um vilarejo como ponto de partida para uma impiedosa alegoria sobre a condição humana: assim como as boas intenções iniciais de ajudar a personagem de Nicole Kidman no trabalho de Lars von Trier logo cedia lugar ao egoísmo e à crueldade, aqui (e na vida real) barbaridades são cometidas em nome da Religião, dos “bons costumes” e do “bem estar” da sociedade.

Não é à toa, aliás, que o confronto de gerações impera ao longo da narrativa, seja entre pais e filhos ou mestres e alunos: o Pastor vivido por Ulrich Tukur, por exemplo, surge como um verdadeiro monstro em seus esforços de “educar” os vários filhos através da repressão de qualquer manifestação de individualidade ou curiosidade – e a “fita branca” que dá título ao projeto e que ele encara como um símbolo de “inocência e pureza” é, na realidade, uma amarra do próprio espírito humano. Da mesma maneira, Haneke – como também é recorrente em sua filmografia – não esconde depositar maiores esperanças na alma feminina em oposição à brutalidade que enxerga no temperamento masculino, já que são vários os momentos em que as mulheres do vilarejo são humilhadas, diminuídas e ignoradas por seus pares do sexo oposto. Finalmente, A Fita Branca inclui também um forte ressentimento de classe na dinâmica entre os personagens, o que eventualmente parece propício a desencadear uma explosão que se tornará difícil de conter, sacudindo irremediavelmente os alicerces daquela sociedade.

Mas, acima de tudo, é impossível ignorar que os jovens vistos ao longo da projeção são integrantes daquela geração que finalmente levará o Nazismo ao poder, propiciando uma das maiores tragédias sociais, políticas e humanas da História do planeta – e não é difícil perceber que, de acordo com Haneke, esta catástrofe se tornou inevitável a partir do momento em que acompanhamos a juventude sendo corrompida pela amarga, ressentida e apodrecida geração anterior.

Ou, numa análise mais direta e simplista, como esperar algo de positivo partindo de um bando de seres humanos tão miseráveis?


Pablo Villaça é crítico de cinema desde 1994 e colaborador do quadro "Ponto Crítico" da revista SET. Escreve também para o renomado Movie City News, além de ser o único brasileiro citado pelo Rotten Tomatoes, mais famoso portal de críticas da Internet. Em 2005, lançou seu primeiro livro, "O Cinema Além das Montanhas". Editor do site Cinema em Cena, foi o único profissional estrangeiro a participar em Nova York de um seminário sobre Crítica promovido pelo jornal The New York Times. Em 2008, escreveu e dirigiu seu primeiro filme, o curta-metragem "A_Ética".


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