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16/05/2017 | domtotal.com

O eleitor brasileiro

O cenário eleitoral brasileiro possui características peculiares.

10% dos eleitores têm diploma de ensino superior.
10% dos eleitores têm diploma de ensino superior. (Reprodução)

Por José Antônio de Sousa Neto*

Diante das estarrecedoras evidências que têm sido apresentadas pelas diversas investigações em curso no Brasil relacionadas à corrupção e também diante da acachapante situação econômica e institucional para a qual o país foi literalmente arrastado, é muitas vezes difícil de entender o porquê de vários (sim, vários e não apenas um!) personagens políticos ainda contarem com o apoio de eleitores cativos. Isso me remete a um evento muito interessante em que estive presente, se não me engano em meados do ano de 2010.

Na ocasião a Fundação Dom Cabral (FDC) convidou mais de 150 importantes líderes empresariais brasileiros para uma palestra que foi proferida por uma assessora do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e na qual as chamadas “caravanas” pelo norte e nordeste do país no período de campanha eleitoral foram um dos temas abordados. Ela chamou a atenção para dois fatos muito curiosos para não dizer trágicos. A ex-assessora do ex-presidente relatou que, na época, uma grande parte do eleitorado da região chegava a acreditar que o Brasil “poderia deixar de existir” caso o ex-presidente encerrasse seu mandato. E mais, estavam dispostos a votar em Dilma Rousseff porque entendiam que ela era a esposa do ex-presidente! Diante do espanto e incredulidade da platéia a ex-assessora fez um comentário impactante: “estão vendo como vocês não conhecem o país onde vocês estão?”

Levando em conta o absolutamente inescrupuloso, mas altamente “profissional”, sob o ponto de vista técnico, marketing “político” não é difícil entender a correlação. Se estamos falando “do pai e da mãe da nação”, “do pai e da mãe do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento)” seria, portanto, razoável inferir que eles eram (possivelmente muitos ainda achem que eles ainda são) casados...

A exploração da trágica escravidão da ignorância não tem partido, embora tenhamos de reconhecer que alguns são mais hábeis do que outros na nefasta arte da mentira e da manipulação. No Brasil, infelizmente e particularmente após o restabelecimento do longo processo de construção e consolidação do absolutamente essencial regime democrático, isso se tornou a regra. Mas se voltarmos um pouco na nossa história não é difícil entender porque mesmo o governo militar, por exemplo, deu um peso maior para a representação política dos estados do norte e nordeste no intuito de, apesar da excepcionalidade da situação institucional do país à época, obter maior apoio no congresso nacional. Os eleitores “cativos” estão mais próximos do poder dos governos do que de suas ideologias ou mesmo e principalmente princípios. 

O cenário eleitoral brasileiro possui características peculiares, tais como a renda do eleitor. Aqueles que ganham até cinco salários mínimos correspondem a 83% do eleitorado total e aqueles que ganham até dois salários mínimos, 42%.

Além disso, apenas 10% dos eleitores têm diploma de ensino superior:

Verifica-se de forma consistente que, na medida em que pesquisas apresentam intenções de voto de pessoas com a renda maior que cinco salários mínimos, candidatos menos populistas são favorecidos. Além disso, tal característica pode explicar parte do atraso em relação à tomada de medidas impopulares, mas economicamente e socialmente necessárias, que contribuiriam para a melhora do cenário atual do país e a consolidação de um futuro mais promissor. A justa e necessária pressão eleitoral em torno da fundamental distribuição de renda dificulta, no entanto, pelo apelo das soluções fáceis e messiânicas de populistas dos mais variados matizes de ambições (muito mais que de ideologias), a construção de um modelo realmente sustentável, eficiente e eficaz voltado à geração de riquezas, expansão da economia e a diminuição da pobreza. 

Com todos os defeitos do governo atual (e eles definitivamente são muitos) é preciso reconhecer, apesar da patrulha ideológica que torna qualquer dissenso em heresia e da ditadura do politicamente correto que muitas vezes é para lá de incorreto, que muitas ações muito importantes para o país estão em curso: 

– inflação de volta ao centro da meta;
– aprovação do teto de gastos;
– reforma trabalhista em andamento; 
– o encaminhamento da reforma do ensino médio; 
– juros em declínio;
– reforma da Previdência em andamento;
– aprovação da Lei da Governança nas estatais;
– reestruturação do setor elétrico, por intermédio de Medida Provisória;
– processo de recuperação da Petrobras;
– o fim da obrigatoriedade de a Petrobras participar do pré-sal.

Não estou passando um cheque em branco para esta lista porque se cada um de seus itens não foi ou estiver sendo trabalhado de forma equilibrada podemos ter consequências negativas pela frente. Só boa intenção não basta. E no meio de tudo isso é necessário voltar ao mais importante: o cidadão, o eleitor brasileiro. Como exigir daquele/daquela que passa a indescritível dor da fome e do abandono e daquele/daquela que sente ter a sua dignidade roubada pela dor e as consequências do desemprego, que entenda a “racionalidade dos fatos, dos números e das estatísticas”? As dores e a dignidade humana não são números. Dores turvam fatos.

Talvez aqui esteja uma das maiores belezas potenciais da democracia. Ela exige que os que estão em melhores condições tenham de reagir para resgatar os desprovidos. O outro vota. O voto do outro quando permeado pela ignorância e pela dor vai definir o destino de todos e não só do outro.  As lideranças políticas que não percebem isso não podem ajudar o país. Algumas até perceberam, mas de forma enviesada e usaram este entendimento da pior forma possível e por uma patológica obsessão pelo poder nas suas mais diversas e equivocadas formas. Se ainda não foram devidamente responsabilizadas por isso é exatamente por tudo que argumentamos acima. E com relação àqueles que têm acesso a informação e ao conhecimento, mas continuam a eleger tantas figuras nefastas? Esses ai “nem Freud explica” e só a Providência poderá lhes perscrutar os corações.

EMGE

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