Religião

17/02/2017 | domtotal.com

A paz esteja convosco! Que a Força esteja com você! - Star Wars e o significado da bênção

A paz e a Força se aproximam em torno do mesmo objetivo: manter a ordem e a harmonia do universo e das relações sociais.

O inefável necessita da língua para se manifestar.
O inefável necessita da língua para se manifestar. (Reprodução)

Por Alexandre Marcelo Bueno*

Dentre os elementos definidores da dimensão mítica do universo de Star Wars, podemos elencar A Força. Entidade meio mística, meio biológica – tanto que pode ser comprovada mediante uma espécie de teste – ela distingue aqueles que possuem habilidades extraordinárias, ou seja, acima do normal, e os meros seres viventes (humanos e alienígenas).

Mais do que a diferenciação, A Força também é responsável pela criação de uma espécie de comunidade de iguais. Nesse caso, os Jedis, cuja figura conjuga princípios parecidos com a honra dos samurais, são responsáveis pela manutenção da ordem do universo (e, nesse caso, o termo universo deve ser tomado literalmente) como guerreiros voltados para a paz, mas preparados para a guerra quando ela for necessária.

No entanto, A Força tem seu lado obscuro – tal como o Yin e Yang -, cujos seguidores se opõem aos Jedis tanto pela prática quanto pelos princípios morais que os orientam. Nesse caso, são os comumente chamados vilões da narrativa: Darth Vader, Darth Maul, o imperador Palpatine, entre outros. O que a história de Star Wars nos mostra é que aqueles que vão para o lado escuro da Força são seduzidos pela possibilidade de obter mais Força e poder do que os Jedis possuem ou pelo menos para se livrar das amarras morais que orientam os Jedis. A diferença de relação entre os detentores da Força passa pela questão ética e moral: os Jedis respeitam solenemente a Força e somente a usam em situações na qual a justiça encontra-se ausente ou quando se sentem ameaçados. Em outras palavras, eles a usam para restabelecer o equilíbrio de uma determinada situação. Já os seus oponentes procuram usar a Força para oprimir, explorar e, em casos mais extremos, matar outros seres. Em suma, a Força pode ser usada para o bem ou para o mal, para criar harmonia ou gerar o caos, a depender de como cada um se relaciona ou usa A Força.  

Uma marca da diferença no entendimento do uso da Força está justamente no enunciado “que a Força esteja com você”, pronunciada somente entre os Jedis e seus aliados. Usada como uma espécie de benção, ela reforça os laços sociais entre os Jedis pelo que ela tem de apoio simbólico em situações na qual ela não pode falhar, sob a possibilidade de se colocar em risco a existência do próprio universo em Star Wars.

Por isso, vale a pena observarmos como o dicionário Houaiss define a palavra “benção”:

bênção     Datação: sXII
 substantivo feminino
1          ato ou efeito de benzer ou de abençoar
Exs.: o rabino fez a b. do vinho
 o padre fez a b. do navio com água benta
1.1       Rubrica: catolicismo.
invocação (ger. com o sinal da cruz traçado no ar com os dedos) da graça de Deus para alguém ou algo
2          voto de felicidade e proteção divina formulado em favor de alguém
Ex.: a b. do pai ao filho que parte
3          graça concedida por Deus
4          Derivação: por extensão de sentido.
aquilo que vem a calhar, que é oportuno, benéfico, de grande ajuda; bem
Ex.: a viagem foi uma b. para ele


Podemos ver que há o lado mais conhecido da benção com o sentido de abençoar, de revestir o outro com uma aura espiritual cuja mediação é feita pela figura do padre ou do rabino. No fundo, é a graça divina que está em jogo e cujas consequências somente quem a recebe pode experimentar e expressar.

A Força em Star Wars não necessita de uma figura que cumpra essa função religiosa, mas serve também como uma espécie de graça e de proteção, um aspecto benéfico para aqueles que têm por função manter o equilíbrio do universo. Dessa forma, quando se enuncia “que a Força esteja com você”, há pontos de contato com outro enunciado muito conhecido pelos cristãos: “que a paz esteja convosco”, entre outras formas fixas de benção.

Outro traço em comum entre esses dois universos de sentidos tão distantes (a religião e a ficção) é que somente fala-se sobre a benção aquele que faz parte do mesmo grupo ou da mesma comunidade. E, em geral, esse ato é dirigido a um outro seu semelhante, ou seja, uma outra pessoa que é igualmente reconhecida como pertencente a essa coletividade.

A benção é uma espécie de reconhecimento ou de incentivo. Reconhecimento porque há a identificação do outro como seu igual que, em muitos casos, necessita do auxílio superior e divino porque encontra-se em situação espiritual difícil. É também um incentivo porque a benção é um apoio ao outro, uma forma de se fazer com que a Força esteja imbuída no Jedi e a graça divina no crente, como uma maneira de rememorar o pacto que une pessoas em torno de uma comunidade e de fazê-lo se lembrar que ele não está sozinho, mas com a Força ou a graça divina. Não é à toa que tanto “que a Força esteja com você” como “que a paz esteja convosco” são modos de se despedir do outro. É aqui que a paz e a Força se aproximam em torno do mesmo objetivo: manter a ordem e a harmonia do universo e das relações sociais.

A benção também se assemelha a uma outra forma bastante conhecida em seu uso rotineiro da linguagem: a promessa. Esta só existe quando se enuncia um “eu prometo”. Sem proferir esse enunciado, não existe a construção do laço de confiança que leva o outro a acreditar que quem disse a frase irá cumprir o que foi estabelecido. A benção, em ambos os casos, com todas as suas consequências, também só se realiza quando é manifestada linguisticamente. Afinal, ninguém recebe a benção sem a língua, já que não temos formas de nos autoabençoar ou nos comunicar apenas com o poder da mente. Em outras palavras, a benção vem somente do outro, sendo esse outro aquele que reconhecemos ou como nosso igual (no caso do Star Wars) ou como uma figura fundamental da nossa comunidade religiosa.

Cada uma a sua maneira, religiosa ou ficcional, vemos como práticas linguísticas são fundamentais para o estabelecimento e a manutenção de comunidades. O inefável necessita da língua para se manifestar e nos fazer lembrar que não estamos sozinhos no mundo, mesmo que esse mundo esteja em um universo muito distante.

Leia também:

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O divino em Star Wars: a Fé na Força?

Darth Vader e a possibilidade da negação de Deus: Indo para o lado sombrio da Força.

 

*Alexandre Marcelo Bueno é linguista e semioticista, mestre e doutor em Semiótica e Linguística Geral (FFLCH-USP) e pós-doutor em Comunicação e Semiótica (FAFICLA-PUC/SP).

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