Brasil

20/03/2017 | domtotal.com

Cozinhar é um ato revolucionário*

Cozinhar demanda uma relação particular com o tempo, evoca rito.

Cozinhar é determinante para nos diferenciar dos outros seres vivos.
Cozinhar é determinante para nos diferenciar dos outros seres vivos. (Divulgação)

Por Pablo Pires Fernandes*

Não conheço ninguém que faça kimchi. É uma iguaria singular e dá trabalho de fazer, mas o sabor é único. Uma das bases da culinária coreana, essa conserva é secularmente feita de acelga, legumes, uma pasta picante e ácida, acrescida de um mingau de farinha de arroz levemente açucarado. Tudo misturado. E, o mais importante, alguns dias de fermentação.

Ninguém me ensinou a fazer kimchi, nem aprendi em algum programa de televisão. Foi curiosidade, pesquisa e prática. Creio que são esses os três elementos básicos de qualquer pessoa que queira cozinhar. É preciso se lançar por territórios desconhecidos do paladar, se aventurar sem temer.

Esse espírito inconformista que busca o novo e o desconhecido estava presente nos navegantes que, famintos, cruzaram mares sem saber onde iam chegar. Entretanto, pode ser, simplesmente, experimentar algum prato incomum. Você provaria um gafanhoto? Se for capaz de vencer todo o preconceito cultural e colocar um gafanhoto na boca, suas chances de ser um bom cozinheiro aumentam absurdamente.

Deixando as possibilidades esdrúxulas e exageradas de lado – embora eu prove gafanhoto, se tiver oportunidade –, há a realidade inexorável das facas e das panelas. Não há como evitar a prática. É empirismo elementar. Só o erro e o acerto resolvem. A parte da disciplina (e da química) é para profissionais, não é meu caso. Nesse meio de campo, fico com o risco e a experiência, que nos fazem errar menos. Afinal, cozinho por motivos mais importantes.

Cozinhar é determinante para nos diferenciar dos outros seres vivos, é um fator essencial que nos torna humanos. Essa tese é de Michael Pollan, professor da Universidade da Califórnia e autor de Cozinhar, uma história natural da transformação (Ed. Intrínseca), que ganhou versão em vídeo chamada Cooked, documentário dividido em quatro episódios: fogo, água, terra e ar.

Usar o fogo para lidar com os alimentos é um salto civilizatório, sem dúvida. Usar a água para fazê-lo é outro pulo, pois pressupõe o manejo de instrumentos (potes, panelas etc.). A terra e o ar, segundo ele, são uma evolução ainda maior. Lidam com o tempo, com a transformação e a preservação da comida. Daí vem o kimchi. Esses legumes fermentados são capazes de sobreviver por longos meses de inverno sem colheita. Uma sabedoria da sobrevivência.

Os argumentos são muitos bons e descrevem a distância criada entre a sociedade contemporânea e sua comida, nossa básica fonte vital. Como norte-americano, Pollan critica a ganância da indústria alimentícia, ridiculariza o modismo de quem assiste a programas de culinária na TV e não acende o fogão. E se mostra disposto a mudar hábitos, a experimentar e aprender. É um começo, mas não é o ponto.

O ato de cozinhar é realmente revolucionário. Não porque contraria uma indústria inescrupulosa, mas pelo fato de instituir algo sagrado. Cozinhar demanda uma relação particular com o tempo, evoca rito. Sobretudo, o ato de cozinhar é um gesto de troca, implica entrega e pressupõe o outro, o fazer junto, já dado no prefixo “co”. Cozinhar, comer, comungar.

* Frase extraída do cartaz do coletivo artístico Poro (BH, 2011).

http://poro.redezero.org/cartazes/cartaz-cozinhar-e-um-ato-revolucionario/

*Pablo Pires Fernandes é jornalista, subeditor do caderno de Cultura do Estado de Minas e responsável pelo caderno Pensar.

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