Economia

Promoção contínua do consumismo

Marcus Eduardo de Oliveira 11/01/2017


A prática do
A prática do "ter mais" segue definindo status e ditando o padrão de vida dos povos.

Um dos pressupostos centrais da economia dominante é a confusão conceitual que reduz o crescimento ao desenvolvimento, como se sinônimo fosse.

Disso resulta, sobremaneira, a crença num modelo de economia cuja preocupação única é a de fazer com que tudo gire em torno do aumento contínuo da produção, com a contrapartida da promoção contínua do consumismo, uma vez que é imperativo vender aquilo que se produziu, tendo em vista que esses dois movimentos, produção e consumo, preferencialmente sempre ampliados, amparam a política de crescimento econômico, usado como “remédio” eficaz para a cura dos diversos males sociais (desemprego, fome, miséria, e condição de vida aviltante).

Para tanto, usa-se e abusa-se dos mecanismos publicitários que induzem, cada vez mais, e com métodos mais sofisticados, os consumidores às novas compras, consagrando assim o supérfluo e, na sombra disso, enfatizando a economia do descarte – que só sobrevive, diga-se de passagem, graças às bênçãos do próprio consumismo – que, por sua vez, se ampara na prática da obsolescência programada.

Essa tem sido, grosso modo, a rota adotada pelas economias modernas que lançam maior atenção aos padrões de consumo perdulários; por isso estimulam, de um lado, o endividamento das famílias, e, de outro, a pilhagem dos recursos naturais, pouco se importando com as consequências sociais e ambientais daí resultantes.

O desequilíbrio então se torna geral: o social se enfraquece, com o aumento considerável da exclusão; o econômico cresce artificialmente, beneficiando quase que exclusivamente àqueles que estão do lado da concentração; e o ambiental é completamente desfigurado pela voracidade produtiva que “precisa”, a toque de caixa, responder positivamente (no curto prazo) em forma de retornos financeiros.

Todo esse processo, abrupta e estupidamente desequilibrado, tem sido erroneamente chamado de desenvolvimento econômico, quando, na verdade, não passa de políticas de crescimento feita à custa de rupturas, cuja expressão maior brota justamente no seio do meio ambiente, como se esse foi um gigantesco baú dotado de recursos naturais infinitos, sempre pronto e à disposição da economia produtiva – o fator que desequilibra a natureza.

O animal homem que está por trás disso, cada vez mais em nome dos apelos mercadológicos, segue devastando a natureza para assim consagrar o “crescimento econômico”, esperando alcançar no consumismo a absorção sem fim de novos produtos, em geral supérfluos e suntuosos.

Outra grave ocorrência desse problema é que a compulsão ao crescimento - que ultrapassa qualquer limite imposto pela natureza no que toca ao fornecimento de energia e matéria -, é “vendido” como salvação única para o alcance do “progresso pessoal”, como se o dito e propagado “progresso” fosse resultante exclusivo de acumulação material.

Assim, uma vez mais a promoção contínua do consumismo, que dentro dessa deturpada visão se faz necessária para escoar uma produção sempre crescente, segue igualmente sendo a promotora de distorção de valores, uma vez que enaltece o “ter”, subtraindo qualquer importância do “ser”.

Ademais, a prática do “ter mais”, que emoldura, pois, o consumismo, passa a ter valor real e até mesmo conceitual, e segue definindo status e ditando o padrão de vida dos povos. No espectro econômico isso ganha relevância uma vez que faz o PIB subir, enquanto a condição de “ser algo” fica completamente à margem de tudo, relegada à esquina dos valores morais.

Marcus Eduardo de Oliveira é economista e ativista ambiental prof.marcuseduardo@bol.com.br

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