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18/04/2017 | domtotal.com

Suicídio ao vivo com som estéreo

A série peca por tratar com tanta displicência um tema tão importante e espinhoso como o suicídio.

O ator Dylan Minette na série 13 Reasons Why.
O ator Dylan Minette na série 13 Reasons Why. (Divulgação)

Por Alexis Parrot*

É o assunto do momento. Ninguém que tente escrever sobre televisão pode ignorar o fenômeno que se tornou a nova série do Netflix, 13 Reasons Why; porém, é preciso que se diga, antes de mais nada: a série é fraca. Tanto do ponto de vista da sua realização artística quanto da abordagem do tema principal que a norteia, o suicídio na juventude.

Somos convidados a acompanhar os dois últimos anos da vida de Hannah Baker, aluna recém-chegada para estudar na Liberty High, escola secundarista de uma cidadezinha modelo norte americana onde o sol sempre se levanta radiante e nunca chove. Pelo menos é assim que esse lugar sem nome (porque paradigmático) nos é apresentado pela adolescente, à medida que nos guia por seu calvário de sofrimentos.

Mais paradigmática que a cidade é a própria escola: um bolsão étnico onde brancos, negros e asiáticos vivem em completa harmonia, espelhados na "liberdade" que o nome do colégio já indica. É uma armadilha perigosa, engatilhada pelo desejo do politicamente correto a qualquer custo dos produtores da série. Na era Trump, em se tratando dos Estados Unidos, nada poderia soar mais falso.

Com a decisão final tomada, a teenager grava em sete fitas cassete suas memórias e cada lado de cada fita é dedicado a uma pessoa que, segundo ela, teria sido uma das treze razões (como nos ensina já na bandeirada o título da série) para que acabasse por se matar.

Mais do que algum desejo de auto-análise, o estratagema é um plano sádico de vingança engendrado por Hannah e, por se tratar das memórias de um fantasma, resulta covarde. É como se ela dissesse: "Não fui eu que me matei; vocês me mataram - e não dou a ninguém o direito de réplica. #FUI. #PARTIU HANNAH."

Bem diferente daquelas outras Memórias Póstumas imaginadas por Machado de Assis. Um fantasma que revisita erros e acertos de uma vida inteira nos leva a pensar sobre questões ligadas ao peso de se estar vivo; os erros e acertos e as alegrias e dissabores decorrentes de cada passo dado. Sim, Brás Cubas nos faz pensar em nós mesmos enquanto Hannah nos faz pensar em Agatha Christie e no Caso dos Dez Negrinhos.

O suicídio termina por ficar em segundo plano; o que acompanhamos é a montagem de um quebra-cabeça meio policialesco, meio frouxo, onde a adolescente mais acusa que explica (ou busca entender) qualquer coisa.

Cria uma narrativa que apenas justifica a sua decisão - não importando se, para isso, atitudes incomparáveis passem a ter o mesmo peso. Na narrativa destorcida (e desesperada) de Hannah um estupro e a publicação de um poema sem sua autorização acabam tendo a mesma importância. Ou, "você me feriu porque não quis mais ser minha amiga" termina equiparado, lado a lado, com: "você me feriu porque deixou que toda a escola pensasse que eu era uma vadia". 

É Agatha Christie novamente, na Morte no Orient Express, onde todos são culpados. E, se trouxermos o conceito para a vida da já praticamente extinta República brasileira, é como parece que se concluirá a Lava Jato, a caminho de um grand finale trágico: onde todos são culpados, a culpa acaba por se anular; ninguém mais é culpado.

13 Reasons Why peca por tratar com tanta displicência um tema tão importante e espinhoso como o suicídio, ainda mais se levado a cabo por adolescentes.

Dá saudades de Shakespeare... "Morrer: dormir - nada mais", como disse Hamlet, o perturbado príncipe com questões edipianas e sedento por vingar a morte do pai, assassinado pelo próprio irmão. Havia algo de podre no reino da Dinamarca mas a confusão maior vivia na cabeça do jovem herdeiro do trono. A última cena da peça (uma verdadeira carnificina, comparável ao casamento sangrento de Game of Thrones, porém, criado com alguns séculos de antecedência) é claramente um tudo ou nada. Hamlet foi àquele banquete como um fanático homem-bomba do Emirado Islâmico.

Porque existem formas e formas de se suicidar.

E dá saudades também de Twin Peaks, a série seminal de David Lynch, que poderíamos considerar como uma irmã mais velha e mais bem feita desse 13 Reasons. Repetem-se aqui a cidadezinha modelar, a High School aparentemente perfeita, os adolescentes belos e aparentemente felizes. A morte de Laura Palmer acaba por se mostrar apenas como a ponta de um iceberg, a verdade que, afinal, iria desmascarar todas as mentiras particulares cultivadas com esmero por cada um dos habitantes de Twin Peaks.

E, se Laura Palmer acabou assassinada, isso é mero detalhe. A pulsão de morte estava nela, vicejando a cada oportunidade que se apresentava. A jovem lançou-se às mãos daqueles que acabariam sendo seus algozes; da mesma forma como alguém com uma corda no pescoço chuta a cadeira para que seus pés percam o apoio e seu corpo balance vagarosa e pendularmente no espaço. E na eternidade.

Porque existem formas e formas de se falar sobre o suicídio.

Não existe questão que não possa ou não deva ser discutida e são justamente as mais complexas aquelas que merecem ser mais e mais expostas. Sempre foi na expressão artística que a complexidade da vida encontrou o espaço ideal para que debates fundamentais avançassem.

Devido a abordagens sinceras, delicadas e sem subterfúgios, temas como a eutanásia (nos filmes As Invasões Bárbaras e Mar Adentro), o aborto (no filme romeno 4 meses, 3 semanas e 2 dias) e o próprio suicídio (no documentário Elena, da realizadora brasileira Petra Costa) ganharam argumentos renovados que reacenderam e deram fôlego a antigas discussões.

Antigas discussões que, via de regra, o senso comum e a mídia tradicional e conservadora preferem varrer para debaixo do tapete.

Com o frisson causado por 13 Reasons Why, voltou à ordem do dia o famigerado "'Efeito Werther", uma onda de suicídios que assolou a Europa no rastro da publicação do livro de Goethe Os Sofrimentos do Jovem Werther. Desde então, questiona-se se a mídia (ou a arte) deveria ou não falar sobre o assunto - às expensas da tese que professa a capacidade de uma "romantização" do assunto influenciar jovens mentes, apresentando o suicídio como uma opção.

Em um mundo onde adolescentes se dispõem a participar de jogos que brincam com vida e morte via internet (o russo Baleia Azul é o caso mais trepidante da hora, já inclusive com duas mortes de jovens brasileiras supostamente ligadas a ele), se uma série lançada em 2017 traz de volta questões levantadas por um livro lançado no século XVIII, há algo de errado aí.

13 Reasons Why não fez o dever de casa - nem como obra audiovisual (os furos no roteiro são crateras, na verdade); nem como estudo da época em que se insere (por apenas se apoiar irresponsavelmente em questões que nos afligem, como o bullying e o suicídio, resta como simples denúncia sem profundidade).

E se é mal feito - e só isso já seria o suficiente -, não merece ser visto.

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*Alexis Parrot é diretor de TV e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

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*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

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