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Especial Invasões bárbaras

13/05/2011  |  domtotal.com

A Internet é um universo de ponta cabeça

Mas só na aparência. Na realidade, contracultura e massificação das ideias convivem.
Por Frédéric Martel
Novembro de 2010. No primeiro plano de um pequeno café de Teerã, perto da praça do imã Khomeini, converso com uma jovem velada que vê "Telephone", o videoclipe trash de Lady Gaga. Para muitos, a web é símbolo de massificação da cultura e – dado que estamos em tempos de globalização – de americanização. Tenho uma demonstração viva disso debaixo dos meus olhos.

Dezembro de 2010. Enquanto me encontro em Berlim, descubro atônito, junto com o resto do mundo, o conteúdo encriptado dos telegramas diplomáticos do Departamento de Estado dos EUA: o WikiLeaks, ou a pirataria informática em escala industrial.

É o mundo de ponta cabeça. Preferiria que o WikiLeaks surgisse no Irã (ou na China), e que Lady Gaga permanecesse nos EUA. Aparentemente, portanto, essas duas práticas da rede são contraditórias. Por muito tempo, disse-se que a web favorecia o advento de um entretenimento único e dominante, que a Internet seria o símbolo da padronização. Mas disse-se também, inversamente, que a Internet seria o santuário das contraculturas e das subculturas, que os nichos e as suas "Long Tails" prosperariam.

Na realidade, essas duas visões coexistem uma ao lado da outra na Internet e nas redes sociais: ao mesmo tempo, a massa e o nicho. Ao mesmo tempo, a cultura para todos e a cultura para cada um. Ao mesmo tempo, a informação em 140 caracteres e o tempo longo de 10 páginas de crítica a um livro. Ao mesmo tempo, o Avatar e a foto da neve na frente da minha casa. Ao mesmo tempo, o mainstream e o antimainstream.

No Irã, mas também em Cuba, na Arábia Saudita, no sul do Líbano ou na Venezuela, neste ano vi em todos os lugares opositores, mulheres ou gays menos isolados graças à web. Em Damasco ou em Havana, a cultura de massa norte-americana muitas vezes é percebida como uma cultura emancipatória: é uma contracultura acessível graças à web ou ao mercado negro.

Ao contrário, o site do WikiLeaks, europeu e sem estado ao mesmo tempo, exalta uma forma de ciberdissidência no coração dos países ocidentais, em que a liberdade de expressão é incomensuravelmente mais forte do que na Coreia do Norte.

Esses paradoxos confirmam que a Internet e as redes sociais são instrumentos por si sós nem bons nem ruins: são, e serão, aquilo que nós fizermos deles. É preciso defendê-los (por exemplo, contra o governo norte-americano, garantindo acolhida ao WikiLeaks), mas também regulamentá-los para proteger o pluralismo, evitar a concentração e defender a liberdade de expressão sem cair na calúnia e na difamação generalizadas. O WikiLeaks é útil, mas o futuro da web não é apenas o WikiLeaks.

Resta saber se a ação política obterá benefícios dessas evoluções. Sim e não. Sim, porque a transparência se conquista, e a palavra se liberta. Graças à perda do monopólio da intermediação por parte de mediadores, críticos, jornalistas, graças à renovação dos formadores de opiniões culturais, as mídias são mais numerosas; as opiniões, menos controláveis; e a informação, mais livre. Os conteúdos participativos, a web 2.0, os conteúdos gerados pelos usuários, as trocas peer-to-peer, a Wikipedia, os agregadores de conteúdos, o Flickr, a contextualização, a hibridização oferecem formas inéditas de informação e de cultura. Por outro lado, o que estamos assistindo não é apenas uma transformação da cultura, mas uma nova civilização.

Quanto à pertinência das mobilizações políticas geradas pelas redes sociais e pela rede, há menos razões para sermos otimistas. Em um recente artigo, Malcolm Gladwell defendia que o Twitter nunca será capaz de estimular uma mobilização real e uma mudança importante: segundo Gladwell, se Martin Luther King tivesse usado Twitter, não teria havido jamais nenhum movimento dos direitos civis! ("Small Change", The New Yorker).

Eu não seria tão drástico. Vi recentemente, em Havana e em Teerã, os efeitos positivos dos blogueiros anticastristas e antimullah. Certamente, por enquanto, servem mais para fortalecer os cubanos de Miami ou os iranianos de Los Angeles do que para derrubar as ditaduras. Mas, na Itália de Berlusconi e na França de Sarkozy, é no Facebook, nos blogs e no Twitter que se organiza a mobilização. É preciso sempre começar a conduzir as lutas at home antes de esperar que se possa importá-las ao resto do nosso small world.
A reportagem é de Frédéric Martel, publicada no jornal italiano La Repubblica. A tradução é de Moisés Sbardelotto.






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