Colunas João Batista Libânio
06/06/2012
Desafios da Igreja em face da Sociedade midiatizada
![]() A Igreja nasce da Palavra, vive da Palavra e prega a Palavra (Foto: Divulgação) |
A Igreja nasce da Palavra, vive da Palavra e prega a Palavra. Nada lhe soa mais conatural que a Palavra nas diversas formas: falada, escrita e agora feita virtual. Esta não lhe causa nenhum estranhamento. No entanto, a pastoral atual atemoriza-se diante do monstro midiático. Que lhe passa?
Cada salto que a palavra dá provoca revolução cultural. No princípio, a cultura oral reinava serena nas transmissões de estórias, mitos, sagas, contos e tradições religiosas de geração em geração. Cada nova leva humana guardava a herança oral dos antepassados e cuidava de que ela se transformasse em vida no presente e reserva para o futuro.
Por mais viva e resistente que se mostrasse a cultura oral, plasmando mentes e corações, participava da fragilidade da morte inesperada e coletiva, deixando poucos sinais de sua existência e de difícil leitura arqueológica. Quando se inventou a escrita, a cultura humana mudou qualitativa e definitivamente. Até hoje nos deliciamos com as criações geniais do passado. E tradições orais de milhões de anos se perderam na bruma dos tempos.
A tecnologia avançou de tal modo que novos sinais além da letra manuscrita e impressa cristalizam conhecimentos, informações. Ultrapassam a lentidão da escrita e a monotonia das letras. Articula letra, fala e imagem, facilitando e aligeirando a compreensão. Em vez de o leitor incauto ir tropeçando sobre as palavras em busca da intelecção, a imagem lhe invade o interior, trazendo idéias, sentimentos, ideologias, valores, sem mesmo que perceba o que assimila. E se se recorre à escrita, esta adquire velocidade inaudita, codificada em novas formas.
E para a evangelização que significa tal revolução? Vantagens e riscos. De qualquer ponto em que esteja, o evangelizador alcança milhares, milhões e, nalguns casos, bilhões de fiéis. Lança a mensagem no ar da Internet, de rede de TVs, de programas gravados e reproduzidos. Dorme sobre os louros de presença além de toda imaginação. Ecoa-lhe a frase de Paulo: "A palavra de Deus não está acorrentada", (2Tm 2, 9), mas solta pelo mundo.
Há "poréns" nessa evangelização. O evangelho não se entende como palavra para ser ouvida, mas aceita, assumida e vivida. A midiática deixa-a no simples nível da informação. O grau máximo da palavra se realiza no sacramento e esse se vivencia no interior de uma comunidade. A midiática, em vez de gerar comunidades, tem criado ilhas isoladas no silêncio dos computadores, cujas ligações não comprometem em nada a vida comunitária.
Aconteceu. Duas pessoas entrecruzaram-se em um chat. A relação afetiva entre elas navegava veloz e promissora pelos rios da Internet. Em dado momento, um dos parceiros cansou-se. Simplesmente digitou delete e tudo terminou. Assim a mensagem evangélica que entra pela midiática permanece na tela enquanto for interessante. A qualquer momento, o passivo espectador toca, bem de leve uma teclazinha do laptop, e tudo desaparece.
A midiática tem obtido muito pequeno resultado no fazer a ponte do virtual para o real. Eis o desafio pastoral. A Igreja, por natureza comunhão entre fiéis, detém dentro de si a vocação de conduzir as pessoas até o encontro em comunidade. Se ela realizar tal missão, contribuirá para transformar em profundidade a sociedade midiática, individualista, hedonista em direção à aben-sonhada solidariedade humana.
Cada salto que a palavra dá provoca revolução cultural. No princípio, a cultura oral reinava serena nas transmissões de estórias, mitos, sagas, contos e tradições religiosas de geração em geração. Cada nova leva humana guardava a herança oral dos antepassados e cuidava de que ela se transformasse em vida no presente e reserva para o futuro.
Por mais viva e resistente que se mostrasse a cultura oral, plasmando mentes e corações, participava da fragilidade da morte inesperada e coletiva, deixando poucos sinais de sua existência e de difícil leitura arqueológica. Quando se inventou a escrita, a cultura humana mudou qualitativa e definitivamente. Até hoje nos deliciamos com as criações geniais do passado. E tradições orais de milhões de anos se perderam na bruma dos tempos.
A tecnologia avançou de tal modo que novos sinais além da letra manuscrita e impressa cristalizam conhecimentos, informações. Ultrapassam a lentidão da escrita e a monotonia das letras. Articula letra, fala e imagem, facilitando e aligeirando a compreensão. Em vez de o leitor incauto ir tropeçando sobre as palavras em busca da intelecção, a imagem lhe invade o interior, trazendo idéias, sentimentos, ideologias, valores, sem mesmo que perceba o que assimila. E se se recorre à escrita, esta adquire velocidade inaudita, codificada em novas formas.
E para a evangelização que significa tal revolução? Vantagens e riscos. De qualquer ponto em que esteja, o evangelizador alcança milhares, milhões e, nalguns casos, bilhões de fiéis. Lança a mensagem no ar da Internet, de rede de TVs, de programas gravados e reproduzidos. Dorme sobre os louros de presença além de toda imaginação. Ecoa-lhe a frase de Paulo: "A palavra de Deus não está acorrentada", (2Tm 2, 9), mas solta pelo mundo.
Há "poréns" nessa evangelização. O evangelho não se entende como palavra para ser ouvida, mas aceita, assumida e vivida. A midiática deixa-a no simples nível da informação. O grau máximo da palavra se realiza no sacramento e esse se vivencia no interior de uma comunidade. A midiática, em vez de gerar comunidades, tem criado ilhas isoladas no silêncio dos computadores, cujas ligações não comprometem em nada a vida comunitária.
Aconteceu. Duas pessoas entrecruzaram-se em um chat. A relação afetiva entre elas navegava veloz e promissora pelos rios da Internet. Em dado momento, um dos parceiros cansou-se. Simplesmente digitou delete e tudo terminou. Assim a mensagem evangélica que entra pela midiática permanece na tela enquanto for interessante. A qualquer momento, o passivo espectador toca, bem de leve uma teclazinha do laptop, e tudo desaparece.
A midiática tem obtido muito pequeno resultado no fazer a ponte do virtual para o real. Eis o desafio pastoral. A Igreja, por natureza comunhão entre fiéis, detém dentro de si a vocação de conduzir as pessoas até o encontro em comunidade. Se ela realizar tal missão, contribuirá para transformar em profundidade a sociedade midiática, individualista, hedonista em direção à aben-sonhada solidariedade humana.
João Batista Libânio
é teólogo jesuíta. Licenciado em Teologia em Frankfurt (Alemanha) e doutorado pela Universidade Gregoriana (Roma). É professor da FAJE (Faculdades Jesuítas), em Belo Horizonte. Publicou mais de noventa livros entre os de autoria própria (36) e em colaboração (56), e centenas de artigos em revistas nacionais e estrangeiras. Internacionalmente reconhecido como um dos teólogos da Libertação.
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