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12/12/2011 | domtotal.com

A revolução dos quimonos


Por Marco Lacerda

Até a Segunda Guerra Mundial, uma das raras ocasiões em que a mulher japonesa deixava a cozinha era para dar um pulo até a igreja e casar-se. O casamento, no entanto, representava apenas uma troca de cozinhas, a da casa dos pais pela do marido, onde estava condenada a passar o resto da vida. No últimos anos, porém, nenhuma das transformações pelas quais o Japão passou foi tão profunda e radical como a que estabeleceu, por lei, os novos direitos da mulher.

Durante séculos embrulhada em quimonos de seda caríssimos, os cabelos amarrados por magníficos prendedores de laca, a mulher japonesa atravessou a vida caminhando com obediência cega três passos atrás do marido. Hoje ela usa jeans Comme des Garçons e os vestidos ousados de Yohji Yamamoto, deixando os quimonos apenas para ocasiões especiais. Em Tóquio, as garotas passeiam descontraídas pelas ruas de Omotesando e Roppongi sem a sensação desagradável de estarem desobedecendo preceitos ancestrais.

Nos restaurantes franceses da cidade, elas ainda comem o caviar que o diabo amassou, cuidando para que não falte beaujolais no copo dos namorados ou tirando diligentemente as espinhas do peixe que eles vão comer – exatamente como a mãe e a avó faziam no passado. Na verdade, a mulher japonesa ainda segue seu homem, só que não mais a três passos de distância, apenas meio. Nada mau para quem, há até bem pouco, era considerada inferior por princípios confuncionistas tirânicos: a mulher deve obediência aos pais, depois ao marido e, finalmente, aos filhos – rezam os dogmas do filósofo chinês.

Pelo menos neste caso, as idéias de Confúcio soam como violentos golpes de Bruce Lee. Em japonês existem dois sinônimos para a palavra verdade: tatemae, verdade superficial, sob medida para agradar o ouvinte, e honne, verdade profunda, raramente dita em público. No que diz respeito à mulher japonesa, honne tem sido a palavra de ordem na proclamação do seu novo status: ela é reconhecida como a outra metade responsável pelo milagre econômico que arrancou o Japão das ruínas da guerra e, em apenas cinco décadas, o transformou numa das maiores potências econômicas do mundo.

Prostituição em família

A liberação feminina já é reconhecida até oficialmente: "Os anos 80 foram marcados por mudanças drásticas na vida da mulher japonesa. Espero que os anos 90 tragam transformações similares na vida dos homens", diz Mariko Sugahara, diretora do Bureau de Estatísticas do governo. A discreta porção feminina do Japão – 62,9% de mulheres, ou seja, 50,9% da população e 40% da sua força de trabalho – ainda leva nas costas a missão de administrar o lar para que os homens possam entregar-se a jornadas espartanas de trabalho, que podem durar até 14 horas diárias.

E se o que o marido ganha não é suficiente para manter a família, a culpa é da mulher, por não saber viver de acordo com o orçamento. É atribuído a esse tipo de opressão o resultado de uma pesquisa feita pelo governo japonês: entre 680 prostitutas presas nas ruas de Tóquio, 10% eram mães de família, donas de casa fazendo arubaito (bico, em português) para ajudar no orçamento da casa. Entra também na conta desse tipo de preconceito o fato, constatado em pesquisa, de que a mulher japonesa já não considera o casamento a única forma de realização pessoal. Apenas 13,8% das entrevistadas concordam que a felicidade está no lar.

Entre garotas na faixa dos 20 anos, só 4,2% aprovam a idéia. O desinteresse da mulher pelo casamento – uma camisa de força onde ela só tem deveres, nenhum direito – é motivo de crise em cidades do interior como Tadami, na província de Fukushima, 200 quilômetros ao norte de Tóquio. Com a média de quatro homens disputando mulheres cada vez menos interessadas em se comprometer, Tadami pediu socorro ao governo. Alarmadas com o problema, as autoridades destinaram uma verba de US$ 2 milhões para a promoção de festas e encontros entre jovens em idade de casar. Como a medida, em uso há dois anos, não deu resultado, o dinheiro agora está sendo usado para "importar" garotas da Tailândia, Coréia, Taiwan e até do Brasil.

As meninas chegam com autorização para trabalhar em indústrias carentes de mão-de-obra, mas acabam indo prestar serviços num outro setor ameaçado de paralisação – os lares do complicado Japão moderno, um país com um pé no futuro e o outro ainda atolado nas plantações de arroz do passado. Embora ganhe proporções de calamidade em cidades pequenas, o problema afeta todo o país.

