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10/01/2017 | domtotal.com

Geologia e gravidade

Temos de entender que a escala dos processos é de bilhões de anos.

Procedimentos e soluções básicas são frequentemente negligenciados com nefastas consequências sociais e à vida humana.
Procedimentos e soluções básicas são frequentemente negligenciados com nefastas consequências sociais e à vida humana. (Reprodução)

Por José Antônio de Sousa Neto*

Em nosso belíssimo planeta frequentemente não temos a adequada dimensão, inclusive e principalmente temporal, dos processos geológicos.  Muitas vezes nos foge a percepção do extraordinário equilíbrio da natureza e de sua lógica extraordinária a começar pelas próprias leis da física. Aliás, isso me remete a uma interessante e até pitoresca observação de um antigo mestre engenheiro em seu argumento de que nem tudo que tem uma lógica funciona, mas de que tudo que funciona tem uma lógica. Querem um exemplo da natureza? Na minha percepção limitada durante muito tempo me perguntei por que a Providência tinha colocado no meio de belas paisagens montanhas que expeliam lavas fumegantes elas mesmas apavorantemente belas. Hoje compreendo que este processo geológico é fundamental para a própria vida na terra. Vejam que o núcleo incandescente e em estado de fluxo constante no interior de nosso planeta é o responsável pela criação do campo magnético que nos protege de ter a nossa atmosfera varrida pelos ventos solares.

Sem ela evidentemente não haveria vida na terra, não estaríamos aqui. Basta olhar para o planeta Marte. Quando seu núcleo esfriou por ser um planeta de menores dimensões o campo magnético do planeta desapareceu e sua atmosfera foi quase totalmente e literalmente varrida pelos ventos solares.

O fato é que temos de ser humildes. Temos de entender que a escala dos processos é de bilhões de anos. Nós que somos recém-chegados à crosta terrestre temos de compreender as leis da natureza, da física e dos materiais tendo por elas o devido respeito. Por exemplo, no contexto da engenharia e do chamado ambiente construído (Built Environment), os princípios da mecânica dos solos e das fundações para as construções são essenciais para o desenvolvimento da infraestrutura humana e evidentemente para a própria sustentabilidade dos projetos que a viabilizam. Surpreendente, no entanto, é que mesmo nos dias de hoje, apesar de todos os avanços e recursos da engenharia civil, sobretudo em países menos desenvolvidos, procedimentos e soluções básicas são frequentemente negligenciados com nefastas consequências sociais e à vida humana.

É de fato impressionante, mesmo em regiões urbanas mais desenvolvidas de nosso país, que requisitos básicos como a sondagem do terreno antes do início das obras não sejam feitas adequadamente ou mesmo nem cheguem a ser feitas. Às vezes, para reduzir custos, apenas um único furo de sondagem é feito no terreno subestimando a possibilidade de que “logo ali ao lado”, às vezes dentro do próprio terreno, as condições do solo ou da rocha podem ser significativamente diferentes.

Na extraordinária obra de engenharia, recentemente concluída em 2016, para a construção do túnel sob os Alpes ligando a Itália e a Suíça, esta realidade aparece de forma cabal centenas de vezes. Apesar de toda a tecnologia utilizada e das sondagens sistemáticas e rigorosas ao longo da perfuração surpresas geológicas eram frequentes. Muitas delas diretamente ligadas à presença da água que, mesmo em sua delicadeza, possui uma força e um poder imenso no contexto geológico e da natureza como um todo.

Para o engenheiro o conhecimento dos solos, sejam eles arenosos, argilosos ou siltosos, o reconhecimento do caráter essencial dos ensaios laboratoriais desde as análises mais básicas como as táteis e visuais das amostras, às de peso específico, de umidade, de peneiramento, de sedimentação, de permeabilidade e de plasticidade, dentre outras, são fundamentais. A capacidade de sustentação do solo é tão importante quanto à da mais sofisticada estrutura de concreto ou de aço. Aliás, como é evidente, mas ainda frequentemente negligenciado, a maior e mais sofisticada estrutura não fica de pé se a base está corrompida. Esta é uma verdade para a engenharia, para as organizações humanas e, como não poderia deixar de ser e em primeiro lugar, para o próprio indivíduo e sua alma.

E vejam caríssimos leitores que essas coisas fazem parte de nosso dia a dia de forma direta. Mesmo que você não seja um dos desafortunados moradores dos prédios que foram construídos para os jogos pan-americanos no Rio e que estão com recalques (ou na linguagem popular literalmente “afundando”), ou um dos milhares de moradores do Minha Casa Minha Vida que começam a ver as paredes de suas casas racharem e as portas entortarem, já devem ter sentido pelo menos uma vez o desconforto de ficarem sem água em função de tubulações que se romperam como resultado de movimentações de solo ou geológicas de uma maneira mais ampla. E estes são apenas alguns poucos entre milhares de exemplos! Se o leitor me permitir o trocadilho não se pode ignorar a gravidade da gravidade.

Prefiro pular aqui as consequências de quando as tubulações forem de gás canalizado e não de água....Também vou me abster de falar sobre o despreparo, vaidade e a ambição cega e desmedida de políticos e autoridades constituídas que nas suas compulsões pelo poder não cumprem com suas responsabilidades e obrigações básicas relacionadas ao tema. Principalmente a contratação adequada de projetos e de suas execuções, e também em relação a uma legislação adequada e a um judiciário efetivo na cobrança e imposição das devidas reparações. E olhem que por maior que seja o desperdício de dinheiro público neste “desrespeito” ao bom senso, à engenharia e à natureza, por maior que seja o transtorno dos desafortunados afetados, tudo isso ainda é quase nada quando comparado aos infelizmente frequentes casos de perdas de vidas humanas. Este custo não se pode precificar.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

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