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13/02/2017 | domtotal.com

A literatura dos frangos de granja

Nas faculdades de letras do país não se conhece quase nada da literatura brasileira contemporânea.

A literatura brasileira hoje só dá espaço a “bons moços” e “boas moças”. Gente que não desafina o coro dos contentes.
A literatura brasileira hoje só dá espaço a “bons moços” e “boas moças”. Gente que não desafina o coro dos contentes. (Reprodução)

Por Ricardo Soares*

O país amanheceu pegando fogo e diante do incêndio o prezado leitor pode me perguntar porque vou me ocupar da literatura brasileira contemporânea já que existem tantos temas candentes. Justamente porque a literatura nativa atual não é um tema candente e pouca gente opina, escreve e reflete a respeito.

Diante disso é mais do que bem vindo o artigo ou pensata publicada ontem no caderno “Ilustríssima” da Folha de S. Paulo onde o jovem escritor Santiago Nazarian reflete acerca dos “animais raros”, ou seja, os poucos leitores da literatura nacional que não querem virar escritores. No artigo (que o jovem escritor chama equivocadamente de “ensaio”)  ele diz que “no meio literário, mantém-se o palpite (nem tão sarcástico) de que o número total de leitores de literatura brasileira contemporânea seja o mesmo da média das tiragens: 3000. Desses, a imensa maioria é formada pelos próprios autores, por editores e jornalistas”. Mais de uma vez escrevi a respeito disso inclusive comparando esse quadro, digamos esquizofrênico, com o do audiovisual brasileiro que nos entope de realizações muitas vezes vistas apenas pelos realizadores.

Evidente que a literatura brasileira atual tem nuances bem distintas do nosso audiovisual. E Nazarian aponta com acerto que mesmo a comunidade acadêmica conhece pouco ou mal a produção contemporânea . Nas faculdades de letras do país não se conhece quase nada da literatura brasileira contemporânea, salvo raras exceções ou salvo raros professores que se debruçam com afinco sobre o assunto.  Assim muitos deles acabam por incorrer nos mesmos erros que alguns autores nacionais. E aí, ironia do destino, autores como Nazarian são  um belo exemplo disso  por inferir que a literatura brasileira contemporânea é ele e mais meia dúzia de “coleguinhas” de confraria que se confraternizam e tecem loas uns aos outros.Tanto o professor mal informado quanto o Nazarian aparentemente bem intencionado precisam abrir as lentes e enxergar mais longe, enxergar ao redor. A literatura brasileira não é aquela feita ao redor das mesas de uma mercearia paulistana nem a partir de tragos e feijoadas na casa de escritoras amigas como imaginam os “Nazarians”. Chega a  estarrecer a afirmação do jovem autor que ao partilhar uma foto da “turminha” na sua rede social sugere que se no carnaval passado envenenassem aquela feijoada “acabavam com a literatura brasileira”. Ou é um chiste que não entendi ou é  presunção em escala terminal pois tirando uns dois ou três talentosos que aparecem na foto o resto deixa muito a desejar. Mas gosto é gosto e ele se discute.

Antes que me tomem como injusto quero dizer que não conheço a literatura de Nazarian. E , confesso, que ele me perdoe, que é por puro preconceito pois me parece que o moço está muito mais preocupado em estruturar uma “persona” de escritor do que ser de fato um escritor. Sabe muito de auto-promoção, saber estar nas festas certas e nas entrevistas corretas mas adoraria saber se o resultado do seu trabalho é tão reluzente quanto sua eloqüência. Prometo que vou conferir muito embora algumas referências que tenham me passado dão conta que o moço precisa comer muito feijão para estar à altura do que imagina ser. Mas isso, convenhamos, não é privilégio só dele mas de boa parte dos “coleguinhas” que aparecem na foto da feijoada do carnaval passado.

Nazarian está corretíssimo quando diz que os leitores de literatura brasileira atual são animais raros. Mas eu diria que hoje em dia no Brasil os escritores de verdade também são animais raros. Não falo desses frangos de granja, criados com hormônios e ração transgênica mas escritores e escritoras criados no terreiro sujo das palavras, gente que cisca a arte, que cavouca e revolve a terra, que sai da granja e dá caldo grosso. Gente que viceja fora da mídia, que não troca favores com curadores e pseudo-críticos para poder voar para as feiras daqui e de além mar. Em tempo, a literatura brasileira hoje só dá espaço a “bons moços” e “boas moças”. Gente que não desafina o coro dos contentes.

Mas o que pretendo com tudo isso? Desancar a literatura nativa? Muito ao contrário até porque sempre fui entusiasta dela e posso fazer uma longa lista de autores atuais que considero muito bons e não estão na lista do Nazarian. Sem querer ser elitista mas se os escritores brasileiros de hoje debatessem mais entre si, conversassem mais sobre o oficio e parassem de festejar aquilo que não produzem todos pudessem chegar a melhores portos. Se seguir assim, prezado Nazarian, qualquer leitor achará que de fato pode ser escritor porque muitos deles , acredite, estão fazendo melhor figura do que alguns “personagens escritores” mais preocupados com marketing, performance e quejandos do que com as palavras. Desejo que a literatura brasileira saia da granja e pare de discutir migalhas.

Ricardo Soares é escritor, roteirista, diretor de tv e jornalista. Publicou 7 livros, entre os quais o romance “Cinevertigem” ( editora Record, 2005). De 1998 a 2005 dirigiu e apresentou os programas “Literatura”e “Mundo da Literatura” que foram exibidos em várias emissoras abertas e fechadas.

EMGE

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