Colunas João Batista Libânio

27/06/2012

Desenvolvimento sustentável



(Foto: Divulgação)
Vivemos em mundo de muita confusão de significados dos termos. Quanto mais uma palavra frequenta o cotidiano dos jornais e dos discursos políticos, mais suspeitas provocam. Desenvolvimento, avanço, progresso com diferentes adjetivos povoam-nos as leituras diárias. Os ecologistas resolveram acrescentar ao termo desenvolvimento o adjetivo “sustentável”.

Pessoalmente mantenho suspicácia contra as simples modificações adjetivas ou adverbiais quando o substantivo principal, ou eventualmente o verbo, se mantém imutável. Quem retém o substantivo e o verbo ainda conserva o horizonte principal da afirmação. Em termos políticos, mantém a hegemonia. O adjetivo ou o advérbio entra como cunha. Às vezes, estrategicamente importante, mas insuficiente.

Venhamos ao caso. Desde a década de 50 impera dominantemente no nosso país a mentalidade “desenvolvimentista”. Na base teórica domina a convicção de que desenvolvimento sem mais merece loas e que se passa do subdesenvolvimento para o desenvolvimento, perdão pelo pleonasmo, desenvolvendo-se.

Houve breve hiato histórico que não chegou a impor-se. Tentou-se substituir “desenvolvimento” por libertação. Essa mudança implicava dois pressupostos.  O bom para nós não se chama “desenvolvimento”, mas libertação. Portanto, o nosso mal não vem do subdesenvolvimento, mas da dependência. Segundo, o subdesenvolvimento não constitui fase anterior ao desenvolvimento, mas situação de dependência que se supera, não pelo desenvolvimento, mas pela libertação. Sobre essa intuição, embora imperfeita, mas muito rica, a teologia da libertação construiu ulteriores reflexões antropológicas e propriamente teológicas.

Tudo isso pareceu um sonho. A correnteza principal desenvolvimentista continuou. Os ecologistas não ousaram tanto como nós aqui na América Latina. Aceitaram o substantivo. Com isso, entraram no fluxo dominante e tentaram rasgar o igarapé do adjetivo “sustentável”. Tem sua importância. Diminuíram a avalanche desenvolvimentista, sem modificar-lhe em profundidade o fluxo. Ela pode continuar, mas deve atender a que não danifique a natureza, que não lhe esgote bens não renováveis, etc. Estabeleceram decálogo bonito e elegante.

No entanto, o veneno está no substantivo “desenvolvimento” com a mentalidade aí presente. O bem, a felicidade estão na prolongação dos bens atuais. Por isso, devemos sempre avançar, desenvolver. Nunca uma etapa já alcançada significa estabilidade, permanência, plenitude relativa, mas plataforma para ulteriores avanços. Ninguém nega que a clonagem humana signifique verdadeiro progresso, avanço, desenvolvimento tecnológico. Mas cabe altamente duvidar que irradie fonte de bem, de justiça, de beleza, de felicidade para a  humanidade.

A crítica principal à mentalidade desenvolvimentista sem mais tange ao seu critério linear da história, da felicidade humana sem análise crítica e discernida de que certos possíveis avanços trazem retrocessos humanos. A alta tecnologia, que se desenvolve na fabricação das armas destruidoras e mortíferas, não revela nenhum caminho de humanidade. Ostenta desenvolvimento tecnológico, sim. Mas comporta regresso humano a níveis de brutalidade que as recentes guerras no Afeganistão e no Oriente Médio o demonstram. Estamos assistindo a cenas de barbarismo humano praticado pelo desenvolvimento tecnológico. E agora, José? Não nos iludamos com a evidência do substantivo ‘desenvolvimento”, mas perguntemo-nos pelos caminhos de humanidade que estamos a abrir e construir.

João Batista Libânio é teólogo jesuíta. Licenciado em Teologia em Frankfurt (Alemanha) e doutorado pela Universidade Gregoriana (Roma). É professor da FAJE (Faculdades Jesuítas), em Belo Horizonte. Publicou mais de noventa livros entre os de autoria própria (36) e em colaboração (56), e centenas de artigos em revistas nacionais e estrangeiras. Internacionalmente reconhecido como um dos teólogos da Libertação.


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