Colunas Carlos Brickmann

20/04/2009

A volta do Festival de Besteiras


O Festival de Besteiras que Assola o País, Febeapá, foi um sucesso nos anos 60: criado por um grande cronista, Sérgio Porto, "Stanislaw Ponte Preta”, o Febeapá reuniu as bobagens mais expressivas do país em todos os setores.

Sérgio Porto morreu cedo, mas o Febeapá continua vivo e em forma. O jogador Cristian, do Corinthians, que fez um golaço no último minuto contra o São Paulo, comemorou com um gesto que muitos consideraram obsceno: dedos médios levantados. O juiz viu e nem deu cartão amarelo. Mas um promotor público que estava no jogo disse que, se tivesse visto o gesto, teria prendido o jogador na hora. Ué, se ele estava no jogo e não viu a comemoração do jogador logo após decidir a partida, que é que estava fazendo lá? Ouvindo radinho de pilha? E um delegado decidiu abrir inquérito policial para tentar botar Cristian na cadeia.

É claro que delegado e promotor certamente conhecem as leis e sua aplicação. Este colunista não entende, porém, por que não houve esta mobilização toda quando, pouco após a tragédia da TAM, um importante assessor do presidente da República fez gestos obscenos fartamente transmitidos pela TV, em horário nobre (e, por isso, ganhou o apelido de "Top Top”). Nem quando o assessor do assessor fez gestos mais obscenos ainda (poderia ter ganho o apelido de "créu”).

A propósito, já que a Polícia tem tempo e recursos sobrando para invadir a área esportiva, que tal usá-los para prender o promotor Igor Ferreira, que matou a esposa grávida, foi julgado e condenado e desde então está foragido? Atrás dele!

Jogo...

A história de cortar 20% dos gastos com viagens na Câmara e no Senado, de exigir que as passagens sejam usadas só para exercício do mandato, tudo não passa de jogo de cena: não vale nada. Como exigir que as passagens sejam usadas "só para exercício do mandato” se podem ser emitidas também para cônjuges ou dependentes legais do parlamentar? Como é que a viagem do pimpolho ao parque do Beto Carrero se relaciona com o exercício do mandato do pai ou da mãe? E levar a namorada para o Carnaval no Nordeste é exercer o mandato?

O deputado pernambucano Inocêncio Oliveira, do PR, mandou mulher, filhas e neta para Estados Unidos e Europa, todas com passagens da Câmara. E explicou: "Não é nada ilegal. A família é sagrada”. Tem razão. Mas a família é tão sagrada que só o próprio dinheiro da família deveria pagar suas viagens.

...de cena

Este colunista já viajou muito a serviço no Brasil e no Exterior. Sempre recebeu passagens e dinheiro para as despesas (que tinham de ser comprovadas). Nunca sequer se pensou em levar esposa, namorada, filhos – não tem sentido. Como não tem sentido gastar quase R$ 85 milhões em passagens, só em 2008. Com corte de 20%, vão gastar R$ 68 milhões. É demais. Vamos combinar assim: passagens, só para viagem a serviço. Nada de filhos, companheiros, amantes. Por que o caro leitor deve pagar as passagens da família dos nobres parlamentares?

Até ele!

O presidente da Câmara, Michel Temer, constitucionalista conceituado, professor universitário de méritos reconhecidos, abalou-se ao perceber o tamanho dos escândalos parlamentares. Pois declarou: "Nós vamos tomar providências, sim, mas deixamos que isso aconteça de acordo com os acontecimentos”. Pois que tudo aconteça conforme o acontecido, de acordo com os acontecimentos.

Roseana

Sem entrar no mérito da questão jurídico-eleitoral, reconheçamos: Roseana Sarney coloca a política acima de tudo. Com um aneurisma no cérebro, que exige cirurgia urgente, Roseana preferiu arriscar a vida e adiar a operação até que a questão do Governo do Maranhão fosse resolvida. Só agora, depois de tomar posse, viajará a São Paulo para se operar no Hospital Albert Einstein. Roseana sempre teve problemas de saúde (nenhum tão grave quanto este) e jamais permitiu que a política ficasse em segundo plano. Esta é sua 21ª cirurgia.

Almino, 80

Um dos políticos mais importantes do país na segunda metade do século 20 comemora seus 80 anos, completados no início do mês: é Almino Affonso, amazonense que fez carreira política em São Paulo. Almino foi líder do Governo João Goulart na Câmara Federal, foi exilado, voltou ao Brasil, integrou o MDB, chegou a vice-governador, no Governo Orestes Quércia. A festa de Almino se realiza em São Paulo, no Instituto Tomie Ohtake, a partir das 19h30 de terça-feira, 28 de abril.

Prefeituras unidas

As Prefeituras de São Caetano do Sul e São Bernardo do Campo, no ABC paulista, ensaiam um movimento conjunto com a Prefeitura de São Paulo que tem tudo para dar certo: estender o Metrô paulistano ao ABC, sem necessidade de qualquer desapropriação, usando terrenos já disponíveis. A idéia foi do prefeito de São Caetano, José Auricchio, também presidente do Consórcio Intermunicipal que reúne as sete cidades do ABC. O plano é começar já a união dos transportes, enquanto se estuda a extensão do Metrô, integrando os municípios ao bilhete único paulistano e barateando as viagens para a população da região.

Carlos Brickmann é jornalista e diretor do escritório Brickmann&Associados Comunicação, especializado em gerenciamento de crises. Desde 1963, quando se iniciou na profissão, passou por todos os grandes veículos de comunicação do país. Participou das reportagens que deram quatro Prêmios Esso de Equipe ao Jornal da Tarde, de São Paulo. Tem reportagens assinadas nas edições especiais de primeiras páginas da Folha de S.Paulo e do Jornal da Tarde.


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