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03/04/2017 | domtotal.com

A economia segundo Buda

Sustentável, respeitosa com o meio ambiente. Mais justa e solidária com os derrotados.

O Budismo busca uma qualidade de vida baseada em valores éticos, não no consumo material.
O Budismo busca uma qualidade de vida baseada em valores éticos, não no consumo material.

Por Federico Rampini*

A nossa conversa começa necessariamente a partir de um evento recente. Violentos confrontos entre grupos de manifestantes pró e contra Donald Trump perturbaram a vida no campus da Universidade de Berkeley, na Califórnia. As imagens deram a volta ao mundo. Tendo vivido durante anos neste canto da Califórnia, assim como também ensinado ao longo do tempo neste campus, eu tinha ficado com a ideia de um reduto liberal, até mesmo “politicamente correto” demais, berço do Free Speech Movement (1964) do protesto contra guerra do Vietnã e, mais tarde, de imponentes mobilizações pacifistas contra a invasão do Iraque em 2003.

Mas, nestes dias, os protestos violentos revelaram a presença da extrema direita. Igualmente surpresa está a economista Clair Brown, que leciona em Berkeley há anos: “Eu não sei o que dizer. Não conseguimos entender se a extrema direita se infiltrou de fora ou se foram estudantes daqui, que só agora se tornaram tão visíveis. Estamos desorientados”.

O clima de intolerância que se respira nos Estados Unidos trumpianos é o que há de mais distante do mundo de Brown: primeira economista estadunidense a ter introduzido o budismo no ensino universitário da “ciência triste”. O seu livro Buddhist Economics acaba de ser lançado nos Estados Unidos.

Dotada de um verdadeiro talento para a divulgação, ela o resumiu também em um vídeo-trailer, com legendas em várias línguas, incluindo o italiano, que é uma divertida síntese do seu ensino. Devedora de pensadores como Amartya Sen e Jeffrey Sachs, ela presta homenagem aos seus inspiradores e àqueles (de Joseph Stiglitz a Tony Atkinson) que lidam há anos com a construção de uma economia diferente. Sustentável, respeitosa com o meio ambiente. Mais justa e solidária para com os derrotados. Em busca de uma qualidade de vida baseada em valores éticos, não no consumo material. A sua originalidade está na ligação explícita com o budismo.

Eis a entrevista:

Você vem de uma carreira acadêmica de prestígio e, eu diria, como economista “tradicional”, distinguiu-se pelos estudos sobre o mercado de trabalho e sobre o impacto das tecnologias. Quando você começou a ensinar um curso tão inédito como a economia budista? Com que reações?

Eu já estou no sexto ano desse ensino. É muito popular. Tendo o formato de um seminário, a cada ano eu escolho cerca de 15 alunos e procuro os mais motivados. São grupos realmente fantásticos.

Entre os economistas que a inspiraram e encorajaram, quais contribuições considera como decisivas?

De Amartya Sen, eu tomei especialmente a ideia de que o bem-estar é uma vida bem vivida. Ele não pode ser tratado usando apenas indicadores materiais. Com Tony Atkinson, eu entendi esta profunda verdade: cada sociedade escolhe as suas desigualdades, no sentido de que as disparidades e as injustiças não têm nada de inevitável, muito menos de natural. Sabemos quais políticas funcionam para tratar as desigualdades, e elas não têm quase nada a ver com o crescimento econômico. Com Jeffrey Sachs e o seu Earth Institute, eu trabalhei muito sobre as questões da sustentabilidade e os Objetivos do Milênio da ONU pela luta contra a pobreza. Eu juntei todas essas coisas, com uma abordagem integrada. Em relação a uma certa tendência da economia de se ficar em hiper-especializações, eu dei um passo atrás para ver o cenário de conjunto.

Por que justamente o budismo? Alguns valores que a inspiram também podem ser definidos como cristãos: solidariedade e amor ao próximo. São Francisco, talvez, foi o primeiro ambientalista.

Eu sou uma budista praticante. Escolhi o budismo porque ele ensina que todas as coisas estão conectadas entre si: os seres humanos e a natureza. Aquilo que acontece com apenas um de nós influencia a todos nós. É claro, eu poderia chamar o meu curso de “Economia espiritual”. Eu considero o Papa Francisco um líder moral, por exemplo em relação ao meio ambiente. A religião cristã e também outras religiões têm alguma versão da Regra de Ouro: não faça aos outros aquilo que não gostaria que fizessem com você, trate o seu próximo como a si mesmo. Mas aquilo que eu amo do budismo é que ele não nos pede para crer em um Deus, apenas na interdependência entre todas as criaturas. A economia budista nos força a assumir as nossas responsabilidades. Como diz o Dalai Lama, somos nós, seres humanos, que provocamos as mudanças climáticas. Por isso, não tentemos sair dessa rezando a Deus.

Como você se sente ao ensinar essas coisas hoje, nos Estados Unidos de Trump?

Trump é um choque repentino que também pode servir para nos despertar. Se as desigualdades, as guerras e a destruição do ambiente são os nossos maiores problemas, ele só pode piorá-los. Devemos nos lembrar de que ele não ganhou em absoluto. Ele recebeu milhões de votos a menos do que Hillary Clinton. E é a partir daí que devemos começar como povo. Não podemos ficar olhando. E é justamente isso que está acontecendo. A imprensa se tornou mais vigilante. Até mesmo entre os meus colegas economistas eu vejo mais ativismo. Estamos redescobrindo a nossa voz.

Depois dos Estados Unidos, a segunda economia mundial é também a nação com o maior número de budistas. Mas a China seguiu um modelo econômico nos antípodas daquilo que você está ensinando.

A China tem um governo comunista, que, antes, reprimiu o budismo e, depois, manipulou-o. No caso do budismo tibetano, a perseguição é obscena. Em muitas situações, o budismo dos chineses está sob o controle do Estado.

O que você acha do Butão, o primeiro país a adotar o Índice da Felicidade no lugar do PIB?

Essa sim é uma ideia budista. Embora sendo um país muito pobre, ele tentou orientar o desenvolvimento para aliviar os sofrimentos dos mais pobres, em particular das populações rurais dos povoados isolados. E, curiosamente, nas pesquisas sobre a felicidade da população urbana, também no Butão emergem aspirações muito semelhantes às nossas: o que realmente precisamos fazer é passar mais tempo com os nossos familiares, com os amigos, reduzir o estresse, fazer as coisas que tenham um valor intrínseco, viver uma boa vida.

*A reportagem é de Federico Rampini, publicada no jornal La Repubblica. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

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