27 Jun 2012 | domtotal.com

Deus dentro de nós


Ultimamente, percebe-se que a experiência religiosa que ele exprime pode fornecer novo sentido à busca de Deus, cujo rasto a recente Modernidade arrisca perder

Por Johan Konings

‘Intimior íntimo meo’, ‘mais dentro de mim que eu mesmo’, com estas palavras Santo Agostinho concluiu sua busca de Deus.

Santo Agostinho está na crista da onda. Não só teólogos e mestres espirituais, também os filósofos estão voltando sua atenção para este pensador e orador, que tão profundamente marcou toda a teologia e espiritualidade ocidental.

Ultimamente, percebe-se que a experiência religiosa que ele exprime pode fornecer novo sentido à busca de Deus, cujo rasto a recente Modernidade arrisca perder. Pois o homem moderno dos últimos dois ou três séculos estava procurando Deus lá fora, e acabou livrando-se dele, pois morreu. Lá fora não se percebe mais nada senão um universo em expansão, um big bang, ou, em escala inversa, fórmulas genéticas e estruturas inframoleculares. E para os milagres desse deus falecido também não há mais lugar, pois comprometeriam a tecnologia.

Entre a Idade Média e o início da Modernidade aconteceu um trágico mal-entendido. Quando Aristóteles pensou deus como ‘causa primeira’, Santo Tomás explicou muito bem que isso não quer dizer primeiro de uma série, pois sempre voltaria a questão do ovo e da galinha. A ‘causa primeira’ é fora de série, de outra ordem, mas o espírito mecanicista insistiu em pensar deus como explicação das coisas. Fisicamente não funcionou mais. E moralmente (‘se não há deus tudo pode!’)? Também não, pois ele permite sofrimento inocente, castiga quem não merece e deixa em paz quem merece castigo. Um deus imoral! De fato, querer situar deus fora de nós é excluí-lo, matá-lo.

O homem da modernidade é tão ciumento de sua autonomia que prefere deixar Deus fora de sua casa. Mas Deus não é disso. Ele é a última e decisiva referência de nossa vida, o referente absoluto da responsabilidade que justifica nossa autonomia. Pois se não tivéssemos responsabilidade não precisaríamos ser autônomos, poderíamos deixar nos conduzir ou seduzir por aquilo que der e vier. O que de fato muitos fazem.

E essa referência, nós a encontramos dentro de nós. No coração que não quer parar, inquieto enquanto se confronta com a incompletude dentro e a injustiça fora. Coração que não descansa até descansar Nele.

Foi o que sentiu Agostinho: “Tarde te amei .... Eis que estavas dentro, e eu fora .... Estavas comigo, e não eu contigo” (Confessiones, X)

Mas Agostinho, filho do seu tempo e de suas buscas esotéricas (‘eso’, em grego, é ‘dentro’), poderia ser chamado de intimista. Nós sentimos as coisas um pouco diferente. O ‘dentro de nós’ é percebido também como ‘entre nós’. Antigamente traduzia-se a frase Lucas 17,21 como “o Reino de Deus está dentro de vós”, hoje: “está entre vós”, (‘entos hymon’). Diferença que o dicionário do grego bíblico não consegue dirimir. Mas penso que a nova tradução corresponde ao que Jesus quis dizer. E para nós isso é muito importante, porque, pelas lições da história e pela acrescida densidade populacional, percebemos por demais que nunca estamos sós. Somos “co-humanos”. É no meio dessa co-humanidade que encontramos o Deus de Agostinho, pelo menos, se essa co-humanidade nos habita. Se ela não for alheia a nós, mas íntima. Se o outro nos pode habitar, sem que lhe neguemos a sua alteridade.

Quando deixamos o outro habitar em nosso coração percebemos que estamos dando conta de nossa responsabilidade e merecemos nossa liberdade, que serve para isso. E, com esse outro, habita-nos a sua-e-nossa co-humanidade, com suas responsabilidades e tarefas, sociais, culturais, políticas, profissionais, pois para viver bem, com tanto gente na frágil crostinha de nosso planeta, devemos arranjar as coisas com muita inteligência, ordem e prudência.

Assim, esse Deus, que é a profundidade sem fundo de meu existir, é também o Deus que nos une em fraternidade e justiça. E em amor, no sentido de paixão, ‘sofrença’ pelo outro que me faz torcer. Pois o ‘torcer’ apaixonado pelo outro é que me faz ser quem eu sou.

Eis a verdadeira liberdade.

Lutamos pela libertação da coletividade humana, mas o fundamento disso é a liberdade que temos porque, cada um de nós, somos “filhos de Deus”, e essa liberdade é o que devemos cultivar em primeiro lugar. Não como autonomia fechada, independente de qualquer autoridade, pois ninguém é autor de si mesmo, sem mais. Somos ‘autorizados’, porém livres, pois o Autor nos habita e é o sujeito mais profundo de nossas decisões autênticas. Por isso importa ouvi-lo no silêncio do coração sensível aos irmãos e irmãs.

A interioridade não é desistência da luta, mas sua fonte. E a luta não é o fim, mas o meio. O fim é estar Nele, que está em nós.

Johan Konings
Johan Konings nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colegio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Foi professor de exegese bíblica na Pontifícia Universidade Católica de Porto Alegre (1972-82) e na do Rio de Janeiro (1984). Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE - Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte, onde recebeu o título de Professor Emérito em 2011. Participou da fundação da Escola Superior Dom Helder Câmara.
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