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24/06/2011

Fernando Lucchesi: artes plásticas brasileiras


Fernando Lucchesi não encontrou a arte nos bancos de escola. Artista plástico autodidata, ele diz que a encontrou nos bancos de ônibus e caminhando pelas ruas. O barroco contemporâneo desse mineiro nascido em 1955 foi buscar em Ouro Preto a fonte onde bebe para sobreviver. “Se não fosse Ouro Preto, eu já teria morrido”, diz Fernando.

As obras de Lucchesi revelam também a forte influência que ele teve de artistas como Guignard e o suíço Paul Klee. Com suas igrejas e oratórios, Fernando ganhou projeção nacional como integrante da geração 80, um grupo de artistas que marcaram época no cenário das artes plásticas brasileiras.

Fernando Lucchesi é o convidado da semana no Dom Total. Confira abaixo trechos da entrevista, realizada pelo jornalista Marco Lacerda, e no áudio acima a entrevista completa:


Marco Lacerda: Fale um pouco sobre as suas origens e sobre o que te levou a escolher as artes plásticas como forma de expressão.

Fernando Lucchesi: Como artista plástico, sou autodidata. Minha formação deveria ser ‘técnico’, trabalhei por sete anos com cálculos de concreto armado e estrutura metálica. De repente, não conseguia mais trabalhar com aquilo. Já desenhava desde sempre e um grande amigo meu da época sacou que ia dar errado, que podia ocorrer uma zebra ali na empresa (era uma firma americana).

E calhou que o Palácio das Artes era pertinho desse lugar em que trabalhava e a ‘Grande Galeria’ precisava de um montador de exposições. Ai meu amigo me levou lá um dia, na hora do almoço. Uma semana depois eu já tinha mudado a minha vida toda, abandonado meu emprego (com um salário muito bom) e estava trabalhando no Palácio. Imagine isso há 30 anos, era um salário miserável, mas pelo menos estava descobrindo o que queria fazer.

Meu pai aceitou que eu fizesse isso. Quem me recebeu lá foi Márcio Sampaio. Fiquei uns quatro anos como montador de exposições. O Palácio, na época, era uma entidade semi-abandonada, com vários espaços vazios. Peguei uma sala daquelas, montei um ateliê para mim e trabalhava lá nas horas de folga. Márcio Sampaio me encaminhava um pouco, mas eu não aceitava muito palpite, tinha um desenho já desde menino.

E foi a minha grande sorte. E o fato de estar perto da Escola Guignard, comecei a freqüentá-la, conheci os artistas. Daí foi um passo para conhecer Amilcar de Castro, nos tornamos grandes amigos. Na época a turma era Marco Túlio, Benjamin, Gilberto de Abreu, Humberto Guimarães. Fui me entrosando, os anos passaram, parece que deu certo.


Marco Lacerda: Você é um dos grandes expoentes das artes visuais da geração 80. Que rumos essa geração de artistas tomou?

Fernando Lucchesi: Eram quase 300 artistas, de todos os tipos. Alguns alunos, outros já formados, alguns mais velhos. Marcus Lontra me convidou e daí foi um passo para eu deslanchar, aproveitei a oportunidade e conheci muitas pessoas no Rio de Janeiro na época. Cheguei a morar lá por dois anos.

Parece que, como tudo nessa vida, essa geração se perdeu um pouco. Há uns anos atrás ele (Marcus Lontra) fez ”Onde está você, geração 80?”. Foi uma reedição da exposição, todo mundo mais velho. O número de artistas diminuiu para uns 50.

Tenho a impressão que as artes plásticas estão em um processo de encolhimento, faltando pessoas para uma orientação (não digo ‘professor’ porque sou autodidata, nunca frequentei escola). Mas está faltando, para essa turma nova. Para mim foi um grande passo a geração 80 (...), mas ela se perdeu um pouco. Ficaram poucos artistas.

E esta coisa moderna da ‘celebridade’ desvirtua um pouco a arte. Porque é um produto de mercado, mas vira muita mercadoria. Às vezes vira uma coisa de grana, grana, grana. Começam a falar em milhões, milhares. Eu não gosto, estou por fora disso. Até me isolei em Minas Gerais um pouco, que é para poder sobreviver a isso.

Como consegui tudo com muita luta, pensei: ‘não vou jogar isso pela janela a troco de ser uma celebridade instantânea e badalações’. Eu sou contra até a falar muito a respeito, sou contra mostrar minha cara, é um negócio meu mesmo. Porque o que conta, de fato, é o trabalho na parede, numa exposição, com um colecionador, um cliente contente com aquilo que ele adquiriu.

Na perdição dessa geração toda, o que sobrou é o básico, era o melhor que tinha mesmo, naquela época já dava para sentir quais pessoas iriam trilhar as artes plásticas. E estamos precisando de uma geração mais jovem agora, para tomar conta disso tudo, para continuar.


Marco Lacerda: O que você tem produzido atualmente? Seus novos trabalhos têm uma temática?

Fernando Lucchesi: A minha temática é a de sempre, eu inventei três títulos para mim, três pinturas: a árvore da vida, as africanas e as fachadas. Pelo fato de ser autodidata, não ter conhecimento técnico, não ter um desenho apurado, não ter feito desenho de observação (aquela coisa que a escola passa), fiquei nesses três temas, que faço há 34 anos. E a cada ano vou fazendo uma releitura daquilo, vou me embaraçando com aquilo, me desembaraçando.


Marco Lacerda: Antes de nossa entrevista, estava pensando: por que existem tão poucos escultores de expressão na história da arte brasileira e até mundial. Você já pensou alguma vez sobre isso?

Fernando Lucchesi: Já tive idéia a respeito por causa da minha amizade com Amilcar e por ele me explicar um pouco a dureza que é fazer uma escultura, a dificuldade da manufatura daquilo. O camarada precisa de uma indústria por trás, ou de vários empregados, é um trabalho mais penoso.

E esteticamente, é a mais complicada para a execução, para a pessoa se fazer como um escultor, pelo próprio peso da matéria. Tem pedras que pesam uma tonelada. Você imagina Michelangelo ou o Amilcar com uma chapa de não sei quantas toneladas, ou ‘Zé Bento’ com uma tora de madeira de não sei quantos mil quilos. Eu vejo por esse lado.

E acho que também até a própria formação do camarada é muito complicada, você imagina, é um negócio muito pesado. Vejo meus amigos que foram ou são escultores, a vida deles... não é uma coisa que gostaria para mim. Gosto de uma vida mais calma, tranquila, uma coisa meio zen, não quero precisar de muita coisa para realizar a minha ilusão artística. É uma conversa interessante, Amilcar gostava muito de conversar sobre isso.


Entrevista realizada pelo jornalista Marco Lacerda no programa Frente Verso, que vai ao ar aos domingos, às 21h, pela Rádio Inconfidência FM (100,9), de Belo Horizonte.

Comentários








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