Mulheres com bons empregos ou financeiramente independentes tendem a adiar cada vez mais o casamento, antes considerado obrigatório aos 25 anos. Elas não querem mais se sujeitar ao peso de tradições que despejam nas costas da esposa a tarefa de cuidar dos pais (os dela e os do marido) e doentes da família, além de arcar com todas as obrigações do lar. Uma mulher que trabalha fora – em geral sete horas diárias – acaba fazendo três horas e meia extras em casa, não remuneradas.

Opção profissional

Segundo outra pesquisa, o motivo que mais tem afastado a mulher japonesa do altar é a imposição de costumes que a obriga a optar entre a carreira profissional e a vida doméstica. "Embora não existam leis escritas sobre o assunto", diz Mariko Sugahara, "muitas mulheres são forçadas a deixar o emprego quando se casam". Apesar de tudo, nenhum movimento de liberação conseguiu tanto espaço em tão pouco tempo como o das mulheres japonesas. Em duas décadas, elas se desvencilharam da mentalidade feudalista que imperava no Japão e cravaram os pés na modernidade que o resto do mundo já respirava.

No passado, a mão-de-obra feminina era integrada por solteiras sem formação profissional, que trabalhavam até o casamento ou o nascimento do primeiro filho. Hoje, 60% das mulheres que trabalham têm 35 anos ou mais e 59% delas são casadas. O salário, mesmo o das profissionais de nível superior, ainda é inferior ao dos homens, e a maioria ocupa cargos menores.

Um censo demográfico recente mostrou que a força de trabalho feminina se concentra nas seguintes atividades: enfermeiras e farmacêuticas (77,5%), músicas (54%) e professoras (41,8%). Entre cientistas e pesquisadores, apenas 8,8% são mulheres. Embora 97% das enfermeiras do país sejam mulheres, apenas 11% são médicas e, mesmo representando 56% do corpo docente, só 18% são professoras universitárias. As mulheres ocupam um pequeno espaço na engenharia (2,4%) e na advocacia (9,3%). Na área de economia e negócios, a mais promissora do país, apenas 6,2% chegam ao cargo de gerente.

A luta da mulher japonesa tem sido basicamente tornar efetivos os direitos garantidos pela Constituição de 1946, muitos dos quais só existem no papel. Um dos artigos estipula que homens e mulheres na mesma função devem receber salários iguais, além de assegurar à mulher o direito à licença maternidade. Por se tratar de um país que se orienta muito mais por costumes que por leis, esses privilégios femininos nunca foram respeitados.

Direitos adquiridos

Só em 1980 entrou em vigor o direito legal da mulher a um terço do patrimônio deixado pelo marido depois da morte, e só em 1984 foi abolida a lei que conferia cidadania japonesa apenas a crianças que tivessem pai japonês. Noutras palavras: há apenas trinta anos os filhos de uma japonesa casada com estrangeiro não eram considerados cidadãos do país. Na verdade, os ventos só começaram a soprar a favor da mulher japonesa a partir de 1975, depois do Ano Internacional da Mulher.

Com a aprovação, em 1986, da Lei de Igualdade de Oportunidades, o número de mulheres nas universidades aumentou consideravelmente, pois os empregadores, por lei, passaram a oferecer chances iguais aos dois sexos. Mas também neste caso a lei é ameaçada por antigos costumes. No Japão, o esquema de promoções se baseia no tempo de casa e na lealdade do funcionário à empresa. Essa regra, a mais sólida e controvertida da sociedade, coloca a mulher em desvantagem. Se ela, por exemplo, tirar alguns anos de licença para cuidar dos filhos pequenos, quando retornar dificilmente conseguirá seu emprego de volta. O mais comum é que ingresse nas fileiras das funcionárias de meio expediente, que hoje representam 25% da mão-de-obra feminina.

Essas trabalhadoras não têm benefícios como férias, seguro de vida ou empréstimos, e podem ser demitidas a qualquer momento. São uma pechincha disputada por qualquer empregador. Em momentos de crise, como a atual recessão que atinge o planeta, a mulher ainda é a maior vítima. Um relatório divulgado pelo governo mostra que entre os estudantes recém formados, o sexo masculino leva vantagem sobre o feminino na batalha pelos novos empregos oferecidos, principalmente em empresas de grande prestígio.

