23 Set 2011 | domtotal.com

A felicidade para os gregos


Por Émilien Vilas Boas Reis

O tema da felicidade não é um tema atual. Apesar de hoje em dia as pessoas buscarem-na a todo custo, este é um assunto levantado pelos gregos e assimilado como a principal questão ética da antiguidade e da alta idade média. Felicidade era um tema sério na antiguidade, que não podia ser resolvida com meia dúzia de livros na estante.

O precursor desta problemática fora Sócrates (469 a.C-399 a.C), mas é Aristóteles quem sistematiza esta questão (384 a.C-322 a.C). Em sua principal obra ética, denominada Ética à Nicômaco, o estagirita tem o seguinte raciocínio: todas as coisas buscam o seu fim (“télos”), que é sinônimo de bem; o fim do homem é a felicidade (“eudaimonia”). A grande questão é o que significa realmente felicidade.

A maioria das opiniões, nota o pensador, se encerra nas noções de riqueza, honra e glória. Para chegar ao seu conceito de felicidade, Aristóteles afirma que o homem é caracterizado por possuir a razão, isto o diferencia das demais coisas do mundo. Assim, felicidade deve ser uma atividade da razão. Esta atividade será denominada contemplação. Podemos associar a contemplação à reflexão. O ideal de sábio está inserido dentro do pensamento ético aristotélico. O sábio é feliz. O detalhe é que por ser uma atividade, a busca por ela deve ser constante. Ter sido feliz ontem não significa ser feliz hoje. Outro dado importante é que para Aristóteles, a felicidade é atingida dentro da comunidade humana (polis).

No fim do século IV a.C a “polis” grega entra em ruína. O mundo é a casa do homem, que se torna cosmopolita. É preciso repensar a questão da felicidade em um mundo agora plural e sem fronteiras. As propostas mais conhecidas são dadas pelas escolas filosóficas cética, epicurista e estóica.

A escola cética parte da premissa de que o homem não tem certeza de nada, o que era natural num mundo que parecia absoluto, mas que entrara em crise. O homem para ser feliz deve suspender os juízos (“epoché”). Assim, cria-se uma espécie de indiferença perante as coisas, o que evitaria o sofrimento pelas perdas de certezas.

A escola epicurista parte do entendimento de que o mundo é feito apenas de átomos e vazio. O mundo é fruto de um acaso encontro entre os átomos. O homem, como constituinte deste mundo, também é feito de átomos. A partir da percepção da natureza, os epicuristas afirmam que a fuga da dor e a busca pelo prazer são princípios fundamentais da natureza; nesse sentido, a busca pelo prazer é o fim do ser humano, sendo este prazer proporcionado pelas satisfações do corpo. Temos, portanto, uma visão hedonista de felicidade proposta pelos epicuristas.

A escola estóica afirma que toda a natureza (“physis”) é uma manifestação do “logos” divino, uma espécie de razão que está inserida em todas as coisas. O homem também possui um “logos” (razão), que participa do lógos divino; desta feita, a felicidade para os estóicos é o homem viver conforme a natureza (razão). Tal visão possibilita uma autossuficiência humana. Cada homem para ser feliz depende de si próprio, independentemente do lugar e da situação.

O que une as concepções gregas sobre a felicidade é a noção de que a possibilidade de atingi-la está no poder de cada indivíduo. Outro ponto essencial é o fato da felicidade poder ser alcançada neste mundo. Tais visões serão transformadas com o cristianismo, mas isto é outra história. Entre os gregos e os livros de autoajuda da contemporaneidade fico com os primeiros (mesmo desconfiando desta autossuficiência humana).

Émilien Vilas Boas Reis
é graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mestre e Doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Professor de Filosofia do Direito e Metodologia de Pesquisa na Escola Superior Dom Helder Câmara.
Comentários
+ Artigos
Mais Lidas
Instituições Conveniadas