Colunas Celito Meier
Trabalho com projetos interdisciplinares
Estamos muito cientes de que nosso fazer pedagógico deve estar orientado para a formação de alunos competentes. E essa competência se verifica na capacidade de transferência, aplicação e intervenção em realidades novas, que é justamente o terreno dos projetos que transcendem a disciplina e se encaminham para a complexidade da vida cotidiana.
Nos projetos, os alunos são desafiados a servir-se de todo o saber prévio construído como “caixa de ferramenta”, para melhor resolução do projeto que, em suas múltiplas naturezas possíveis, não é previamente previsível seu desfecho. Assim, alunos competentes saberão levantar hipóteses, resolver uma situação-problema, intervir da melhor forma na realização do projeto de trabalho.
Convém recordar que a natureza interdisciplinar dos projetos não tem um final previsível, seus desmembramentos poderão ser os mais diversos. O que requer atitude de pesquisa e espírito de abertura para os desafios possíveis. Às vezes, inclusive, poderá ser requerida a presença de algum profissional especialista para um esclarecimento ou encaminhamento das dúvidas que houver. O importante é o espírito investigativo que toma conta do grupo de parceiros, alunos e professores que, dessa forma, realiza o espírito da educação.
Em decorrência da dinâmica que caracteriza um projeto, falar em avaliação é necessariamente agir em conformidade com as dimensões diagnostica, processual, formativa, cumulativa e participativa que caracteriza a avaliação escolar. Deve-se pensar nas melhores estratégias de avaliação das etapas do processo e de socialização do produto do projeto, em conformidade com a natureza do projeto.
A experiência nos ensina que a maior dificuldade para a realização dos projetos interdisciplinares não está, em si, no corpo docente; mas na estrutura da escola que não fomenta o encontro dos professores para que pensem suas aulas coletivamente, interdisciplinarmente. Em havendo o espaço dedicado para a construção de planejamento coletivo dos conteúdos comuns e próximos às áreas afins, a interdisciplinaridade surge como que naturalmente e com ela nascerão os projetos e o espírito investigativo.
Aos educadores que há muito já sabem que o todo é muito maior que a soma das partes e que a inteligência está na capacidade de perceber e construir relações,
com estima e gratidão,
Celito Meier
Notas
Na perspectiva escolar, a interdisciplinaridade não tem a pretensão de criar novas disciplinas ou saberes, mas de utilizar os conhecimentos de várias disciplinas para resolver um problema concreto ou compreender um determinado fenômeno sob diferentes pontos de vista. Em suma, a interdisciplinaridade tem uma função instrumental. Trata-se de recorrer a um saber diretamente útil e utilizável para responder às questões e aos problemas sociais contemporâneos .1
É importante considerar os saberes acumulados como elementos da “caixa de ferramentas” ou da reserva de materiais nas quais o artesão busca livremente, sem hesitar em desviar, ajustar, completar essa “herança” para chegar a seus fins. [...] Para transferir, é necessário unir saber e experiência.2
1PARÂMETROS curriculares nacionais. Ensino Médio. Brasilia, MEC/SEM, 2000. P. 21. Acessível em http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/blegais.pdf
2PERRENOUD, Philippe. Pedagogia diferenciada. Das intenções à ação. Trad. Patrícia C. Ramos. Porto Alegre: Artmed Editora, 2000. P. 65
Celito Meier
Celito Meier é teólogo, filósofo e educador, professor de filosofia no Colégio Santo Agostinho. É autor de diversos livros, especialmente, "A Educação à luz da Pedagogia de Jesus de Nazaré", ed. Paulinas; "Filosofia: por uma inteligência da complexidade", da PAX Editora; e a coleção "Educação para o Pensar: diálogos filosóficos", da PAX Editora, uma coleção de 36 livros de Filosofia para Ensino Fundamental.
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