Queda da natalidade

Em 1990, 80,4% dos formandos encontraram espaço no mercado de trabalho, contra 76,5% das formandas. Este ano as mulheres perderam para os homens por um placar de 75,6% a 76,5%. Mas, segundo Mariko Bando, diretora Escritório para Assuntos Femininos, "o Ministério do Trabalho está estudando medidas para punir as empresas que não estão oferecendo, como manda a lei, oportunidades iguais de trabalho para ambos os sexos".
O engodo cultural provocado pelo choque entre leis e tradições se reflete nos lares japoneses.

A natalidade cai vertiginosamente no país e o número de integrantes de uma família, que até 1955 era de cinco membros, chegou à assustadora casa dos 3,1 membros em 1990. Nos Estados Unidos foram precisos 60 anos para que o tamanho das famílias caísse de 5,3 para 4,3 membros. No Japão esse número baixou de 5 para 3,4 em apenas 20 anos. As estatísticas revelam que o número de filhos de casais na faixa entre 15 e 19 anos baixou de 4,2, em 1940, para 1,6, em 1990, o que significa uma redução dos nascimentos de 3,5 para 1,3 milhão de crianças. Como a taxa para manter a população atual do país – 128 milhões de habitantes – é de 2,1 crianças por casal, a situação é motivo de alarme nos meios oficiais. "Se o declínio continuar neste ritmo, o número de idosos em breve será maior que o de crianças e, dentro de vinte anos, haverá mais funerais que nascimentos", diz Makoto Atoh, diretor do Departameto de Estudos sobre a População.

Ao que parece, a mulher japonesa não está disposta a fazer mais sacrifícios para salvar o futuro da raça. "Ela recusa o tipo de casamento proposto pelo homem", diz a escritora feminista Kiyoko Yoshihiro. Estatísticas mostram que o homem japonês dedica apenas oito minutos diários ao trabalho doméstico (contra três horas e meia da mulher), dos quais só um minuto é passado com os filhos.

O governo e as poderosas empresas japonesas, no entanto, estão interessados em estimular a permanência, não o êxodo do contingente feminino do mercado de trabalho – um contingente que dobrou da Segunda Guerra para cá, passando de 13 para 26 milhões. Mesmo porque "o apego a costumes machistas foi responsável, em parte, pelo fechamento de 360 empresas nos anos 90, por falta de mão-de-obra", lembra Kiyoko Yoshihiro.

Mão de obra qualificada

Para resolver a crise de mão-de-obra no país e ao mesmo tempo estimular o crescimento da população, o governo aprovou recentemente um pacote de medidas que inclui a ampliação da rede de creches e de escolas primárias do país, além da diminuição da carga horária de trabalho da mulher, sem prejuízo do salário. Outra vitória das mulheres japonesas foi a abolição da lei que as impedia de trabalhar mais que 150 horas extras por ano e mais que 24 por mês, "O mais importante, agora, é reduzir as horas de trabalho dos homens, para que eles possam retornar ao lar e ajudar na vida doméstica", diz Yukio Matsumoto, chefe da Confederação dos Bureaux Femininos do Japão.

Para Matsumoto, a volta do homem ao lar, além de ajudar a família, protege-o de um dos maiores dilemas do Japão moderno, a morte prematura por excesso de trabalho, conhecida como karoshi. "De manhã, quando meu marido sai para trabalhar, a sensação que tenho é a de que ele está indo para a guerra e que nunca mais o verei", diz uma das centenas de queixas registradas pelo Bureau Feminino.

Um dos passos mais polêmicos na trajetória das mulheres japonesas foi dado quando entrou em vigor a licença-maternidade. A nova medida permite que o pai ou a mãe se afaste do emprego por determinado período, até a criança completar um ano de idade, sem ônus para o empregador. Quem cobre os custos dessa ausência é o seguro social, que paga até 60% do salário do cônjuge que se afastar. A novidade é que, antes, ninguém podia recorrer ao seguro social para esse fim. "Resta saber se as empresas respeitarão a nova lei e quem terá coragem de fazer uso dela", diz Yukio Matsumoto.

A preocupação da funcionária do governo tem fundamento, uma vez que pouquíssimos trabalhadores japoneses lançam mão de seus direitos, como o de duas semanas de férias por ano, em sinal de fidelidade às empresas onde trabalham. "Com certeza os homens não serão os primeiros voluntários", diz Matsumoto. "Eles preferem morrer por excesso de trabalho a se lançarem numa experiência de vida inteiramente nova". Talvez por isso, a trágica saga do homem moderno japonês já não comova tanto mulheres que atravessaram milênios de subserviência e escravidão. "O Japão deve o que é hoje ao sacrifício de suas mulheres", diz a escritora Kiyoko Yoshihiro.

Marco Lacerda é jornalista, escritor e Editor Especial do DomTotal

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