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26/03/2012 | domtotal.com

O outro Muro da Vergonha

Erguido em 1994, um paredão de metal e arame farpado, com cinco mil quilômetros de extensão, continua a separar o México dos EUA

Por Marco Lacerda

"O muro de Berlim caiu há mais de 20 anos, mas o nosso continua de pé", diz o americano David Ungerleider, enquanto percorremos de carro, na cidade de Tijuana, a fronteira que separa o México dos Estados Unidos. A linha divisória é marcada por um paredão de metal, intercalado por trechos de arame farpado, com 5 mil quilômetros de extensão que, desde 1994, percorre quatro estados dos EUA. Tudo controlado por uma parafernália eletrônica e por forças militares orientadas por uma mistura de autoridade e preconceito racial. "A diferença entre os dois muros", diz Ungerleider, "é que o de Berlim existia para impedir que as pessoas saíssem. Este é para impedir que elas entrem".

David Ungerleider é um sacerdote jesuíta de 58 anos muito bem escondidos pelo porte atlético e um par de olhos azuis que não disfarçam sua origem germânica. Há 40 anos vivendo no México, atualmente ele é diretor da Universidade Iberoamericana, além de trabalhar no Centro de Apoio aos Migrantes. Diariamente cerca de três mil pessoas chegam a Tijuana dispostas a cruzar a fronteira e entrar nos Estados Unidos em busca de uma vida nova. Nem todos conseguem, mas a maioria permanece na cidade e continua tentando. "Isto fez com que a população do lugar, que nos anos 50 era de 60 mil habitantes, saltasse para quase 2 milhões neste começo de século", informa o padre.

Fenômenos como o de Tijuana se repetem ao longo de toda a fronteira. Atraídos pela riqueza da maior potência econômica do mundo, legiões de deserdados da América Latina, sobretudo do México, desembarcam a cada dia em locais fronteiriços, dando origem a bolsões de pobreza que nada ficam a dever às piores favelas brasileiras. Com populações que que não param de crescer, as cidades, inclusive as do lado americano, enfrentam um cataclisma social incontornável.

A pequena McAllen, por exemplo, apesar de estar localizada num dos Estados mais ricos dos EUA, o Texas, é a cidade mais pobre do país, com uma renda per capta de meros US 13 mil. Em Juarez, no lado mexicano, com dois milhões de habitantes, o ar é irrespirável e as reservas de água potável se esgotarão em cinco anos. E mais: dois terços dos casos de tuberculose e hepatite registrados nos Estados Unidos se concentram na Califórnia, Arizona, Novo México e Texas - os quatro estados americanos vizinhos. "Para resolver tantos problemas, seria necessário um Plano Marshall para a fronteira", diz o senador texano Elliot Shapleigh.

Mais realista, o agente Victor Manjarez, que lida diariamente com o dilema de uma migração caótica, diz que a crise não terá solução "enquanto existir uma economia de terceiro mundo no sul e um oásis de prosperidade no norte". Tanto é verdade que não se vê êxodo no sentido oposto. Dos Estados Unidos para o México migram apenas aposentados que vão desfrutar boa qualidade de vida em praias como San Felipe, no oceano Pacífico.

Com salários de apenas US 500 mensais, eles passam dez meses de férias no país e só voltam aos EUA no período mais quente do verão. Muitos escolhem a rota para escapar das leis implacáveis do imposto de renda americano. Ou são como a ex-professora Katherine Hammontre, que mudou-se para San Felipe "para desfrutar da liberdade de possuir oito cachorros em casa sem ser incomodada pelos vizinhos".

Jeitinho americano

A concentração humana na vizinhança americana começou a partir de 1848, quando, para por fim à guerra entre os dois países, o México vendeu aos EUA o território equivalente aos quatro estados da fronteira, por US 15 milhões. A aglomeração aumentou de forma desordenada com o Acordo de Livre Comércio Norte-Americano (NAFTA), firmado em 1993 com o México e o Canadá. Washington viu na idéia uma maneira de impedir a fuga para países asiáticos de fábricas que poderiam permanecer nos arredores mexicanos, onde os trabalhadores já se acostumaram a suar a camisa para ganhar em um dia salários que os americanos ganham em uma hora.

Antes que outros aventureiros o fizessem, multidões pobres vindas do interior do México avançaram nos empregos que passaram a ser oferecidos. A ser mantido o ritmo atual de migração, profetizam os analistas, dentro de 25 anos 40% da população mexicana estará vivendo na fronteira. A região tornou-se a locomotiva da economia do país. Camponeses e operários sem qualificação agora trabalham em linhas de montagem, também conhecidas como maquiladoras, onde produzem telefones celulares, modems e TVs a cores para o vizinho rico do norte.

A estranha lógica de uma economia que se diz globalizada permite que o vizinho rico compre quinquilharias eletrônicas a preços módicos e, de quebra, garanta a manutenção de seu estilo de vida. Graças à presença no país de uma força de trabalho marginal, paga com salários abaixo do mínimo previsto em lei, os americanos podem comer em restaurantes, ter empregadas domésticas, eletricistas, carpinteiros e uma legião de serviçais cujo trabalho não se dignam mais a fazer.

O outro lado da moeda, porém, está no último censo feito nos EUA: a população mexicana nos EUA já chega a 25 milhões de habitantes, sem contar os que vivem em situação ilegal. Com base nestes dados, analistas americanos advertem que não existe no mundo nenhum país com o potencial do México, tanto para desestabilizar os Estados Unidos como para manter seu padrão de vida. "Se essa mão-de-obra resolver cruzar os braços, a economia americana entra em recessão", alerta o economista Jeffrey Anderson, da Universidade de Berkeley, na Califórnia.

