Super Dom Entrevistas
Adriana Falcão: a escritora cult
Adriana Falcão costuma dizer que sempre teve sorte na vida. Mas se ela chegou onde chegou, não foi por sorte, mas por talento. Nascida no Rio, em 1960, Adriana passou boa parte da vida em Recife. O sotaque e a vocação para o humor não negam seu lado pernambucano. Foi lá que ela se formou em Arquitetura, profissão que nunca exerceu, pois logo descobriu sua vocação de escritora, roteirista de cinema e TV.
Em 15 anos de carreira são 13 livros publicados, duas adaptações para cinema, uma peça de teatro e três séries para TV, entre as quais “O Auto da Compadecida” e “A Grande Família” – essa última uma das maiores audiências da Rede Globo desde que foi ao ar há sete anos.
Em entrevista ao jornalista Marco Lacerda, Adriana Falcão diz por que ainda é tão pequeno o número de filmes feitos no Brasil e fala sobre a influência negativa da televisão na cultura brasileira. Ela conta também porque é tão difícil ser roteirista e sobre a adaptação que fez do clássico “Sonhos de uma noite de verão”, de Shakespeare, para o carnaval da Bahia. Adriana explica o sucesso imbatível do programa A Grande Família, da Rede Globo e revela como sua vida e sua carreira foram abaladas pela trágica morte de seus pais.
Confira abaixo trechos da entrevista e no áudio acima a entrevista completa:
Marco Lacerda: Você é arquiteta? Como foi que acabou se enveredando pela literatura?
Adriana Falcão: Sim, me formei em arquitetura, veja que loucura! Pois é, foi um grande erro, prestei vestibular muito nova, com 16 anos. Você não tem maturidade para escolher nessa época. Mas eu sabia que adorava escrever, ler. Já rascunhava textos secretamente.
E sou carioca, mas morava Recife. Não passava pela minha cabeça que fosse possível alguém escolher a profissão de escritora. Escritores eram Machado de Assis, Dostoievski. Como eu iria pretender ser escritora? Era apenas uma menina brasileira que morava no nordeste.
E achei que devia escolher uma profissão: advogada, médica ou arquiteta. Como me interessei por artes, fui para a arquitetura (que não tinha nada a ver comigo). Não queria fazer, terminei o curso muito a contra gosto e continuei escrevendo.
As pessoas, vendo que eu escrevia, me levaram para um estágio em uma agência de publicidade. Lá trabalhei como redatora publicitária e comecei a escrever profissionalmente. Imagina! Eu era paga para fazer a coisa que mais gostava na vida.
Marco Lacerda: Você tem também passagens pelo jornalismo. Que experiências foram essas?
Adriana Falcão: Nunca cursei a faculdade de jornalismo, mas escrevo crônicas. Aliás, é um estilo que eu adoro ler: gosto muito de Paulo Mendes Campos, Antônio Maria, Rubem Braga.
Já escrevi crônicas para a revista Veja Rio e para o Estado de São Paulo. Mas vou muito para o campo da ficção. Não sou uma cronista que comente muito do dia a dia - a guerra do tráfico, política, as eleições, o futebol. Não me sinto a vontade para assumir uma voz.
Minhas crônicas vão pela ficção, pelo caminho de falar sobre o ser humano, os sentimentos, mas geralmente através de um personagem fictício, enfim, é um estilo que eu adoro.
Marco Lacerda: Você acha que existe o risco do empobrecimento da linguagem escrita quando o texto é transposto para outras formas de expressão artística? A prática da adaptação pode eventualmente levar o escritor a uma simplificação do texto?
Adriana Falcão: Eventualmente sim. Mas, por outro lado, a gente tem que lembrar que, se há uma simplificação do texto, há também a adição de uma nova linguagem (que pode ser a imagem, o som, a interpretação do ator, a criatividade do diretor, a inventividade do cenógrafo). Enfim, outras coisas vêm se somar ao texto.
Às vezes o texto é prejudicado sim, às vezes não. Percebi a dificuldade quando fomos adaptar “A máquina” para o cinema, especialmente porque é um texto muito barroco, trabalhado.
Adaptar nomes como Raduan Nassar e Guimarães Rosa não é tarefa fácil. O texto é tão forte que há o risco de virar um filme completamente narrado ou falado. Uma literatura “menos forte” (digamos assim), em que o conteúdo da história é mais relevante que a forma, é muito mais fácil de ser adaptada. Porque é a história, o que se passa, é a ação. Quando a prosa é muito rebuscada, é muito difícil encontrar o meio termo.
Marco Lacerda: Como você garante a força poética em seus roteiros?
Adriana Falcão: Eu não garanto nada! (Risos) Eu busco o tempo todo dar o melhor de mim. Tento humildemente escrever o melhor texto da minha vida a cada vez que estou escrevendo. E trabalho muito, me inspiro nos autores e nas pessoas, nos compositores e diretores que eu gosto.
Muitas vezes, antes de começar a escrever alguma coisa, leio Paulo Mendes Campos, que é um escritor que adoro, vou assistir a um filme que amo, escuto uma música que eu gosto.
Estou sempre buscando dar o melhor de mim, até porque eu não confio muito num suposto talento, do tipo “ah você já sabe fazer isso”. Não é tão simples, faço com muito amor e muito esforço. E sempre buscando essa coisa poética. A literatura, a poesia e a música são minhas grandes paixões.
Entrevista realizada pelo jornalista Marco Lacerda no programa Frente Verso, que vai ao ar aos domingos, às 21h, pela Rádio Inconfidência FM (100,9), de Belo Horizonte.
Últimas entrevistas
Thiago de Mello: o clamor de um poeta
Pedro Paulo Cava: teatro e política
Fernando Lucchesi: artes plásticas brasileiras
Danilo Gentili: uma pedra no sapato
Edney Silvestre: testemunha da história




Comentários
Sou ator e conheci o trabalho da Adriana Falcão e me apaixonei pela maneira dela de escreve. Sou estudante do curso de Artes Cênicas da Universidade Federal de Ouro Preto precisava do contato da produção da Adriana para assuntos profissionais. Agradeço pela entrevista, é sempre bom conhecer a trajetória de pessoas com a Adriana Falcão. Muito Obrigado!!!
SQYQfJ this is delisious! xfather123