Multimídia Entrevistas

30/01/2009

Lucas Mendes: lições de um mestre do jornalismo


Como em tudo na vida, no jornalismo também existem aqueles que inventam e aqueles que imitam os que inventam. Lucas Mendes pertence à primeira categoria.

Poucos dominam como ele a arte de juntar palavra e imagem para transmitir uma notícia. Seu texto conciso, aliado ao rigor da informação, jamais abusa da paciência do espectador. Ao contrário, Lucas sempre preferiu seqüestrar a atenção do espectador com seu faro de repórter e seu estilo inconfundível de cronista.

Mineiro de Belo Horizonte, Lucas Mendes vive há exatos quarenta anos em Nova York. No dia em que ele trocou o microfone de repórter da Rede Globo pela poltrona de apresentador do Manhattan Connection ninguém teve dúvidas de que TV brasileira perdia o seu melhor repórter de todos os tempos.

Mas nem tudo estava perdido. A cada domingo, sentado na poltrona de âncora do Manhattan Connection, Lucas continua exercitando com refinamento o ofício de jornalista em que se tornou mestre.

Alguém ainda se lembra da frase precisa que ele usou para anunciar a tragédia aérea que matou John Kennedy Júnior, arrastando o avião que o rapaz pilotava pro fundo do Oceano Atlântico? A frase era assim: O príncipe americano morreu no mar, vindo ar, mas era homem do asfalto.

Apesar de tudo, Lucas Mendes insiste em dizer que não tem vocação pra literatura. Imaginem se tivesse.

Confira abaixo trechos da entrevista e no áudio acima a entrevista completa.


Marco Lacerda: Você se mudou pra Nova York em 1968, ano em que a ditadura militar impunha ao Brasil o Ato Institucional número 5, que incluía a censura à imprensa. Começavam os anos mais duros da repressão. Sua mudança pra NY nessa época foi uma coincidência ou foi um exílio voluntário?

Lucas Mendes: Pura coincidência. Trabalhava na revista Fatos e Fotos e tinha acabado de aceitar o convite do Mino para fazer o primeiro número da revista Veja.

No meio desse processo, recebi a notícia que uma bolsa - para a qual havia feito um concurso em janeiro - havia saído. Lembro que o Mino ficou muito decepcionado.

Naquele 68, a revista Fatos e Fotos me mandou cobrir as ‘passeatas dos 10 mil’, teve uma grande passeata aqui em Belo Horizonte. E a gente (a redação da Fatos e Fotos) tinha conexões boas com o Vladimir Palmeira, com a agitação do Rio, então era um período muito bom para trabalhar na imprensa brasileira.

Então eu fui pra Nova York, cheguei no dia 10 de agosto de 1968. Passei três dias lá e fui direto para a convenção democrata, onde vi uma pancadaria muito maior da que estávamos vendo aqui.


Marco: Em 68, ano que, segundo o jornalista Zuenir Ventura não deveria ter começado, eventos épicos aconteciam no mundo: a primavera de Praga, as manifestações estudantis em Paris, a marcha do Pentágono, o desbunde dos hippies e um montão de outras manifestações. Quem, na sua opinião, ganhou a revolução de 68?

Mendes: A direita, não tenho nem dúvidas. Todos esses movimentos que você citou não tinham relação ‘contra’. O movimento na França começou porque o Cohn-Bendit queria dormir com as meninas no dormitório dos homens. Só que não deixavam as meninas entrar, então ele começou um protesto que virou o maio de 68 em Paris.

Em Nova York, queriam construir um ginásio na Columbia, que fica no Harlem, e os negros pensaram: ‘é sacanagem, isso é mais para os brancos do que para a gente’. E deu no que deu.

Eram movimentos curiosos, mas não tinham nenhuma relação. Quando fui para Chicago cobrir as manifestações, fiquei muito decepcionado com a falta de ideologia e de informação da juventude americana. O negócio lá era ‘rock and roll e sacanagem’. Eles estavam ali para ouvir música, para sexo e ‘quebra-quebra’.

E o que aconteceu? Ronald Reagan já tinha sido eleito na Califórnia e Nixon ganhou a presidência dos EUA. A direita se deu muito bem.

Evidentemente aconteceram coisas que influenciaram nosso comportamento, houve uma mudança cultural grande. Estou lendo o segundo livro do Zuenir Ventura (não li o primeiro) e não concordo com alguns pontos sobre a importância do ano de 68 e o paralelo que há com 2008. Acho forçado e equivocado.


Marco: Lucas, quando você começou sua carreira na Globo como repórter de TV, ainda não existia videotape nem satélite. Você tinha que despachar os filmes com suas reportagens de avião para o Brasil. Como é que se fazia isso? Era muito complicada a operação?

Mendes: Era muito complicada porque não entendia nada de televisão. O cinegrafista que estava trabalhando comigo também não sabia nada. Nós dois estávamos começando do zero. Se a Globo soubesse a quantidade de filme de 16mm que a gente queimava eles teriam nos demitido há muito tempo. Era um desastre.

Lembro que o Brasil estava negociando a compra de usinas nucleares com a Alemanha, a pressão norte-americana dizia que o Brasil não poderia ter as usinas e o chanceler alemão foi lá dizer que ia vender.

