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19/08/2013 | domtotal.com

Os bens da Igreja e a fome do mundo


Vendê-los acabaria com a miséria, como supõem intelectuais de fundo de quintal?

Os inquisidores da fortuna vaticana bem que gostariam de uma fatia desses tesouros.
Os inquisidores da fortuna vaticana bem que gostariam de uma fatia desses tesouros. (Arquivo)

Por Evaldo D´Assumpção*

Volta e meia, aparecem intelectuais de fundo de quintal deitando falação sobre os tesouros da Igreja Católica. Por acaso, li há pouco uma antiga crônica da socialite Danuza Leão, onde ela afirma que se o Vaticano se desfizesse de metade dos seus tesouros, haveria o suficiente para acabar com a fome no mundo. Não é uma bela sugestão?

Se não vejamos: quanto pagariam pela Pietá, de Miguel Ângelo, que está na Basílica de São Pedro? E pelo Moisés, do mesmo artista? E depois, pela própria Basílica, que certamente poderia ser comprada e usada por algum bispo de igrejas ditas evangélicas, para ali instalar a sua sede. Obviamente haveria uma fila de concorrentes, fazendo propostas pela Capela Sixtina, cujo valor eu não consigo imaginar. E por tantos outros prédios do Vaticano, cujo valor histórico está infinitamente acima do valor imobiliário.

Depois ainda teríamos a Biblioteca do Vaticano, certamente a mais completa do mundo, com obras cujo valor nunca foi calculado. Mas, pensando bem, quem iria querer comprar livros? Afinal, num tablet já se pode carregar uma livraria inteira. Não vamos listar aqui todas as obras de arte existentes naquele “enorme”país, cujo território que não chega a ½ quilometro quadrado. Só tomei alguns exemplos por seremos mais conhecidos do grande público.

E, com certeza, maior dificuldade teria o papa para fazer esse leilão, pois a mal informada Danuza, como tantos intelectuais ateus e atoa, certamente desconhecem que todo o acervo do Museu do Vaticano, um dos mais completos do mundo e ao qual pertencem todas as obras de arte existentes naquele pequeno país, são inalienáveis, pelo fato do Direito Internacional o proibir. O Vaticano é apenas o guardião e fiel depositário de tudo isso, conforme determina o Tratado de Latrão, assinado com a Itália e ratificado em 7 de junho de 1929.

Imaginemos que o Papa Francisco, num auge de generosidade, resolvesse infringir a lei e vender tudo aquilo. Certamente seria interditado por tribunais de leigos e ateus constituídos ou formados emergencialmente para isso. A imprensa mundial e todas as instituições culturais, científicas e históricas, especialmente os dirigidos por autoridades anticlericais, cairiam em cima dele, que seria considerado e chamado de irresponsável para com tamanho e inestimável Patrimônio da Humanidade.

Mas continuemos em nossas fantasias, e vamos ver o que se faria com a enorme fortuna arrecadada. Seriam comprados alimentos para distribuir a todos os famintos, que ficariam saciados por alguns dias. Depois voltariam a ter fome, e morreriam famintos. Quem sabe satisfeitos pelo banquete que lhes fora oferecido, mas que não duraria para sempre.

Pois o problema de fome não é a falta de dinheiro, tampouco de alimentos. Basta ver o que se desperdiça nas mesas dos próprios brasileiros. É sabido que o lixo de um fim de semana de Copacabana – certamente o bairro de paixão da socialite Danuza – daria para alimentar toda a zona norte do Rio de Janeiro, por uma semana. E isso falando somente dos alimentos totalmente aproveitáveis, que são lançados ao lixo por ser a sobra das mesas fartas.

Mas deixemos Copacabana e vamos passear pelo resto no nosso amado Brasil. Façamos também um voo internacional, visitando os outros países das Américas, da África, da Ásia e da Europa. Acrescentemos também a Oceania e cobriremos o mundo inteiro. E iremos encontrar mesas fartas, palácios governamentais e imperiais com riquezas até maiores do que as do Vaticano, financeiramente bem mais valiosas e com pouco ou nenhum valor histórico e cultural, que curiosamente não são cobiçadas para se acabar com a miséria no mundo. Afinal, os inquisidores da fortuna vaticana bem que gostariam de ter uma fatiazinha desses ignotos tesouros...

O problema da fome, caríssima Danuza e seguidores, tanto quanto da miséria mundial está mais no coração dos homens do que em suas carteiras de dinheiro. Assim como a seca no Nordeste brasileiro, que há tantos anos faz a fortuna de alguns figurões da república, que têm nela uma quase inesgotável fonte de lucro.

Está também nos absurdos gastos feitos com armamentos letais, de alto poder destrutivo da vida humana, que em nada contribuem para sequer reduzir a fome e a miséria que grassa nos países do chamado do 3º mundo, mas devoram vidas de crianças, mulheres e idosos, incapazes sequer de portar uma dessas armas.

Vocês, que têm posição social, cultural e econômica privilegiada, que ocupam cargos de poder, se querem realmente acabar com a fome e a miséria no mundo poupem-nos das críticas mesquinhas e infundadas. Movimentem seus cérebros e suas mãos para mudar os desmandos dos poderosos, sem ficar cobiçando os bens culturais e artísticos, principalmente quando estão nas mãos de instituições religiosas sérias que não os possuem como donos, mas como zeladores que o são.

Toda a humanidade, especialmente os mais desvalidos, lhes será eternamente grata.

*Evaldo D´Assumpção é médico e escritor.

EMGE

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