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Entrevistas

22/04/2011  |  domtotal.com

Carlos Bracher: o resistente da pintura


Carlos Bracher nasceu em Juiz de Fora, em 1940. Pintor, desenhista e escultor, ele iniciou sua atividade artística como decorador de louças na oficina de seu pai. Estudou composição e análise crítica com Fayga Ostrower, história da arte com Frederico Morais, na Universidade Federal de Minas Gerais, e técnica com Inimá de Paula. Em 1954 adotou Ouro Preto como seu tema preferido e fez da cidade a sua residência. Em 1967, Bracher segue para a Europa para aperfeiçoar sua pintura em Paris. Uma breve temporada em Portugal foi suficiente para ele conhecer toda a obra de Fernando Pessoa que passaria a ter profunda influência em seu trabalho pelo resto da vida.

Na entrevista que concede ao jornalista Marco Lacerda, Bracher explica porque ficou conhecido como um “resistente da pintura” e porque até hoje não se interessou em conhecer o Museu de Inhotim. Ele comenta também a presença do sagrado no seu ato de pintar. Como um dos maiores pintores vivos do país, faz uma avaliação da crítica de artes plásticas no Brasil e dá dicas para quem está começando na carreira de artista.

Confira abaixo trechos da entrevista e no áudio acima a entrevista completa.


Marco Lacerda: Você nasceu em Juiz de Fora, em 1940. Conte-nos um pouco da sua história antes de encontrar o caminho que te levou para as artes.

Carlos Bracher: É bastante fácil. Venho de uma família de artistas. Meu avô era músico, meus cinco ou seis tios, todos mexiam com música. Um deles, com música e pintura, o Tio Frederico. Meu pai também era músico, minha mãe era cantora.

Então meu mundo sempre foi impregnado de arte, de sentimentos, de vocações artísticas. Essa palavra e essa sensação, que é a coisa da arte, com todas as magnificências que transitam por ela, me foram passadas desde menino.

Fui me afeiçoando e me impregnando desses sentidos até que, quando jovem, 14 ou 15 anos, comecei já a me introduzir neste mundo, desejando participar dele.


Marco Lacerda: Como era a convivência nessa família de artistas?

Carlos Bracher: Era uma convivência absolutamente extraordinária. Posso dizer que foi (e ainda é) uma linda família, muito harmônica, muito unida, entrelaçada, fraterna. Não só entre nós, mas num conjunto muito amplo de amigos e de companheiros, de pessoas que se articulam no âmbito da nossa família - pintores, músicos, poetas, filósofos. Foi excepcional nesse sentido da difusão das coisas, das idéias, pensamentos, das sensações profundas que provêm da arte.


Marco Lacerda: Você começou sua atividade artística como decorador de louças na oficina de seu pai. De que maneira isso influenciou a sua arte?

Carlos Bracher: A fábrica de louças do meu pai é, na verdade, uma fábrica muito especial, pois as louças eram pintadas a mão, cada uma de forma diferente. A fábrica tinha vários pintores, também cada um com seu estilo. Foi um momento muito importante porque ali se reuniu um contingente grande de artistas.

Essa fase coincidiu com meu início nas artes. Se bem que lá eu pintei alguma coisa de louça, mas trabalhei principalmente no fazimento da louça em si, da elaboração da louça antes de ser pintada. Nesse momento, que coincide com meus 15 ou 16 anos, tive também um impacto muito grande pela escultura.


Marco Lacerda: Vamos continuar nesse assunto. No início você era pintor, desenhista e escultor. Só mais tarde, transferiu seu interesse para a pintura. O que te levou a essa opção?

Carlos Bracher: Antes de qualquer coisa, a pessoa mais importante na minha formação foi o meu tio Frederico. Ele era pintor e músico, morava em Belo Horizonte. Sempre passávamos as férias com ele, em janeiro e julho. Todos os meus tios moravam na cidade.

E esse tio era uma figura extraordinária: um homem encantador, cheio de dons, que tocava violino muito bem, pintava igualmente bem. Era uma pessoa muito amável, calorosa. Esse homem foi me induzindo à compreensão de que um artista é uma pessoa maravilhosa. Cada vez que voltava a Belo Horizonte, ele ia se edificando em mim como uma pessoa muito especial. E ele também era escultor (e desenhista, e gravador). Era um cara múltiplo.
Dessa forma, a arte já estava dentro de mim, na minha alma, quando conheci Rodin, por meio de livros ou algo assim. Quando o vi, falei: “isso aqui é meu negócio! Não quero saber de outra coisa”. E me lancei a fazer esculturas. Fiz muitas, muitas, durante uns quatro anos.

Porém, num certo momento, fui passando também para a pintura, a mesclar. A pintura foi avassalando muito mais meu senso criativo, foi me tomando, sendo mais a coisa centralizadora. A questão da cor, essa paixão que nos induz a um universo magistral. E então, me deparo com Van Gogh.


Marco Lacerda: Alguém escreveu alguma vez, em algum lugar, que presenciar você pintar é um ritual de energias sagradas. Em que consiste esse ritual?

Carlos Bracher: Eu diria que é algo sagrado, sim. Gozado: a vida vai passando, eu tenho 70 anos e há um algo sagrado dentro de mim. Com certeza, há uma sacralidade meio que divina em cada homem, cada ser.

Esse lado melhor da gente, mais purificado e cristalino, que resistiu ao tempo, essa coisa meio que onírica, acho que é uma presença do sagrado, não no sentido religioso, é muito mais.

Todos temos esse lado bem dito, forte, abençoado, de certa infância. Uma certa essência que permanece lá no fundo, uma célula que seja. Uma breve semente que permaneceu e vai ficar. Essa é a presença fundamental, é o lado da eternidade. Se a gente puder tocar esse lado e exercê-lo de alguma maneira, existirá um quê da gente que vai realmente permanecer para sempre.


Entrevista realizada pelo jornalista Marco Lacerda no programa Frente Verso, que vai ao ar aos domingos, às 21h, pela Rádio Inconfidência FM (100,9), de Belo Horizonte.



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Comentários

Buy OEM software online | 28/09/2011 00:21
uS3fsm Excellent! Got a real pleasure..!
responder comentário Responder Buy OEM software online
Luciano Guimarães Pereira | 27/04/2011 18:16
Carlos Bracher faz arte com toda sua alma.
responder comentário Responder Luciano Guimarães Pereira



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