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20/03/2017 | domtotal.com

As eleições da Holanda e o futuro da União Europeia

Geert Wilders, 53 anos, o político de que toda a Europa fala.

Muitos comentadores têm comparado Wilders a Donald Trump.
Muitos comentadores têm comparado Wilders a Donald Trump. (Divulgação)

Por Jose Couto Nogueira*

Dia 16, quinta feira passado, houve eleições legislativas na Holanda, para os 150 deputados que determinam quem governará o país – um acontecimento que normalmente passa despercebido na Europa e no mundo. Mas desta vez circunstâncias históricas e particularidades do caso holandês tornam um ato eleitoral corriqueiro num acontecimento com particular significado para o futuro da União Européia.

As circunstâncias históricas são inéditas. A eleição é a primeira de quatro que poderão mudar o cenário político europeu, sendo as outras a francesa (entre 23 de Abril e 7 de Maio), a alemã (24 de Setembro) e a italiana (em data a marcar). E é a primeira depois do plebiscito britânico que vai levar à saída da Grã Bretanha da UE. Um momento em que o projeto europeu parece ameaçado em várias frentes, seja pela aparente descrença dos cidadãos comunitários nas vantagens da união, seja a descrença nos políticos e no sistema político tanto ao nível nacional como comunitário, sejam as ameaças ao padrão de vida do continente, vindas das minorias étnicas e religiosas e da entrada maciça de refugiados muçulmanos. No panorama internacional, também coesão da Europa estaria ameaçada pela mudança da política norte-americana e pelo novo expansionismo da Federação Russa.

Quanto às particularidades do caso holandês, compreendem-se melhor conhecendo o cenário. Tradicionalmente, sempre houve uma grande quantidade de partidos – 28 atualmente – e sempre foi necessário formar coligações para governar. O último governo de um só partido ocorreu em 1891. Desde Novembro de 2012 e até à eleição de hoje, o executivo é uma coligação de dois partidos, o chamado Gabinete Rute-Asscher, constituído pelo Partido Popular pela Liberdade e Democracia, VVD (liberal conservador) e o Partido Trabalhista, PvdA. O primeiro tem 24 deputados e o segundo nove, ou seja, formam um governo minoritário. O segundo partido mais votado em 2012 foi o Partido para a Liberdade, PVV (direita radical), com 22 deputados. É o partido de Geert Wilders, 53 anos, o político de que toda a Europa fala, pela sua personalidade carismática e ideologia extremista.

O PVV chegou a fazer parte da coligação governativa entre 2010 e 2012, mas rapidamente se incompatibilizou com os outros e afastou-se – ou foi afastado, conforme as opiniões. Nas sondagens antes da eleição, o PVV aparecia com o maior número de intenções de voto, 15%, o que lhe daria 30 deputados, o dobro das eleições de 2012. O VVD de Mark Rutte, atual primeiro ministro, caminhava para uma queda do número de deputados, dos 41 deputados de 2012 para apenas 24.

Esta expectativa  faria do PVV o vencedor das eleições, mostrando uma maior aceitação para as propostas de Wilders. Basicamente, fechar as mesquitas, banir o Corão, fechar as fronteiras a novos imigrantes muçulmanos, expulsar ou infernizar a vida dos que já vivem no país, e deixar a União Européia.

Atualmente a Holanda, com 17 milhões de habitantes, tem 3,8 milhões de imigrantes ou descendentes de imigrantes, dos quais 2,1 milhões não europeus (magrebinos, turcos, orientais).

A pulverização partidária podia de fato levar a que o PVV ganhasse as eleições com apenas 15-20% do voto, mas isso não significa que viesse a governar. Antes pelo contrário, essa probabilidade é praticamente nula, uma vez que o PvdA, o SP (socialistas radicais) e os verdes, que juntos dão à esquerda 28%, assim como o VVD e o CDA (cristãos democratas) à direita, disseram que em nenhumas circunstâncias aceitarão governar com Geert Wilders.

A imigração tornou-se o grande tema da campanha, exacerbada pela recente escaramuça com a Turquia. Mas Rutte tomou uma posição firme na situação, ao impedir a entrada de dois ministros turcos que se propunham fazer propaganda para um plebiscito na Turquia que dará maiores poderes a Erdogan; deste modo conseguiu que a situação não desse mais cartas a Wilders, apesar das cenas de pancadaria entre polícias e imigrantes turcos nas ruas de Roterdão

Em geral, os holandeses orgulham-se da sua tolerância e acham que as medidas propostas por Wilders vão contra a História do país, que sempre recebeu os perseguidos de todas as cores (como os judeus portugueses expulsos por D. Manuel I). Mas há também aqueles que temem que os imigrantes possam influenciar mudanças de comportamento e até as amplas liberdades de que o país se orgulha.

