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21/04/2017 | domtotal.com

Nomes feios

O que me consola é que o país necessitava passar por essa provação.

São mais de 100 nomes que revelam, com ironia, o desprezo e o descaso que tais indivíduos recebiam dos empresários.
São mais de 100 nomes que revelam, com ironia, o desprezo e o descaso que tais indivíduos recebiam dos empresários. (Reprodução)

Por Fernando Fabbrini*             

O malandro queria se dar bem aquela noite. Tirou do guarda-roupa o smoking surrado, companheiro de outras aventuras, escovou-o pela enésima vez. Fez a barba, borrifou-se com uma loção barata. Aí, descolou uma corrida fiada com um amigo taxista. E chegou à mansão. 

Que sorte: evento festivo sem porteiro! Nem seguranças mal encarados! Ideal para mais uma investida magistral de um penetra profissional. Em cinco minutos já circulava pelo salão bebericando uma taça de espumante, sorrindo para as senhoras e cavalheiros elegantes. Ao fundo, um quarteto de cordas executava sonatas.

Bandejas suntuosas corriam de um lado pro outro. Ele fartou-se com os antepastos franceses. A anfitriã, coberta de joias e adereços fulgurantes, aproximou-se, solícita:

- O senhor gosta de Mozart?

Ele não titubeou:

- Aceito uma fatia, só pra provar...

Na gigantesca sacada iluminada e florida um grupo de socialites cochichava e gargalhava.  Ambiente perfeito para se enturmar ainda mais. Aproximou-se, como quem não queria nada:

- Quer entrar na brincadeira? – disse um comendador de bigodes brancos, casaca coberta de medalhas.

- Venha, venha! – insistiu uma linda mulher num tomara-que-caia celestial, seios quase à mostra. Puxou-o pela mão para o centro da roda. E, toda sorridente, explicou:

- Estamos brincando de nomes feios! Quem falar o nome mais feio ganha um cruzeiro ao Caribe! Quer entrar?

- Ah! Não sei se devo... – disse o penetra.

- Claro! Entre sim, está ótimo! E como você chegou agora, é sua vez! Pode ir dizendo seu nome feio!

Todo é penetra é cara de pau. Este também era escolado, malandro de boa cepa.

- Posso dizer mesmo? Juram?

- Sim, sim! – gritaram em coro, felizes.

- Então, lá vai: (&%#@***&%%%*&%#@@@.)! 

Oh! Senhoras levaram as mãos à cabeça, horrorizadas. Ouviram-se gritos histéricos. Duas velhinhas desfaleceram. Um herdeiro da família real teve um princípio de enfarto. O grupo se espalhou no mesmo instante, gente correndo indignada de volta ao salão. Só sobrou o penetra. Um rapaz puxou-o para um canto:

- Quê isso? Tá louco, sujeito?

- Ué, não era um concurso de nome feio?

- Sim... Mas o nome mais feio até agora tinha sido Parafusildo Borrabotas da Silva, um primo meu lá de Sergipe!

Lembrei-me dessa piadinha – fraquinha, eu sei, perdoem-me – ao correr os olhos pela lista de apelidos com os quais a construtora identificava os políticos brasileiros que recebiam o jabá milionário. Tem Acelerado, Bicuíra, Boca Mole, Barbie, Decrépito, Drácula, Nervoso, Roxinho, Soneca, Trinca Ferro, Amante. São mais de 100 nomes que revelam, com ironia, o desprezo e o descaso que tais indivíduos recebiam dos empresários.

Eu gostaria de estar presente no terraço da anedota para gravar na memória, de verdade, o tal nome feio escabroso dito pelo penetra. Com ele eu passaria a dirigir-me aos senhores engravatados que infestam nosso poder público e deste sugam seus confortos, luxos, leviandades e safadezas em geral. E usaria o mesmo tratamento cerimonioso aos da outra turma – os corruptores - que quase se colocaram na posição de vítimas, coitadinhos. Que pena tenho deles! Que vida difícil dos empresários! Eram obrigados a pagarem propinas “porque sempre foi assim” ou “senão perdíamos a concorrência” e outras pérolas da canalhice nacional. Nos depoimentos, sorriem. Fazem gracinhas.

O que me consola é que o país necessitava passar por essa provação. A grande sujeira que solapava os mínimos direitos de um cidadão contribuinte não poderia mais ficar oculta. Questão de justiça terrena, divina, esotérica, seja lá qual for.

Esta semana fizeram um cálculo do que poderia ser realizado com os bilhões desviados para compra de joias, automóveis, iates, obras de arte, sítios com pedalinhos, tríplex no litoral, ajudas aos filhos dos amigos e outras indecências. Seriam milhares de postos de saúde, creches, escolas, obras de saneamento e infraestrutura negadas ao povo. Vendo a reportagem, percebi que não havia no mundo um palavrão digno de classificar, à altura, os responsáveis pelo maior roubo da história da humanidade. E olha que somos obscenamente criativos na hora de xingar.

A raiva nos faz ficar mudos. Que ela estimule a nossa memória e nos faça lembrar de todos os nomes feios e apelidos ano que vem, na hora de votar.

* Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O TEMPO.

EMGE

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