Colunas Pablo Villaça

27/11/2010

Você Vai Conhecer o Homem Dos Seus Sonhos


Direção: Woody Allen

Roteiro: Woody Allen

Elenco: Naomi Watts, Antonio Banderas, Freida Pinto, Josh Brolin, Anthony Hopkins

Sinopse: Depois que Alfie deixa Helena em busca de sua juventude perdida e de uma jovem chamada Charmaine, Helena abandona a racionalidade e se rende aos conselhos de uma suposta vidente. Enquanto isso, Sally, descontente com sua vida, se apaixona por seu charmoso chefe, Greg. Já Roy, um escritor que espera ansiosamente por uma resposta a respeito de seu último manuscrito, se sente atraído por Dia, um mulher misteriosa que chama sua atenção depois que a vê por uma janela.

A última grande fase de Woody Allen teve fim em 1997 com seu excepcional (e subestimado) Desconstruindo Harry. Desde então – e lá se vão 13 longos anos -, o cineasta manteve a impressionante média de um novo filme por ano e a não tão impressionante marca de apenas dois títulos realmente bons (Poucas e Boas e Vicky Cristina Barcelona) e um excepcional (Match Point); o resto ficou entre o dispensável (O Sonho de Cassandra) e o insuportável (Scoop – O Grande Furo). Agora, com este Você Vai Encontrar o Homem de seus Sonhos, Allen começar a dar a clara impressão de ter desistido completamente de fazer algum trabalho original ou minimamente relevante, como se continuasse a trabalhar apenas para se manter ativo, escrevendo qualquer coisa que lhe venha à mente, buscando financiamento em qualquer país e usando seu velho prestígio para escalar atores de renome – mas sem se preocupar com o resultado final.

O que, afinal, motivou o diretor a realizar este projeto? Alguma preocupação existencial, moral ou psicológica? Basta assistir a vinte minutos do filme para perceber que, se foi este o caso, a questão foi resolvida internamente por Allen antes de escrever um só diálogo, já que o roteiro não traz absolutamente nenhum insight digno de nota sobre o que quer que seja. Acompanhando as interações e os flertes entre vários personagens que talvez até merecessem uma história melhor, a narrativa segue Roy (Brolin), um escritor decadente que, sem trabalho, provoca o afastamento gradual de sua esposa Sally (Watts), que, por sua vez, se apaixona pelo chefe, Greg (Banderas). Enquanto isso, o pai da moça, Alfie (Hopkins), abandona a esposa de décadas, Helena (Jones), para ficar com uma ex-prostituta, Charmaine (Punch). É então que Roy se interessa por uma vizinha, Dia (Pinto), e...

... mas você certamente já compreendeu o tema principal do longa apenas a partir da descrição logo acima: o ser humano – especialmente os homens – tende a se tornar insatisfeito com o que tem e a desejar algo diferente, idealizado, como uma forma de provar sempre o próprio valor e também de sonhar com uma felicidade que, na prática, é impossível de ser alcançada. Assim, se Roy inicialmente cobiça a vizinha ao vê-la pela janela, a primeira coisa que nota, ao pular para o apartamento da moça, é seu antigo apartamento e o corpo da ex-esposa. Infelizmente, esta não é uma observação particularmente original de Allen (nem mesmo em sua filmografia) e sua apresentação se mostra igualmente óbvia.

Trabalhando com um roteiro que certamente deveria ter passado por grandes alterações estruturais (ele salta de um flashback a outro como se tivesse se esquecido de ilustrar passagens importantes da história), o filme ainda apela para o uso excessivo da narração em off, que se encarrega de desenvolver a trama em vez de permitir que isto ocorra organicamente – e assim, quando Dia se apaixona por Roy, seu interesse aparentemente inexplicável (o sujeito é um derrotado que confessou espioná-la enquanto trocava de roupa) é estabelecido pelo narrador, que simplesmente nos informa do sentimento da moça e pronto.

Com a abordagem tradicional de Allen, que aposta em longos planos que se limitam a acompanhar as conversas dos personagens, Você Vai Conhecer o Homem de Seus Sonhos é tecnicamente competente como todos os trabalhos do cineasta, destacando-se, claro, a fotografia do fantástico Vilmos Zsigmond (que pinta Londres em tons que oscilam corretamente entre o caloroso e o frio) e os figurinos de Beatrix Aruna Pasztor, que acerta particularmente ao trazer Roy com roupas sempre sem vida e desinteressantes. Brolin, aliás, se destaca no elenco ao encarnar um tipo divertidamente rabugento, ao passo que Anthony Hopkins, que agora aparentemente vive no piloto automático, às vezes tenta adotar os maneirismos de Woody Allen, mas sem muito empenho. E se Watts e Banderas pouco podem fazer com tipos unidimensionais (a mulher frustrada e o rico sedutor), Lucy Punch desperdiça a maior oportunidade do projeto ao jamais conseguir definir a natureza de Charmaine, que surge ora como uma criatura estúpida, ora como uma loira superficial, eventualmente se estabelecendo apenas como um clichê.

Sem tentar se apresentar como comédia, drama ou romance, o filme parece satisfeito somente com a chance de afirmar que a ilusão é sempre melhor do que a realidade. Se for este o caso, seria melhor que Allen ouvisse a própria mensagem e se aposentasse, nos deixando com a ilusão de que algum dia será capaz de voltar a realizar um trabalho memorável.

Observação: esta crítica foi originalmente publicada como parte da cobertura do Festival do Rio 2010.


Pablo Villaça é crítico de cinema desde 1994 e colaborador do quadro "Ponto Crítico" da revista SET. Escreve também para o renomado Movie City News, além de ser o único brasileiro citado pelo Rotten Tomatoes, mais famoso portal de críticas da Internet. Em 2005, lançou seu primeiro livro, "O Cinema Além das Montanhas". Editor do site Cinema em Cena, foi o único profissional estrangeiro a participar em Nova York de um seminário sobre Crítica promovido pelo jornal The New York Times. Em 2008, escreveu e dirigiu seu primeiro filme, o curta-metragem "A_Ética".


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