Economia

Acumulação e progresso

Marcus Eduardo de Oliveira 12/01/2017


O PIB ainda é visto como tradicional indicador de sucesso econômico.
O PIB ainda é visto como tradicional indicador de sucesso econômico.

Historicamente nos levaram a acreditar que a acumulação de renda (bem como a de consumo, originária da primeira) é, em larga medida, condicionante do progresso. Em paralelo a isso, a cultura do “ter mais” (facilitada pela expansão da produção/consumo) ganhou notoriedade, apresentando-se, pouco tempo depois, como único paradigma de sucesso.

Entrementes, dos dois tipos de “acumulação” propriamente ditas, resultam dois graves problemas: 1) a acumulação de renda se dá de forma muito concentrada, privilegiando uma minoria detentora de condições financeiras que se apropria de tudo, em detrimento da maioria que tem que repartir, com muito custo, uma mísera fração do bolo; 2) a acumulação de consumo, dependente do processo de produção, já esbarra, desde muito, nas fronteiras ecológicas, provocando o esgotamento dos recursos naturais e a depleção dos chamados serviços ecossistêmicos – situação completamente ignorada pelo pensamento econômico tradicional.

Esses dois pontos que se entrelaçam, ademais, se agonizam em desequilíbrios econômico-social e ambiental, que, no bojo, podem ser chamados de desequilíbrio geral.

Pior: esses dois pontos, em conjunto, têm sido entendidos erroneamente como propulsores de desenvolvimento capaz de proporcionar mais progresso, e, na ponta final, permitindo aumentar o bem-estar dos povos.

Por isso o pensamento econômico dominante, arraigado nos ensinamentos da escola neoclássica - que em geral molda a forma de pensar dos economistas modernos - estimula esses “pontos” com considerável frequência, uma vez que a promoção dos mesmos, dentre outras “pretensas benesses”, faz o PIB subir, indicando assim, também erroneamente, acentuada melhora das economias.

Ora, isso tudo foi possível acontecer com relativa tranquilidade uns 200 anos atrás, quando então a atividade econômica cabia “dentro” da natureza, e a dinâmica econômica global, sem as nuances hodiernas da globarbarização, respondia bem aos anseios de uma diminuta população mundial (menos de 1 bilhão de pessoas em 1800, por exemplo).

Acontece que, hoje, não faz o menor sentido pensar e perceber a economia desse jeito. Ao menos por dois cruciais motivos, vejamos: primeiro, porque as necessidades da economia global são bem maiores que as disponibilidades (recursos, matéria, energia) da natureza, além de não ser mais possível tolerar qualquer tipo de  desenvolvimento à custa de acintosa deterioração ecológica que, também erroneamente, imputa valor à economia quando se derruba, por exemplo, uma floresta inteira para dar passagem à novas rodovias, comemorando com isso o aumento do PIB; segundo, porque também não há progresso salutar exequível que possa ser levado à mais de 7 bilhões de pessoas feito à base de externalidades negativas que compromete sobremaneira à própria vida dos humanos, p.ex., a partir de mais poluição gerada pelo processo produtivo, ou de mais emissões de resíduos (lixos, detritos) criados pela atividade econômica e por tantas outras ações antrópicas.

No entanto, a lógica estúpida que prevalece é a de olhar para a economia, fazê-la crescer e enaltecer esse crescimento pelas intensivas produções. Conquanto, medir desempenho econômico mediante a devastação do patrimônio ambiental é, no mínimo, dar testemunho de que a natureza não goza de nenhuma importância – ou privilégio -  junto à economia; o que se trata de outra estupidez colossal, visto que a natureza provisiona e sustenta a atividade econômica, assunto esse também “devidamente” ignorado pelos arautos da economia neoclássica.

Assim segue...lamentavelmente, o PIB ainda é visto como tradicional indicador de sucesso econômico, não obstante os esforços que se levantam no mundo acadêmico no sentido de mudar essa torpe visão.

Também não por acaso, a acumulação de renda, cada vez mais concentrada, e a apropriação de recursos da natureza, cada vez mais sem limites, seguem sendo usadas exaustivamente para promover a expansão do famigerado crescimento econômico, “vendido” como remédio milagroso para curar todos os males sociais.

Assim, avançando a passos céleres, o modelo econômico vigente continua incutindo no pensamento da sociedade moderna a “necessidade” (falsa e tacanha) de alcançar o “progresso” por meio de mais aquisições, mais compras, mais descartes e, claro, mais acúmulo de coisas materiais.

