30 Jan 2015 | domtotal.com

Não quero falar do Charlie Hebdo


Por Gilmar Pereira

Segundo Hipócrates, haveria no corpo quatro fluídos, também chamados humores, de cujo equilíbrio e harmonia dependeria a saúde humana. São eles o sangue, a bile amarela, a bile negra e o fleuma. A doença adviria da alteração da propriedade, quantidade ou interação desses humores, de modo a perturbar sua harmonia no corpo. Aos quatro humores relacionam-se os temperamentos humanos (sanguíneo, melancólico, colérico e fleumático).

Já para Ben Jonson (1572-1637), o excesso de determinado humor também geraria um temperamento desequilibrado, fora dos padrões sociais estabelecidos, o que resultaria no riso dos outros. A exoticidade de um temperamento conferiria à pessoa um caráter cômico. É aqui que começa a virada no conceito de humor como aquilo que é capaz de gerar o riso. A evolução do conceito passa a atribuir a quem ri a capacidade de perceber o que está fora do lugar ou é excessivo. Essa perspicácia que leva a atentar ao que foge à coercitividade social é chamada de senso de humor. Só a partir daí é que este pode ser entendido como algo que leva a rir.

Não obstante, a atividade humorística não é necessariamente uma censura aos comportamentos diferentes, mas uma percepção de desarmonia – o que pode se dar por falta ou excesso de algo em qualquer coisa. Ou melhor, o humor é uma percepção da finitude do mundo, afigurada no desarmônico (faltante ou excessivo). Mundo que não está pronto e acabado, harmônico e perfeito, mas é processo e evolução. É certo que tal percepção da desarmonia é condicionada pela cultura. Entretanto, quanto mais universal for tal percepção, mais propriamente se pode dizer que se trata de humor. Nesse sentido, é condição para humor implicar quem ri naquilo de que ri. Rir de alguém que cai durante uma cena de comédia pastelão só é possível para quem vê naquela queda a fragilidade humana e sua pretensão de segurança. O riso, assim sendo, não vem de algo exterior, mas de algo que é comum a todos.

Um riso de superioridade não é humor, é ironia, o que precisa ser diferenciado. A ironia, na lâmina de seu aço (iron), quer cortar e matar, defender um discurso e negar outro. O humor, que é líquido, penetra em todo canto e constitui o que mantém a vida. Quem não aprende a reconhecer a própria finitude, quem não ri dos próprios limites e defeitos, quem se leva a sério demais, corre o grave risco de se tornar um fascista.
 
A companhia quatroloscinco lançou uma proposta genial e que está em exibição na 41ª campanha de popularização do teatro e da dança, com uma peça denominada Humor. A campanha traz muitas comédias de gosto duvidoso mas que são a solução encontrada por alguns grupos para sobreviverem, uma vez que o escracho se torna sucesso de bilheteria. A genialidade da peça da quatroloscinco começa com a proposta de passar pela diversidade do conceito de humor. Não só, ela está classificada na campanha de popularização como drama cômico, o que já leva o público a não esperar algo pouco inteligente ou apelativo. Humor é uma peça refinada. Conta a história de um homem com uma doença que vai secando seus humores corporais. Outros dois elementos importantes na história são os pombos que tomam uma casa e o cacto que cresce no quintal – planta de clima desértico mas que costuma guardar líquido em si. O humor é relocado na peça, perseguido como uma resposta a angustia do tempo, justamente por apontar a finitude da existência e se rir dela.
 
Mais informações sobre a peça e o grupo acesse: http://www.quatroloscinco.com/
Mais informações sobre a campanha de popularização do teatro e da dança acesse: http://www.sinparc.com.br/41campanha/index.php
 

Gilmar Pereira
Gilmar Pereira é mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP; bacharel e licenciado em Filosofia pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CESJF); bacharel em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). Também possui formação em Fotografia pelo SESI-MG/ Studio 3 Escola de Fotografia. É responsável pela editoria de Religião do portal Dom Total, onde também é colunista. Atua como palestrante há 18 anos, com grande experiência no campo religioso, tem ministrado diversos minicursos nas áreas de Filosofia, Teologia e Comunicação. Possui experiência como professor de Filosofia e Sociologia e como mestre de cerimônia. Leciona oratória na Dom Helder Escola de Direito e ministra a disciplina ''A comunicação como evento teológico'' na especialização ''Desafios para a Igreja na Era Digital''.
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