Fizemos plantão, pegamos o alemão às 6h30 da manhã saindo do hotel e a entrevista não tinha som (risos). Gravar em 16mm era uma mão-de-obra. Havia dois tipos de filme, um com banda de áudio e o outro sem.

A vantagem era que você pegava o material e mandava para o Brasil via satélite, que naquela época custava cinco mil dólares, era raríssimo. A entrevista do alemão não tinha áudio, mas ele estava lá mexendo com o lábio. Coloquei minha voz por cima e ninguém ficou sabendo.


Marco: Quais foram, na sua opinião, os maiores estragos que Bush-filho, o jagunço texano, causou ao prestígio dos Estados Unidos como maior potência do mundo?

Mendes: A tortura. Começou pela invasão do Iraque. Nunca entendi e até hoje não sei porque os americanos invadiram o Iraque. A invasão do Afeganistão fazia sentido.

Porque invadiram o Iraque? Há várias teorias. Muitas delas - até razoáveis - são de republicanos conservadores. Segundo elas, os americanos queriam começar, pelo oriente médio, um jardim de democracia. É uma pretensão grande.

Se os americanos estavam em busca de armas de destruição em massa, eles deveriam ter invadido o Irã e não o Iraque. Mas eles não queriam comprar essa briga.

A mentira que havia armas de destruição de massas é atribuída à CIA, uma campeã de fracassos. De 1949 pra cá, a história da agência é formada por 99% de erros. A gente sempre achou que a CIA fosse um negócio competente, ela errava tudo! Invadiram o Iraque com base nessa informação da CIA, ou talvez sabendo que essa informação era falsa, fabricada.

A única coisa que fizeram bem feito foi contar o número de mísseis soviéticos. Eles sabiam contar, mas por causa de satélites. A missão principal - que era a espionagem, saber o que seu vizinho ou o seu inimigo possui – nisso eles eram super incompetentes, só fizeram burrice.

E havia as torturas, Guantánamo e Abu Ghraib (do lado de fora). Mas do lado de dentro, o que o Bush fez no Ministério da Justiça, nomeando somente por critérios políticos, abalou o prestigio externo e interno do país.


Marco: Lucas onde exatamente você estava no dia 11 de setembro de 2002, quando houve o ataque às torres gêmeas em Manhattan?

Mendes: No prédio onde eu trabalho tem área de café. Estava subindo com o Caio Blinder para fazer a pauta do Manhattan. Olhamos para os monitores de televisão e falamos: ‘o que é aquilo ali?’. ‘Ah, parece que um teco-teco bateu em uma das torres’. Quando descemos, tinha um outro teco-teco batido, então o negócio tomou a dimensão que tomou.

Na hora em que o segundo avião bateu, você sabia que aquilo não era um acidente. A primeira coisa que eu fiz foi pegar o telefone e ligar para a BBC. Por sorte, ao invés de ir para as torres, fiquei o dia inteiro no telefone, porque se você perdesse a linha não conseguia falar com ninguém. A cidade ficou praticamente sem comunicação.

Marco: Qual foi a sua reação ao atentado, qual foi a reação da sua família e das pessoas próximas de vocês nos momentos que sucederam ao ataque?

Mendes: Minha filha morava quase em frente e ficou aterrorizada, porque viu o pessoal saltar das torres. Ela e o marido vieram morar conosco alguns dias.

O filho mais novo faz cinema e acabou de rodar um filme sobre duas gêmeas que tomam uma overdose e morrem. É uma alegoria às torres, mas ele não conta isso.

O filme entrou no festival de Cannes e vai entrar nos festivais de Nova York e de Londres. Ele fez um bom filme, é o primeiro longa dele e está sendo muito bem recebido. Só por ai dá para imaginar o impacto que teve na família.


Marco: Muita gente passou pelo Manhattan Connection desde a morte de Paulo Francis. De todas elas eu diria que o mais polêmico é o jornalista Diogo Mainardi. O que esse colunista da revista Veja acrescentou ao programa?

Mendes: A controvérsia, a provocação. Ele desperta ódio e paixões. Quem não gosta, assiste para falar mal: ‘esse cara é uma besta! Deveria sair do programa’. E que gosta comenta: ‘é isso mesmo, tudo que ele fala está certo’.

No começo, o volume de e-mails contra o Diogo era muito grande. O índice de rejeição era altíssimo. Agora é até preocupante, porque o índice de rejeição caiu e a aprovação vem crescendo. Ele mesmo está preocupado com isso – ‘se estão gostando de mim deve ter alguma coisa errada’.


Marco: Você acha, como tantos observadores dizem, que a China está a caminho de superar os Estados Unidos e tornar-se a potência número um do mundo?

Mendes: Com certeza, concordo sem nenhuma dúvida. Em quanto tempo? Depende em qual economista você acredita. Diria que em 2050, com base no crescimento do produto nacional bruto, a economia chinesa vai superar a economia americana.


Entrevista realizada pelo jornalista Marco Lacerda no programa FrenteVerso, que vai ao ar aos domingos, às 21h, pela Rádio Inconfidência FM (100,9), de Belo Horizonte.



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