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Religião

12/01/2017 | domtotal.com

Tarefas da ética teológica para uma Igreja em saída

Categorias bíblicas do órfão, do pobre, da viúva e do estrangeiro são resinificadas nos que clamam por justiça: trabalhadores, mulheres, gays, negros, refugiados, imigrantes etc.

Toda a Igreja é discente e docente. Bispos, padres e teológos são aprendizes.
Toda a Igreja é discente e docente. Bispos, padres e teológos são aprendizes. (Manu Dias/GOVBA)

Por Élio Gasda*

Uma das tarefas da ética teológica consiste em traduzir as angustias e esperanças do povo de Deus, principalmente dos pobres e vulneráveis. As categorias bíblicas do órfão, do pobre, da viúva e do estrangeiro são resinificadas nos sujeitos que clamam por justiça: trabalhadores, mulheres, gays, negros, refugiados, imigrantes, povos originários, famílias etc. Pobre e injustiçado são conceitos que extrapolam o âmbito socioeconômico e apontam para outras dimensões sociais relevantes.

Sexualidade como angústia. As tensões inauguradas pela Encíclica Humanae vitae (1968) de Paulo VI se intensificaram: fecundidade e contracepção, casais de segunda união, casamentos não heterossexuais, relações extraconjugais, decretos disciplinares ignorados pelos fiéis. A luta por reconhecimento da população LGBT também traz grandes desafios. Em meio a polifonia de vozes, é prudente assumir a provisoriedade das posições, para respeitar a experiência das pessoas. Uma reflexão teológica aberta à emergência das novas identidades afetivo-sexuais pode inspirar uma ética sexual menos dependente da compreensão heteronormativa das relações humanas.

São muitas as angústias em torno da questão da mulher. Contudo, a desconstrução das ideologias patriarcalistas, androcêntricas e machistas aponta para o reconhecimento da identidade feminina além do sexo biológico e da maternidade. Neste sentido, as novas perspectivas de gênero contribuem na identificação das diferenças sociais derivadas do reconhecimento como homem ou mulher dentro de padrões sociais. Novos estudos desvelam as formas de construção cultural dos atributos de masculinidade e feminilidade para pensar as relações de poder. Porque não reconhecê-los como um campo científico que investiga padrões de comportamento em chave de sexualidade? A identidade de gênero é um princípio de organização social que está na raiz de muitas situações de injustiça e violência. As mulheres são sujeitos de direitos com poder de legislar sobre eles.

As novas configurações familiares constitui outro desafio. O conceito de família evoluiu através dos tempos. O modelo matrimonializado, heteronormativo e patrimonialista de família vêm perdendo seu protagonismo para configurações fundadas nas relações afetivas, na redefinição dos papéis de gênero e na necessidade de sobrevivência. As famílias nunca foram todas iguais. Porque insistir na imposição de um modelo uniforme para classificá-las como regulares ou irregulares? O sentido da família vai muito além da procriação e do ato sexual.

Avançar na renovação da ética teológica no papel de mediadora entre Igreja e sociedade é uma condição para responder aos desafios de forma adequada. Ela busca traduzir para a sociedade e a ciência o pensamento eclesial, e apresentar para a Igreja os avanços, as discussões e as demandas das ciências, da sociedade e das culturas. O cristianismo romanizado pouco tem a ver com pluralidade cultural do povo. Além de emperrar a reflexão, mantém os teólogos ocupados na defesa de moralismos anacrônicos e obtusos. O princípio da educação libertadora pode ajudar nesta tarefa: “Ninguém ensina ninguém, ninguém ensina a si mesmo, as pessoas se educam entre si, mediatizadas pelo mundo” (Paulo Freire). Toda a Igreja é discente e docente. Bispos, padres e teológos são aprendizes. O povo considera suas tradições como parte de sua identidade. Há muitos sinais do Reino de Deus no meio das culturas. Porque não aprender de outras experiências culturais e sabedorias além das formas europeias de pensamento? Uma ética teológica de fronteira e livre da obrigação de entender os comportamentos humanos com lentes europeias. Porque a forma simbólico-narrativa dos ameríndios e afrodescendentes seria menos apropriada que o pensamento europeu para interpretar o agir cristão? A ação de Deus não acontece na totalidade da Criação e na multiplicidade das culturas? Existe apenas uma forma de expressão da ética de Jesus? Pensar a diferença de forma positiva: “é necessário recorrer às diversas riquezas culturais dos povos, à arte e à poesia, à vida interior e à espiritualidade” (Laudato si, n. 63).

Dar espaço ao que é concreto e diverso é a saída apontada por Papa Francisco: “Nem todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais devem ser resolvidas através de intervenções magisteriais. […] em cada país ou região, é possível buscar soluções mais inculturadas, atentas às tradições e aos desafios locais. (Amoris Laetitia, n. 3). Novos enfoques lançam a ética na arena dos conflitos e a compelem a pensar em perspectivas mais libertadoras. Trata-se de articular a reflexão no único eixo, o Evangelho do Reino de Deus. “A proposta do Evangelho não se resume a uma relação pessoal com Deus. [...] A proposta é o Reino de Deus (Lc 4, 43). Na medida em que Ele conseguir reinar entre nós, a vida social será um espaço de fraternidade, de justiça, de paz, de dignidade para todos.” (Evangelii Gaudium, n. 180). O Cristianismo exige uma ética teológica que priorize a fragilidade: “Somos chamados a cuidar da fragilidade do povo e do mundo em que vivemos” (Evangelii Gaudium, n. 216), que ela escute “o clamor da terra e o clamor dos pobres” (Laudato si, n.49).

*Élio Gasda: Doutor em Teologia, professor e pesquisador na FAJE. Autor de: Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja (Paulinas, 2001); Cristianismo e economia (Paulinas, 2016).

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