Mas a eleição não foi apenas sobre as questões de migração. A economia holandesa é a mais sólida da UE, com um crescimento de 2%, baixo desemprego e inflação abaixo de 1%; contudo os eleitores da classe média baixa acham que Rutte é responsável pelas medidas de austeridade impostas por Bruxelas, especialmente uma redução da assistência social e cuidados aos idosos. E ressentem os enormes custos de apoio aos imigrantes, que somam maior desemprego e criminalidade. E, embora ninguém aceite a proposta de Wilders de sair da Europa, há um sentimento anti-europeu palpável.

Muitos comentadores têm comparado Wilders a Donald Trump: a comunicação através do Twitter, o corte de cabelo original, a retórica – “elites esquerdistas e elitistas”, “lixo marroquino” e expressões semelhantes, até o casamento com uma mulher do Leste europeu. Mas as diferenças são maiores do que as semelhanças. Wilders é mais concentrado nos seus objetivos, mais ideológico e tem experiência política. O jornalista Russell Shorto, no “The New Yorker”, considera que o holandês é mais perigoso precisamente por ser mais coerente ideologicamente. “Enquanto Trump pode ficar para a História como um exibicionista errático que subiu à custa de algumas idéias dos populistas anti-sistema, Wilders representa uma ameaça real ao nível global”, considera Shorto.

O fato é que Wilders tem tido o apoio dos ultra-conservadores norte-americanos, que gostam da sua postura anti-União Europeia e anti-Islão. David Horowitz, um ativista de extrema direita, doou cerca de 130 mil euros ao Partido da Liberdade, a maior contribuição numa campanha eleitoral holandesa.

O congressista republicano Steve King, aliado de Trump e da extrema direita européia, encontrou-se com diversos políticos europeus e elogiou-os, especialmente Wilders. A Fundação Fórum do Médio Oriente, dirigida por Daniel Pipes, um historiador da direita radical, ajudou a pagar as custas processuais quando Wilders foi a julgamento por ter feito declarações anti-islâmicas tão violentas que são crime na Holanda. Outras fundações do mesmo cariz têm pago viagens de Wilders aos Estados Unidos e outras despesas.

Mas afinal o “efeito Erdogan” acabou por se virar contra o feiticeiro. Os holandeses terão gostado da atitude firme de Mark Rutte ao impedir a entrada dos dois ministros turcos, mas não consideram que se deva hostilizar, ostracizar ou expulsar os muçulmanos em particular e os imigrantes em geral. Apesar de ter perdido deputados, acabou por ganhar e irá formar mais uma coligação, desta vez com quatro partidos conservadores, sendo o PVV de Wilders excluído.

O fato mais surpreendente – ou talvez não – foi a queda vertiginosa dos Trabalhistas, PvdA (socialistas, o maior partido de esquerda) que ficaram com apenas nove deputados.

O quadro geral dos resultados holandeses mostra aquilo que se considera também como o melhor cenário para a França: a extrema direita derrotada pela direita conservadora. Mesmo assim as esquerdas europeias festejaram a “derrota” de Wilders, que acham mais importante do que a sua própria derrota.

Um caso pouco comentado é o do DENK, um partido formado por dois turco/holandeses, Tunahan Kuzu e Selçuk Öztürk, dissidentes do Partido Trabalhista em 2014. Em Roterdão, o Denk conseguiu mais votos que o VVD e chega ao Parlamento pela primeira vez, com 3 deputados. Embora defenda oficialmente “uma sociedade tolerante e solidária”, sabe-se que o partido fez pressão junto dos imãs muçulmanos para que os fieis votassem nele. Segundo alguns comentadores, o DENK não faz mais do que praticar a "Taqiyya”, um preceito da Shariah que determina ser obrigação de um muçulmano mentir e enganar os infiéis para fazer proselitismo e fazer avançar o Islão.

A verdade é que Wilders, tendo perdido eleitoralmente, mantém uma visibilidade que irá influenciar o comportamento da futura coligação. Espera-se uma firmeza, pelo menos no discurso, em relação aos estrangeiros que vivem na Holanda. Mark Rutte, que inevitavelmente continua como Primeiro Ministro, não deixou de salientar que a sua vitória se deveu à “politica firme” em relação à setas envenenadas enviadas por Erdogan.

Pode considerar-se a eleição holandesa como uma espécie de ensaio geral das eleições francesas? Essa é a pergunta de quinhentos milhões de euros... O que aconteceu dia 16 na Holanda, pode ser o sinal do que acontecerá este ano na Europa.

*O jornalista José Couto Nogueira, nascido em Lisboa, tem longa carreira feita dos dois lados do Atlântico. No Brasil foi chefe de redação da Vogue, redator da Status, colunista da Playboy e diretor da Around/AZ. Em Nova Iorque foi correspondente do Estado de São Paulo e da Bizz. Tem três romances publicados em Portugal.

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