O escritor mexicano Ilán Stavans explica as origens dessa diáspora em seu livro A Condição Hispânica: "Vivíamos em terras americanas muito antes dos primeiros ingleses chegarem no navio Mayflower, por isso nos apegamos tanto a elas. O que acontece hoje é um processo gradual de penetração e influência sobre os Estados Unidos. Estamos determinados a recuperar o que foi tirado de nós".

A lei do mais forte

São 4 da tarde de sábado. Padre David vai cruzar a fronteira para celebrar a missa das 7 em San Diego, a 50 kms de Tijuana. Ele nos convida - dois amigos e eu - a acompanhá-lo para continuarmos a entrevista enquanto viajamos. Como todos temos vistos americanos, só nos falta um carimbo no passaporte para entrar no país. Padre David nos deixa na porta da agência do Serviço de Imigração e Naturalização (SIN), no lado mexicano, depois de combinarmos de nos reencontrar na primeira lanchonete do Burger´s King em território americano, que fica a 100 metros de distância.

Mal colocamos os pés dentro do escritório, somos impedidos por um funcionário da imigração, um negro alto e gordo, armado com uma escopeta tão sofisticada que bastaria um disparo para reduzir um tanque de guerra a pó. "Quem deu ordem para vocês entrarem?", ele pergunta, enxotando-nos da sala como cães sarnentos, com a segurança de quem acha que a truculência é respaldada pelo sorriso amável do presidente George W. Bush na foto oficial pendurada na parede.

"É um dos poucos momentos em que aquele funcionário negro tem a chance de exercer algum poder num país onde ele faz parte de uma minoria étnica - a dos afro-americanos - tão discriminada quanto as demais", explicaria mais tarde o padre David. "Para piorar as coisas, a minoria afro-americana acaba de ser sobrepujada por sua maior concorrente, a dos latinos". De fato, a comunidade hispânica nos EUA cresce a uma velocidade de cruzeiro: 5% ao ano, segundo as últimas pesquisas. Os números mostram que passaram a chegar também contingentes cada vez maiores de brasileiros, vindos sobretudo de Minas Gerais.

Seja como for, a recepção no SIN - "que, em inglês, significa pecado", disse o padre David antes de seguir viagem - pode até ser considerada calorosa, se comparada à maneira como os migrantes são tratados. Pouco antes, em El Paso, cidade fronteiriça do Texas, duas mulheres da Guatemala, ambas de 23 anos, foram presas sob suspeita de tentarem entrar ilegalmente nos EUA. Ambas foram levadas por agentes americanos a uma guarita de inspeção. Dentro de um quarto, um dos policiais levantou o vestido de uma das moças, abriu-lhe as pernas e introduziu os dedos em sua vagina, enquanto seu companheiro apalpava à força os seios da outra. Depois de agredí-las sexualmente por várias horas, os policiais deram um dólar a cada uma e as deixaram entrar nos Estados Unidos. Esta é apenas uma entre as centenas de queixas registradas recentemente pela Anistia Internacional.

Sonho americano

Todos os dias cruzam a fronteira do México, rumo aos Estados Unidos, um milhão de barris de petróleo, 400 toneladas de pimenta, 240 mil lâmpadas, 170 Volkswagen do tipo Beetles, 16 mil torradeiras, além de US 51 milhões em peças de todo tipo. Isso para falar apenas da mercadoria inspecionada oficialmente, pois, escondidas em compartimentos secretos de caminhões, caminhonetes e vans, viajam toneladas de cocaína, heroína, remédios banidos por lei e sapatos feitos com pele de animais em extinção. Segundo o padre David, "85% das drogas que entram nos EUA passam pelas portas oficiais", graças a propinas pagas a agentes federais, "não através de migrantes clandestinos", como as autoridades americanas fazem supor.

Também entram diariamente no país, de forma legal, um milhão de trabalhadores mexicanos - muitos de carro, alguns caminhando -, além cinco mil ilegais. Estes últimos, ao pularem o muro, logo são detidos e mandados de volta ao México, onde vão aumentar as filas em albergues de cidades fronteiriças caotizadas pelo excesso de população. Os que conseguem burlar a vigilância vão lavar pratos em Los Angeles, ser jardineiros na Pensilvânia ou entregadores de pizza em Nova York. Foram seduzidos pelo "sonho americano" ao ponto de arriscarem a vida na travessia de desertos insondáveis, onde os desafios são constantes: escorpiões, cobras venenosas, sede, fome. Ou o frio das águas do Rio Grande, onde morreu congelada a mineira Francelina Pereira da Costa, de 37 anos.

De acordo com relatórios da Anistia Internacional, todos os anos centenas de migrantes morrem ao tentar cruzar a fronteira, em alguns casos vítimas da violência de agentes do SIN. Tudo por causa de empregos que os americanos não querem, para economizar algum dinheiro, mandar um pouco para casa e, quem sabe, um dia trazer o resto da família para uma terra que muitos ainda imaginam como a terra prometida. O presidente Barack Obama já acena até com o fim do embargo econômico a Cuba, mas sequer cogita - como de resto nenhum presidente americano - em derrubar este muro que só enche o mundo de vergonha e amargura.

Marco Lacerda é jornalista, escritor e Editor Especial do DomTotal

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