A difusão desse tipo de pensamento, que consagra a cultura do desperdício, do supérfluo e das coisas materiais, somente mascara a realidade e termina por fazer com que parcela considerável da população ignore o fato de que a biosfera, por exemplo, é restrita e limitada e que a concentração de renda, a erva mais daninha do sistema econômico, em linhas gerais, gera mais distúrbios por alijar essa mesma parcela de pessoas do mercado de consumo e do mercado de trabalho, jogando-as na exclusão, impedindo-as de participarem da vida econômica.

Logo, é uma tremenda estupidez, para não dizer que se trata de inexorável sofisma, pretender chamar isso tudo de “progresso”, ou qualificar tais tendências de “desenvolvimento”, como quer o pensamento econômico tradicional, como se a melhoria social (ascensão) da vida das pessoas dependesse exclusivamente do acúmulo de mercadorias.

Assim, de erro em erro, a atividade econômica continua sua saga ignorando os limites da natureza em prol de políticas que promovam mais crescimento para se ter mais produção para então se alcançar o ápice: uma sociedade de consumo voraz, privilegiando uns poucos em detrimento de uma multidão de excluídos e marginalizados.

Quanto a isso, os números não mentem: somente 20% da população mundial (1,44 bilhão de pessoas), residente no lado rico do planeta, consome 80% de toda a riqueza global produzida. Obviamente, do outro lado, os números se invertem: a população do lado pobre do planeta, 5,76 bilhões de pessoas (80%), auferem apenas 20% da produção restante.

De igual maneira, não se pode perder de vista que a crescente pressão sobre as fronteiras planetárias reside justamente no lado do consumo excessivo de recursos praticados por essa porcentagem rica da população mundial, amparada nos modelos de produção das empresas que produzem para que essa faixa populacional consuma e se regozije no supérfluo.

Há dois pontos, carbono e renda, que chamam a atenção e que também não podem escapar à essa análise. Vejamos que: i) cerca de 50% das emissões globais de carbono são geradas por apenas 11% das pessoas extremamente ricas dentre as 20% mais ricas; ii) Cinquenta e sete por cento da renda global encontram-se nas mãos de apenas 10% das pessoas, os bilionários do planeta.

Ora, a pressão criada sobre as fronteiras planetárias, portanto, reside globalmente nas ações desses consumidores mais abastados do mundo, justamente os que consagram a cultura do “ter mais”, fazendo com que parte da humanidade viva além das condições do planeta, consumindo recursos renováveis da Terra como se tivéssemos à nossa disposição mais de um planeta para usarmos e abusarmos, o que é absolutamente insano.

Insistindo nesse ponto, a cultura do “ter mais” prevalece então frente a tudo, permitindo à economia se sobrepujar a ecologia. Cada vez mais afastada da realidade, a atividade econômica parece assim funcionar no “vazio”, sem interação alguma com a natureza, agindo no intuito maior, quase exclusivo, de alavancar a capacidade de produção para alcançar o consumismo, tecendo, pois, dessa maneira, loas à voraz sociedade de consumo.

Largamente facilitada pela força da concentração de renda em pouquíssimas mãos, que permite de igual maneira aprofundar a concentração de consumo, a economia segue respondendo “satisfatoriamente” aos desejos do mercado e dos poderes econômicos constituídos.

Ciclo voraz e destruidor

Resulta desse entendimento que a “fórmula do progresso”, ajudada pela compulsão ao crescimento econômico que entulha o mundo de mercadorias, segue tendo pleno “êxito” comungando dois fatores intrínsecos que mutuamente se reforçam: 1) acumulando cada vez mais renda e direcionando parte crescente dessa ao consumo (daí os constantes estímulos publicitários ao consumismo voraz, razão que faz do orçamento publicitário o segundo maior do mundo, perdendo apenas para os gastos bélicos); e, 2) apropriando-se violenta e indiscriminadamente dos recursos da natureza a ponto de desfigurar a fauna, a flora, os habitats, o curso dos rios.

