Religião

17/02/2017 | domtotal.com

O divino em Star Wars: a Fé na Força?

A religiosidade nos permite lidar melhor com a percepção histórica e consciente de existência, superando a linearidade da realidade através da ideia de novos ciclos.

A Força talvez possa ser interpretada como uma forma de hierofania.
A Força talvez possa ser interpretada como uma forma de hierofania. (Reprodução)

Por Demetrios dos Santos Ferreira*

Quinze horas e trinta minutos. Menos de um dia. Esse é o tempo que você gastaria hoje se desejasse maratonar os sete principais filmes da saga Star Wars. Você perceberá que em nenhum momento a palavra “Deus” ou equivalente direto é citado na narrativa, nem mesmo como um hábito linguístico.

Isso é fácil de compreender considerando o ambiente de Star Wars. Estamos em outros mundos, numa outra galáxia, onde os conceitos metafísicos podem ser diversos de acordo com as inúmeras culturas que possam existir em qualquer um desses mundos. George Lucas teve esse cuidado e foi delicado ao compreender que, mesmo com a ausência de elementos transcendentes diretamente conhecidos por nós, a ideia metafísica de um poder onipresente que interliga tudo e a todos está lá: A Força.

Aplicando um conceito de um importante filósofo das religiões do nosso tempo, o romeno Mircea Eliade, a Força em Star Wars talvez possa ser interpretada como uma forma de hierofania, ou seja, uma “manifestação do sagrado”. Na perspectiva desse filósofo, sociedades não religiosas são bastante raras, pois sem o sagrado há apenas uma percepção histórica e consciente de existência. A religiosidade nos permite lidar melhor com essa percepção, superando a linearidade da realidade (começo, meio e fim) através da ideia de novos ciclos que superam a percepção puramente histórica dos fatos, nos remetendo, portanto a outros significados possíveis de realidades menos dolorosas.

Seria possível afirmar que A Força em Star Wars cumpre um papel de verossimilhança, tornando os filmes menos questionáveis ao público? Acredito que sim, pois como justificaríamos o poder imaterial e ao mesmo tempo concreto dos Jedis e Siths (seus opostos) senão por algo que pudesse sinalizar algo divino e transcendental como A Força? Um campo de energia mística com uma dialética polar: de um lado o bem, ou o lado luminoso da Força e do outro o mal, ou lado sombrio também da Força, respectivamente desenvolvidos em cavaleiros Jedis e Siths.

Nessa nossa incrível maratona de mais de quinze horas, aprendemos também com o sábio Mestre Yoda que “acreditar na Força você precisa” para se transformar em um verdadeiro Jedi. Foi isso que o filho de Darth Vader aprendeu a duras penas no pantanoso planeta Dagobah com Yoda. Durante seu treinamento, o mais importante aprendizado de Luke para se tornar um Jedi foi desenvolver a sua Fé na Força. Luke precisava acreditar que realmente conseguiria levitar objetos e seu próprio caça X-wing “apenas” com o poder de sua mente, e essa crença (dentre outras habilidades claro) leva a uma verdade que pode ser verificada na prática: se tornar um Jedi. A Fé na Força em Star Wars pode ser algo subjetivo, mas uma subjetividade que leva à objetividade concreta, o domínio da Força que por sua vez se materializa através de poderes visíveis e percebidos por todos.

Quer mais uma prova de que A Força precisa de uma crença para que possa ser dominada? Teremos então que estender a nossa jornada de filmes em um pouco mais de duas novas horas, adicionando o recente longa Rogue One em nossa lista. Nesse novo spin-off dos filmes principais, conhecemos o interessante personagem Chirrut Imwe que vive na mística lua Jedha. Chirrut é um ardoroso crente no poder da Força e curiosamente é cego. Uma interessante metáfora, pois ele não precisa ver para sentir o poder que a Força é capaz de emanar. O seu mantra é: “Eu estou com A Força e A Força está comigo”. Apesar de não ter visão, Chirrut consegue perceber muito melhor o mundo a sua volta que aqueles que enxergam. Nos momentos mais decisivos da trama, nosso cego repete seu mantra à exaustão e consegue feitos incríveis como desviar e rebater tiros lasers de blasters disparados por sedentos soldados imperiais, usando unicamente seu cajado para isso, além de abater outros de forma maestral. A Fé desse intrigante personagem, a partir da filosofia explicada por Yoda, ajuda-nos a compreender o domínio da Força, mesmo Chirrut não sendo um Jedi propriamente dito. Ele não apenas acredita, mas como também materializa a manifestação dos poderes emanados pela Força utilizando como ponto de partida a sua própria Fé.

Para concluir, é interessante refletirmos que, independente de nossas crenças (ou descrenças) pessoais, reconhecer A Força em Star Wars como algo que nos é familiar demonstra o quanto a presença do divino faz parte da nossa percepção de mundo e é algo que de algum modo nos é natural. Ou seja, por mais que reconheçamos que A Força na saga criada por George Lucas é parte de um enredo ficcional, não a tratamos como algo estranho e que coloque em xeque o nosso prazer de viajar por esse estranho universo de droids, sabres e naves.

Leia também:

Star Wars e a religião: uma saga de fé

A paz esteja convosco! Que a Força esteja com você! - Star Wars e o significado da bênção

Darth Vader e a possibilidade da negação de Deus: Indo para o lado sombrio da Força.

*Demetrios dos Santos Ferreira é cientista social pela FFLCH/USP, editor da LiteraRUA Editora e gerente de operações da revista National Geographic Brasil.

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