Religião

19/05/2017 | domtotal.com

Ideologia de gênero?

Reduzir o humano às características morfológicas e fisiológicas é amputar sua inventividade criadora e relacional, é ameaçar a credibilidade de uma antropologia integral.

Termo
Termo "ideologia de gênero" tem sido utilizado para empobrecer qualquer tentativa de diálogo sobre gênero e direito de minorias. (Divulgação)

Por Tânia da Silva Mayer

O termo “ideologia de gênero” ganhou bastante destaque entre católicos, sobretudo conservadores e carismáticos, e evangélicos pentecostais no Brasil contemporâneo. O termo tem sido utilizado para empobrecer qualquer tentativa de diálogo sobre gênero e direito de minorias, sobretudo as LGBTS. Na maioria das vezes, o termo é envolvido numa semântica diabólica, e quem estuda, pensa e debate sobre o assunto, é facilmente tachado de “inimigo da família”. O que pode ser afirmado é que há muito barulho e desconhecimento das teorias desenvolvidas sobre gênero no mundo, tanto por parte de setores religiosos, quanto da sociedade em geral. É necessário que o problema da linguagem seja resolvido, a fim de que o debate e a construção do conhecimento se tornem possíveis.

Definitivamente, ideologia é uma palavra ingrata em nossa sociedade. É passível de diversas interpretações. E embora possa significar um conjunto de ideias abstraídas da interação de grupos ou pessoas com o mundo, a ideologia também pode ser lida como um conjunto de teorias sistematizadas e utilizadas para a opressão do povo ou de indivíduos. O uso dessa palavra no termo ao qual nos referimos, e que é utilizado popularmente hoje, pretende provocar justamente esse sentido, de que o universo em torno dos estudos de gênero é mau e deve ser rechaçado. Tudo isso parte da pressuposição de que a família está sendo atacada e de que há um movimento a fim de destruí-la. Contudo, nota-se uma postura infantilizada e conservadora na proposição do diálogo com as teorias de gênero. Tal postura é fomentada pela produção de um inimigo diabólico, seja por parte de Igrejas ou de setores da sociedade, que deve ser combatido e exterminado. É urgente a criação de um repertório mais sofisticado por parte dos que combatem a chamada “ideologia de gênero”, se quiserem tratar com seriedade a vastidão do assunto no conjunto da antropologia cristã e teológica.

Posto isso, é interessante notar que os combatentes do gênero apoiam-se numa leitura estritamente biológica do ser humano. Leitura bem mais acentuada que aquela que faz o Magistério eclesiástico em seus documentos, por exemplo. Corroboram uma querela sem fim entre natureza e cultura, destacando que aquela pesa mais que esta, mas sem precisar o que se entende por natureza em nosso tempo. Nesse sentido, o sexo biológico é determinativo no modo como as pessoas se movimentam e se relacionam com o mundo, com os outros e com Deus. Nessa lógica, o fato de uma pessoa ter nascido biologicamente fêmea, implica que ela deva ser vaidosa, feminina, sensível, delicada, etc. O contrário se pensa para quem nasceu biologicamente macho. Essa compreensão, que pretende ser estritamente biológica, conflita, no seu interior, com as compreensões socioculturais, que mudam época a época e influenciam os indivíduos no modo como se organizam em grupos humanos. Se o caráter biológico imprime características determinantes nos seres, como explicar a sensibilidade no olhar do papa Francisco, uma vez que ele nasceu biologicamente macho? Reduzir o ser humano às características morfológicas e fisiológicas é amputar sua inventividade criadora e relacional, é pôr em xeque a credibilidade de uma antropologia integral.

É urgente a correção dos conceitos para o diálogo. Compreender o que o outro está falando é indispensavelmente necessário. Se para os combatentes do gênero os termos “mulher”, “feminino”, “fêmea”, “menina” designam a mesma coisa determinada pela biologia, nas teorias de gênero se propõe uma leitura categórica, que permite explicar, por exemplo, a feminilidade dos machos e a masculinidade das fêmeas, entendendo que os mesmos termos supracitados denominam relações diferentes, na ordem da cultura e da sociedade, experimentadas pelos indivíduos. Se uma leitura geral serviu melhor em épocas passadas, os nossos tempos exigem leituras mais específicas, que deem conta da pluralidade fragmentada na qual vivemos.

No tocante aos estudos e teorias de gênero, é imprescindível destacar ao menos três conceitos que permitem categorizar a ampla diversidade sexual do ser humano. Seguindo os estudos de David T. Ozar1, devemos assumir três categorias distintas: a primeira diz respeito a ser biologicamente macho ou fêmea; a segunda se refere ao parceiro/a preferido no que diz respeito à intimidade e a orientação sexual; e a terceira se refere ao que é próprio da identidade de gênero da pessoa. Para o autor, o binarismo deve ser eliminado dessas categorias, porque há machos e fêmeas biológicos, mas há as pessoas que nascem com ambas as características biológicas, como é o caso dos intersexuais. Com relação à intimidade e orientação sexual, o binarismo entre heterossexuais e homossexuais conflita com a bissexualidade, segundo a qual há pessoas dispostas a se relacionarem com pessoas de ambas as anatomias, macho e fêmea. Ainda com relação à identidade de gênero, há pessoas que são bigêneres, isto é, compreendem-se tanto na convenção masculino, quanto na convenção feminino. A identidade de gênero diz respeito a como uma pessoa se percebe, se reconhece e se denomina com relação aos papéis de gênero mantidos na sociedade.

Ao contrário do que alardeiam as televisões religiosas e seculares, os estudos de gênero não têm a pretensão de eliminar o que seja a compreensão biológica do ser humano. A ideia de que as crianças decidirão serem “homens” ou “mulheres” é ingênua e fantasiosa. O que se desponta com os estudos do gênero é a compreensão de que somos para além da biologia e do que se possa entender por natureza, mas sem eliminar essa característica fundamental, sem a qual nada somos. As religiões e os setores conservadores da sociedade estariam dispostos a dialogar seriamente com esses estudos de gênero que também revelam dinâmicas peculiares do ser humano? Oxalá as ideologias nos ajudem a viver com plenitude.

[1] OZAR, David T. Sofrimento por meio da exclusão: sobre os conceitos-padrão de orientação sexual, sexo e gênero. In: JUNG, Patricia Beattie; CORAY, Joseph Andrew. Diversidade sexual e Catolicismo para o desenvolvimento da teologia moral. São Paulo: Paulus, 2005. p. 283-296.

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*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE; Graduanda em Letras pela UFMG. É editora de textos da Comissão Arquidiocesana de Publicações, da Arquidiocese de Belo Horizonte. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

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