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Moisés Rabinovici: repórter de muitas guerras
Contam-se nos dedos de uma só mão os profissionais do calibre de Moisés Rabinovici. Um dos grandes jornalistas brasileiros das últimas décadas, dono de um texto brilhante e de um raro talento como repórter, Moisés (mineiro por adoção) começou sua carreira em Belo Horizonte com passagem por jornais como o Diário de Minas e a sucursal da Última Hora.
Mas foi em São Paulo que Moisés iniciou uma trajetória sempre marcada por desafios que só um grande repórter é capaz enfrentar. Como correspondente do jornal O Estado de S. Paulo, ele cobriu os episódios mais sangrentos do conflito no Oriente Médio, a Guerra do Golfo e a Guerra Civil de El Salvador. Estava na Iugoslávia nos momentos cruciais que acabaram por dividir o país e estava na África para narrar a tragédia da AIDS que mudou para sempre a história do mundo nos anos 1980.
Hoje Rabinovici é diretor de Redação do jornal Diário do Comércio de São Paulo, onde criou o primeiro Museu da Corrupção, um site na Internet dedicado ao combate da corrupção no Brasil (apenas mais uma das guerras nas quais ele se envolve). Moisés Rabinovici – ou simplesmente Rabino, como é conhecido na imprensa – é o convidado da semana no Dom Total.
Confira abaixo trechos da entrevista, realizada pelo jornalista Marco Lacerda, e no áudio acima a entrevista completa.
Marco Lacerda: Moisés, vamos começar nosso bate-papo com as perguntas típicas do jornalismo: Quando, por que, aonde e como você escolheu a profissão de jornalista?
Moisés Rabinovici: O como se resume a uma história engraçada: eu participava de um clube de arqueologia do Colégio Anchieta e nós íamos às grutas de Lagoa Santa fazer pesquisas. Um dia, nós descobrimos um crânio. Testes de carbono 14 realizados nos Estados Unido deram como resultado 10 mil anos. Então, tínhamos um crânio que mudava a história pré-colombiana de Minas.
Um repórter do jornal Última Hora ficou sabendo e veio me entrevistar, pois era o presidente dessa Associação de Arqueologia. E no final, saiu a manchete anunciando que tínhamos descoberto um crânio de um milhão de anos. Então, ao invés de mudar a história pré-colombiana de Minas, nós estávamos mudando a história do mundo.
Organizações científicas de todas as partes começaram a ligar para o Colégio Anchieta. Receberam a informação retransmitida pelas agências de notícias e começaram a ligar para lá. O diretor ficou irritadíssimo e disse: “Você que tem que responder. Não só responder, mas ir ao jornal”.
Então me municiei de alguns livros que mostravam o absurdo da manchete e fui ao Última Hora. Quando cheguei lá no balcão, eu pronunciei: “exijo a verdade a bem da ciência”. O repórter tremeu. Levaram-me ao José Wainer, que era irmão do Samuel Wainer.
O José me disse: “senta lá e escreve o desmentido”. E nunca mais sai do jornal. Sentei-me ao lado do Albérico de Sousa Cruz, que era um grande repórter de polícia. Ele falou: “poxa, por que não trabalha em jornal?” No dia seguinte, eu já estava cobrindo polícia, aprendendo a profissão.
E pouco depois abandonei tudo para continuar só jornalista. Isso foi quando tinha ainda 17 anos, 1963, por ai. Em 1964 já estava também no jornal Classe Operária e no Binômio.
Marco Lacerda: Como começou sua longa experiência como correspondente no exterior - e até onde ela chegou?
Moisés Rabinovici: Também foi tão por acaso como comecei no jornalismo. Estava na redação do Jornal da Tarde quando o presidente Muammar Kadhafi, do Egito, resolveu fazer uma visita histórica a Jerusalém, para “quebrar os muros de ódio” que separavam os dois vizinhos.
Na época, o jornal estava sem correspondente em Israel, então me perguntaram se eu queria ir e respondia na hora: sim, claro que vou. E a minha missão era ficar lá esperando a paz (veja você que eu poderia ter ficado lá até hoje, porque não foi alcançada). Tudo que cobri durante oito anos de Oriente Médio está hoje desmoronando.
Marco Lacerda: E aqui no Brasil, que momentos da sua carreira você considera marcantes?
