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20/08/2010 | domtotal.com

A imagem de Deus em expansão


Por Claudia Fanti

Não houve nenhum pecado original, mas, pelo contrário, uma "bênção original". É o que ensina o "novo relato sagrado" transmitido à humanidade pela nova cosmologia, "uma nova revelação" que obriga as religiões a uma radical "reconversão ecológica".

É justamente à relação entre ecologia e religião que é dedicado o número coletivo publicado por 13 revistas latino-americanas – Christus (México), Voces del Tiempo (Guatemala), Alternativas (Nicarágua), Amigo del Hogar (República Dominicana), La Antigua (Panamá), Vínculum (Colômbia), Páginas (Peru), REB e Perspectiva (Brasil), Tiempo Latinoamericano (Argentina), Acción (Paraguai), OBSUR (Uruguai) e Pastoral Popular (Chile), além do boletim online Ecodes – por iniciativa da Comissão Teológica Internacional da Associação Ecumênica de Teólogos e Teólogas do Terceiro Mundo (Asett; www.comision.teologica.latinoamericana.org).

Somos natureza

Para demonstrar que essa relação não é nada óbvia, basta o fato de que, como se lê na apresentação ao número escrita pelo religioso claretiano José María Vigil, coordenador da Comissão Teológica da Asett, não foram as religiões que dispararam o alarme sobre a emergência ambiental, nem que se colocaram na primeira linha da luta contra o aquecimento climático, nem que alertaram sobre os perigos já evidentes de uma economia centrada no carbono: "as religiões parecem estar muito ocupadas com outras coisas, ´no seu mundo´, nas suas questões religiosas".

Porém, a sua responsabilidade na crise atual é muito mais profunda do que parece: se de fato a causa maior do desastre deve ser situado no modelo de civilização que o tornou possível, descobre-se fácil e fatalmente que o paradigma central que se esconde por trás das práticas predatórias seculares que destruíram o planeta "foi construído e veiculado, de geração em geração, durante milênios, pela religião". Aquela religião ocidental que nos tornou "anaturais", alienando-nos da natureza para nos colocar em um plano radicalmente outro, o da História da Salvação em que a natureza não tem nenhum papel, e "antinaturais", convencidos da necessidade de fugir do mundo e de ir para além da matéria para "nos divinizarmos".

E se, como dizia Einstein, "um problema não pode ser resolvido com uma solução derivada da própria mentalidade que causou o problema", só mudando de modelo de civilização e, portanto, necessariamente, reconsiderando a relação da religião com o cosmos e com a natureza é que será possível localizar soluções para a crise atual.

Por isso a extraordinária importância do "novo relato sagrado" transmitido pela cosmologia, diante do qual as religiões são obrigadas a reconsiderar o seu antigo relato – pequeno e pálido diante da grandiosa e inexaurível narração cósmica –, reformulando radicalmente o seu capital simbólico. O conteúdo da nova "revelação" não poderia ser mais revolucionário, comunicando-nos a visão de um universo em movimento total e contínuo, em expansão e em evolução – não um cosmos regido por leis eternas e imutáveis, mas "uma cosmogênese que se desdobra por dentro", como uma flor ou um embrião –, de um universo que se auto-organiza a partir do caos, "um todo que é maior do que as suas partes e que está em toda a parte", assumindo coerência de comportamento "a partir de componentes que apresentam uma incoerência inicial", orientado para a vida, para a complexidade, para a consciência.

Um universo em que todo o longo caminho a partir do Big Bang parece tender ao aparecimento do ser humano ("não é só o ser humano – defende o cosmólogo John Barrow – que é adaptado ao Universo. O Universo é adaptado ao ser humano"), como se ele "desejasse" a aparição do humano: "Era necessário que a vida e o pensamento fossem inscritos na potencialidade do Universo primitivo", destaca o astrofísico Hubert Reeves. E o poeta Ernesto Cardenal se interroga: "Qual Prêmio Nobel nos explicará por que estamos em um Universo que aprendeu a pensar?".

Uma visão do mundo tão diferente daquela que as religiões nos transmitiram também traz naturalmente consigo imagens radicalmente diferentes da natureza, do ser humano, de Deus. Assim, evidencia José María Vigil na sua intervenção, não pode mais ser crível "uma definição religiosa negativa da matéria e de tudo o que se relaciona a ela", razão pela qual não se deve falar de "pecado original", mas sim de "bênção original".

Nem se pode considerar esta vida "só uma ilusão passageira, uma ´prova´, em função de outra vida, a verdadeira e definitiva, aquela além da morte, à qual um Criador nos teria destinado": "As religiões de ´salvação eterna´ – destaca o teólogo – devem com urgência dar novamente razão de si no contexto mental atual".

Do mesmo modo, não é mais possível aceitar que o ser humano venha "de cima, nem de fora, mas de dentro e de baixo, da Terra, do Cosmos", como "a flor da evolução cósmica". Além disso, não podemos mais nos considerar os "chefes da criação", mas sim uma espécie dentre tantas, mesmo que "a única capaz de assumir responsabilidades". Nem podemos acreditar que vivemos separados da Natureza, "injustificadamente autoexilados da nossa placenta", sendo nós não sobrenaturais, "mas muito naturais": "Somos Natureza, Terra que sente, que pensa e ama, matéria que em nós chega à reflexão", escreve Vigil. Quando olhamos as estrelas, somos hidrogênio que contempla hidrogênio, nos lembra Cardenal no seu "Canto Cósmico".

E uma visão tão radicalmente mudada da realidade não permite mais, destaca Vigil, nem mesmo "imaginar um Deus que está fora, que está acima, em um ´segundo plano superior´ do qual dependeria o nosso", porque não tem mais sentido falar de um "fora" e de um "acima" com relação ao cosmos. É aqui que entra em jogo, segundo Guillermo Kerber, coordenador do Programa sobre Mudanças Climáticas do Conselho Mundial das Igrejas em Genebra, a categoria da transparência divina, definida também como panenteísmo: Deus em tudo, e tudo em Deus. Uma visão "em que a criação e os seus processos estão de algum modo ´em´ Deus, apesar de Deus ser mais do que a criação".

Portanto, Manuel Gonzalo tem razão ao afirmar, na sua intervenção, que "a nossa imagem de Deus está em ´expansão´. A cosmologia moderna exige uma teologia atualizada. Essa mudança já está levando a um desenvolvimento das capacidades de admiração e escuta diante do Universo, a atitudes mais contemplativas, a responsabilidades novas para com o planeta e a vida nele, à compreensão de um Deus dinâmico que ama o mundo".

Atitudes de respeito, veneração, comunhão ("nas estrelas, somos irmãos de tudo"), adoração ("tudo é uma grande liturgia cósmica") e conquista de uma nova identidade ("a história do Universo se revela como parte da nossa própria história. Não temos 20, 40 ou 70 anos. Cada um de nós tem 15 milhões de anos").

"Sem nenhuma dúvida – conclui –, hoje na consciência ecológica o Espírito de Deus está soprando. É um convite a nos localizarmos de maneira diferente no Universo e a levar a sério a responsabilidade que temos sobre a criação".

A reportagem é de Claudia Fanti foi publicada na revista italiana. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

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