Percebe-se, assim, que estamos diante de um ciclo voraz e destruidor. Dessa constatação, para validar nosso argumento, ressaltam-se dois crassos erros mantidos propositadamente às claras em termos de sua divulgação pelo pensamento econômico dominante: 1) a identificação de que a aquisição material – e somente ela - em larga medida, conduz ao progresso (ascensão) pessoal; 2) por conta do primeiro, o reforço desse ciclo destruidor que estimula freneticamente o crescimento econômico ultrapassando qualquer outra condição sem se dar conta em momento algum da finitude (e da limitação) dos recursos da natureza, daí a corrida crescente para dilapida-la em curto prazo, levando-a ao esgotamento e ignorando, por consequência, que o empobrecimento biológico disso resultante afeta substancialmente a qualidade de vida dos povos.

Até quando esse modelo (e esse ciclo), concentrador-destruidor (de renda e consumo) e espoliador-destruidor (de recursos da natureza) permanecerá?

Diante do quadro vivenciado de desequilíbrio geral que afeta a todos, é possível conjecturar que esse modelo (e esse ciclo) de economia pode estar com seus dias contados justamente por patrocinar o esgotamento da principal e única fonte de recursos (natureza) que abastece o próprio modelo, alimentando e fazendo girar com rapidez o ciclo.

Se é verdade que a natureza em muitos casos se autorregenera, também é verossímil que ela não precisa – e nunca precisou – para sua continuidade de nós, esses hóspedes incômodos.

No entanto, a recíproca, nesse caso, não é (e nunca será) verdadeira. A natureza, mesmo agredida e desfigurada, continuará; os humanos, não.

Portanto, é razoável supor que, se algo corre perigo, não é a Casa Comum (Gaia, nos dizeres dos gregos), que nos abriga, mas seus moradores (os destruidores sapiens).

Ademais, quando a economia – tanto a ciência quanto a atividade de produção – se der conta de que é apenas um subsistema de algo maior chamado meio ambiente e, a par disso, romper esse ciclo, passando a tratar com sobriedade a fonte de recursos da qual precisa para seu próprio suporte, talvez tenhamos uma chance de conhecermos o que significa, de fato, uma vida plena de bem-estar, dotada de regras de boa convivência capazes de preservar a biodiversidade, moderando o consumo, diminuindo o ímpeto das aquisições materiais, e entendendo que a felicidade (aspiração imanente e legítima de todos) está muito além dos mecanismos de mercado (leia-se consumismo) e do crescimento físico das economias.

É certo que, enquanto esses gritantes “erros econômicos” não forem prontamente corrigidos, e enquanto os dois tipos de “concentração” continuarem tendo irrestrita primazia, continuaremos vivendo sob a égide desse compulsivo crescimento econômico, e estaremos, cada vez mais, sob a tutela dos administradores da economia mundial (leia-se: gestores das grandes corporações internacionais) que, por sua vez, continuarão tentando nos iludir com falsos argumentos de que, num breve futuro, todos estaremos participando das benesses do “crescimento econômico”, auferindo pedaços maiores do “bolo”.

Afora isso, continuaremos a ser bombardeados com mais falsos argumentos dando conta de que sequer precisamos nos preocupar com o estado de devastação da natureza e seus recursos, pois a tecnologia, essa senhora do destino, logo mais à frente dará conta de suprir a escassez que ora estamos provocando.

Valendo-se, pois, do otimismo como válvula de escape, haverá de chegar um dia em que todos conscientizar-se-ão de que, sendo a economia obviamente uma atividade termodinâmica, há de se respeitar primeiramente às leis da física, em especial a lei da entropia, tendo em conta que quanto mais se usa, menos se tem.

Por fim, cumpre destacar que, se o crescimento pode ser associado à quantidade, o desenvolvimento, por sua vez, pode (e deve) ser associado à qualidade.

Desse modo, que saibamos, a contento, evitar outro erro muito comum ao pensamento tradicional que insiste em reduzir o crescimento ao desenvolvimento, tornando sinônimos.

Dito em outras palavras, o bem-estar (a boa qualidade), aquela que melhora substancialmente às condições de vida dos mais necessitados, na verdade se coaduna então com a necessidade de reduzir o crescimento das economias, e não de aumentá-lo.

O que nos resta diante disso? Esperarmos o momento em que a ecologia determinará o futuro da economia, reconhecendo, de antemão, que a natureza é o limite da atividade econômica, e que o mundo precisa sim de mais proteção, e não de mais produção.

Marcus Eduardo de Oliveira é economista e ativista ambiental prof.marcuseduardo@bol.com.br

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