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20/03/2017 | domtotal.com

Fellini e Paulo Francis

Se penso em Francis e sua atualidade é porque me aproximando a passos largos dos sessenta anos vejo com tristeza triunfarem cada vez mais as nulidades.

Ler Paulo Francis era um exercício para oxigenar o espírito.
Ler Paulo Francis era um exercício para oxigenar o espírito. (Divulgação)

Por Ricardo Soares*

“Jesus amava as crianças, segundo o Novo Testamento, mas não era criança. Fellini é uma criança amando a si própria. Daí o seu sucesso”. A definição, atualíssima, é de Paulo Francis e foi escrita há quase sessenta anos. Junto assim estes dois mortos ilustres que me parecem  mais vivos do que muitos que respiram para tentar buscar pistas sobre o que é essencial e o que é efêmero nas artes e no jornalismo.

Tive em minhas mãos o livro de Francis “Opinião Pessoal” publicado em 1966 pela editora Civilização Brasileira com orelha assinada por Glauber Rocha. Consegui o exemplar em um sebo e me espanto com a atualidade refletida em muitos textos de Francis ao analisar não só Federico Fellini como Nelson Rodrigues, Gianfrancesco Guarnieri, Graham Greene, Jorge Amado e Aldous Huxley,entre outros.

Quando li o livro fui tomado de um sentimento de impotência e tristeza ao saber que não temos mais Francis entre nós e muito menos Federico Fellini embora este último -  a não ser que a história se equivoque -  deva galgar os degraus da imortalidade. Já Francis em um país sem memória deverá ser lembrado no futuro como uma relíquia preciosa como hoje fazem com o  Barão de Itararé.

Calma senhores guardiões da memória de Paulo Francis. Longe de mim querer dizer que o Barão de Itararé faz parte da mesma falange que Francis. Eram épocas e estilos distintos e tinham alvos bem diferentes. Em comum a perspicácia, o humor ferino, a crítica demolidora e um pessimismo exacerbado que no fundo escondiam almas de cavalheiros.

Se penso em Paulo Francis e sua atualidade é porque me aproximando a passos largos dos sessenta anos vejo com tristeza triunfarem cada vez mais as nulidades - como dizia Rui Barbosa -  e vicejar a mediocridade. Está na moda ser medíocre e isto é preocupante. Viram a que ficamos reduzidos? Fomos tragados pelo lixo cultural porque muita gente séria via nisso um legítimo e natural fenômeno de comunicação de massas. Falsos profetas vingaram na televisão vendendo fórmulas velhas como novidade e hoje estamos soterrados em lixo, muito lixo.

Não venham me dizer que toda época tem seus trastes. Ora, ora já fomos bem melhores. Já escrevemos, compusemos, cantamos e filmamos bem melhor. Estamos sim muito mais pobrezinhos e agora ainda por cima  não temos mais sujeitos como o Francis ou o Nelson Rodrigues para incendiar coretos bem iluminados pelos refletores de nossa mídia. Restam-nos os paladinos da justiça, os intermináveis e modorrentos talk-shows , as tiradinhas politicamente corretas as piadinhas infames das tardes de domingo. Já fomos mais inteligentes.

Ler Paulo Francis era um exercício para oxigenar o espírito. Muitas vezes podíamos até odiar seu esnobismo e pretensão, sua arrogância ou leviandade. Mas não podíamos ignorar a sua graça e o seu espírito anárquico que procurava na destruição uma construção. Francis era oxigenação do espírito porque não permitia reações mornas. Sempre provocava reações quentes. Contra ou a favor. E o que nos resta agora ?

Longe de mim querer fazer um obituário extemporâneo de Paulo Francis.Não tenho presunção e nem competência para tanto. Também não me considero órfão ou viúva dele porque acima de tudo admirava seu texto e não seu modus vivendi.    Arrisco inclusive a dizer que Francis é dos grandes culpados por terem transformado Nova York em um pedaço do Brasil. E isto é tão lamentável que deu a impressão  a muitos paulistas e  cariocas que não conhecer a Quinta Avenida e adjacências é um pecado imperdoável. Deu a muitos de nós uma falsa impressão de ter intimidade com uma metrópole que na verdade nem sabe de nossa existência. Questões geográficas a parte o que se sabe é que Nova York continua lá, aberta a visitação pública. Enquanto que Fellini já não filma e Paulo Francis caminha rápido para ser apenas um biscoito fino que a massa não come mais.

*Ricardo Soares é escritor, roteirista, diretor de tv e jornalista. Publicou 7 livros, dirigiu 12 documentários . Escreve às segundas e quintas no DOM TOTAL. Em breve publica a novela “ Amor de Mãe”.

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