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03/01/2017 | domtotal.com

Pós-verdade e educação

O processo de aprender e educar-se não existe de fato sem esforço e persistência.

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O "fenômeno" da pós-verdade vai muito além da temática política. (Reprodução)

Por José Antônio de Sousa Neto*

De acordo com website do dicionário de Oxford a palavra pós-verdade é um “adjetivo definido como relacionado ou denotando circunstâncias nas quais fatos objetivos são menos influentes na formação da opinião pública do que apelos à emoções e crenças pessoais”.

Escolhida como a “Palavra do Ano” de 2016 a rede de televisão americana CNN argumenta que “alimentada pelo alcance e expansão das mídias sociais e a crescente descrença da apresentação dos fatos oferecidos pelo establishment, a pós-verdade como um conceito vem encontrando o seu embasamento linguístico já por algum tempo”. Segundo o Washington Post, “neste caso o prefixo pós não significa tanto após, mas implica prioritariamente uma atmosfera na qual a noção de realidade é irrelevante”.

Por exemplo, segundo o New York Times, a entidade PolitiFact identificou que aproximadamente setenta (70) por cento das declarações factuais de Donald Trump na verdade se encontram nas categorias de “predominantemente falsas”, “falsas” ou mesmo “inverdades descaradas”. Quaisquer semelhanças com as últimas eleições no Brasil, sobretudo as de âmbito nacional, está longe, infelizmente, de serem meras coincidências. Segundo o jornal, “ como podemos estar ainda falando sobre fatos quando eles não mais nos dão uma realidade sobre a qual possamos todos concordar? O problema é que os experts e agências envolvidas na produção de fatos têm se multiplicado, e muitas agora podem ser alugadas. Se você realmente quer encontrar um expert disposto a endossar um fato e tem dinheiro suficiente e costas largas políticas, provavelmente você vai conseguir”. Isso sem contar a profusão dos chamados “blogs sujos”.

Ainda segundo o New York Times “A combinação de movimentos populistas com as mídias sociais é frequentemente considerada responsável pela política da pós-verdade (grifo meu). As pessoas têm oportunidades cada vez maiores de moldar o seu consumo de mídia em torno de suas próprias opiniões e preconceitos, e líderes populistas estão prontos para encorajá-las”.

Mas evidentemente o “fenômeno” da pós-verdade vai muito além da temática política. Ele se relaciona à capacidade da sociedade como um todo e das pessoas em seus contextos individuais de compreenderem e fazerem sentido da realidade que as cerca. Tampouco, ao contrário do que possa parecer, é um fenômeno recente. Na verdade, é um fenômeno que apenas se potencializou exponencialmente a partir do desenvolvimento de um acesso cada vez mais generalizado às mais variadas fontes midiáticas. Repare o leitor que eu tomei o cuidado de não usar a palavra informação. Isto porque a informação, no sentido mais nobre de seu conceito, é muito mais que um conjunto de dados e opiniões. Ela pressupõe análise, profundidade, reflexão crítica baseada em fundamentos robustos. A isenção absoluta é muito difícil e em muitos casos pode até mesmo não ser a melhor postura moral, mas a construção da informação pode e deve ser feita de maneira ética.

Aqui, caro leitor, entra a educação como uma ferramenta fundamental do processo de libertação humana. A responsabilidade dos educadores e das instituições educacionais vai muito além do essencial conhecimento técnico de suas infinitas especialidades. Os fundamentos éticos, os valores e as ferramentas para construção do pensamento crítico e de profundidade são caminhos de cidadania e, portanto, de libertação. É o maior desafio e a maior obrigação dos educadores e das instituições de ensino. É a “graça” de ajudar para que o exercício do livre arbítrio de cada um possa ser feito com mais maturidade e também, ao longo do tempo, com mais sabedoria. O ensino sem a educação não liberta, não cria cidadãos e tampouco os profissionais e empreendedores que a sociedade necessita.

As respostas “fáceis” e as análises superficiais em meio a uma profusão de fontes midiáticas e até mesmo de informação, associadas à frequente inercia do espírito humano sujeito às tentações dos “caminhos do menor esforço” são armadilhas para todos, mas, sobretudo para as novas gerações. E o processo de aprender e educar-se não existe de fato sem esforço e persistência. Sem este dado de realidade e a humildade do reconhecimento não haverá aprendizado e não haverá educação. Apenas um futuro incerto com poucos meios para superar os desafios da vida. É preciso antes de tudo realmente querer! E aqui, mais uma vez, é intocável o livre arbítrio. É a fronteira até onde educadores e instituições de ensino podem ir por maior que sejam seus esforços, por melhores que sejam suas intenções e a ciência de suas responsabilidades.

Finalmente estas reflexões nos remetem àqueles que lançam mão e se beneficiam da pós-verdade. Os fins justificam os meios? Griffel sintetiza bem que esta pergunta está na essência da distinção entre dois pontos de vista éticos. A deontologia e o consequencialismo. A deontologia diz que se uma ação é “boa” ou “ruim” depende em alguma qualidade da ação em si mesma. Muitos entendem que certas ações são inerentemente ruins tais como crimes, tortura, roubos, etc. Alguns deontologistas, como Kant, acreditam que mentir, é sempre uma coisa ruim. Em outras palavras, que essas ações nunca são justificáveis. O consequencialismo por sua vez argumenta que se uma ação é “boa” ou “ruim” depende de seu resultado. O consequencialismo propõe um padrão através do qual se pode medir o resultado, usualmente alguma forma de “utilidade”, e acreditam que o melhor curso de ação é aquele que maximiza esta “utilidade”. Para os consequencialistas muitas vezes os fins justificam os meios.

As crenças éticas da maioria das pessoas se enquadram em algum tipo de versão híbrida da deontologia e do consequencialismo. A maioria das pessoas entende que a perspectiva da deontologia de que ações como o estupro e a tortura nunca são justificáveis, enquanto outras pessoas acreditam na crença consequencialista de que às vezes é aceitável mentir em casos como, por exemplo, aqueles que são classificados como “mentiras brancas”, ou mentiras “sem maiores consequências”, ou para se “evitar um mal maior”. Mas temos uma referência importante de limites: a ciência sabe que para personalidades com traços psicóticos os fins sempre justificam os meios. É um alerta!

Aqui voltamos mais uma vez a questão do ensino, da educação e da responsabilidade. É um caminho longo. Muito prazeroso, mas muitas vezes desafiador e às vezes árduo. Não há, no entanto, força maior que se possa opor à pós-verdade e as suas consequências escravizadoras. E, para aqueles que têm o privilégio de poder, a caminhada se inicia pela escolha da instituição de ensino. As melhores serão aquelas que de forma ética tem o compromisso prioritário de também educar.

*José Antônio de Sousa Neto: Professor da Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). PhD em Accounting and Finance pela University of Birmingham no Reino Unido.

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