Moisés Rabinovici: Uma vez, no Estadão, me passaram a carta de um casal (um homem que escrevia em nome da mulher também). Os dois velhos, pedindo auxílio para se matarem. Achei a carta estranha e resolvi conhecer o casal.
Ele era um ex-publicitário e ela uma artista, num processo já adiantando de Alzheimer. E ele se achava muito fraco, tinha medo de morrer e deixar a mulher desamparada. O filho, que era um médico conceituado em São Paulo, não os visitava há muito tempo. Então eles queriam morrer.
Eu simplesmente contei essa história. Transpus o que eles me contaram. Saiu num domingo, o título na capa do jornal era “Por favor, queremos nos matar”. Na segunda-feira, o jornal teve que colocar uma telefonista do meu lado porque meu telefone não parava de tocar, as cartas não paravam de chegar. Houve uma onda de solidariedade enorme, como eu nunca tinha visto.
As matérias mais importantes que eu já tinha assinado até então nunca tinham repercutido dessa forma. A repercussão durou, durou, durou, a ponte de asilos para idosos oferecerem vagas para eles. O próprio casal, quando levei montanhas de apelos recebidos, topou viver outra vez.
Marco Lacerda: Falando como jornalista e como judeu, quais são (em sua opinião) a chances de uma paz no Oriente Médio? O que falta para uma paz definitiva entre palestinos e judeus?
Moisés Rabinovici: Falta aquilo que não foi incluído no primeiro tratado de paz com o Egito. Egito e Israel assinaram a paz deixando de fora os palestinos, que continuam sendo a tragédia do Oriente Médio.
Espantou-me muito, e me espanta até agora, que essa revolução do Jasmim, iniciada na Tunísia (que agora perfuma o Cairo e já se sente um forte cheiro na Jordânia) não apresente nenhum dos bordões antigos. Nenhum deles tratou da causa palestina, todos os movimentos pedem o fim da tirania, o fim da autocracia. Querem emprego, liberdade, justiça. Não se fala mais daquilo que antigamente se dizia ser o coração do conflito do Oriente Médio, Israel x Palestina.
Eu falo de uma época fértil, que foi a vida do Yasser Arafat. Era curioso porque ele estava, a cada ano, aceitando cada vez mais o que tinha sido oferecido aos palestinos em 1948, o ano da criação do estado de Israel.
No final da vida, ele já aceitava a Cisjordânia e Gaza (mas queria toda a Cisjordânia e Gaza) e também a volta dos refugiados palestinos. Os refugiados que fugiram de sua casa em 1948, e querem voltar agora, se reproduziram, são muito mais. Se Israel aceitar, sobrepõem-se a sua população. Numa primeira eleição, ganhariam aquilo que tentaram conquistar por armas a vida toda.
E Jerusalém é uma cidade ambicionada pelas três grandes religiões monoteístas. Agora Ehud Barak, que foi primeiro ministro por muito tempo, (era um pianista virtuoso, mas um general duro), negociou com Arafat e concedeu 95% do que ele estava querendo. O que fez o Arafat? Voltou a Israel e começou a segunda intifada, provocada, claro, por aquele doido do Ariel Sharon, que resolver visitar as mesquitas, sendo que ele não tem nada a ver com as mesquitas.
Isso me fez perguntar uma vez a Arafat por que ele sempre queria o ideal e não pegava o possível. Sempre buscando o perfeito, ele perdia o que era dado no momento. (...) A verdade é que ele não podia aceitar os termos de Israel porque seria assassinado.
Entrevista realizada pelo jornalista Marco Lacerda no programa Frente Verso, que vai ao ar aos domingos, às 21h, pela Rádio Inconfidência FM (100,9), de Belo Horizonte.
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Comentários
sensacional a entrevista!
Que legal essa entrevista do sr. Moisés Rabinovici. Mais legal ainda é que ele é o diretor do Diário do Commércio, o único jornal brasileiro que tem a coragem de publicar uma coluna do grande filósofo contemporâneo OLAVO DE CARVALHO !
Ótima entrevista, mas há um erro de transcrição em: "Estava na redação do Jornal da Tarde quando o presidente , resolveu fazer uma visita histórica...". O Rabinovic falava de """Anwar Al Sadat"", que foi presidente do Egito de 1970 a 1981 e visitou Israel em 1977, fazendo do Egito o primeiro país árabe a reconhecer o Estado de Israel. Muammar Kadhafi é presidente da Líbia.