Religião

19/05/2017 | domtotal.com

Diversidade sexual e preconceito dentro do cristianismo

LGBTs, do ponto de vista eclesiológico, que vai além do jurídico-canônico, podem constituir parte do Corpo de Cristo, que é a Igreja, por estarem associados ao mistério pascal.

Comunidade LGBT vive em comunhão com o mestre Jesus, o que não depende tão-somente de uma 'fides qua', mas sim de uma dinâmica existencial.
Comunidade LGBT vive em comunhão com o mestre Jesus, o que não depende tão-somente de uma 'fides qua', mas sim de uma dinâmica existencial. (Divulgação)

Por César Thiago do Carmo Alves, FMI*

O mistério pascal constitui o núcleo da profissão de fé cristã. A partir do dado da morte e ressurreição de Jesus Cristo as primeiras comunidades fizeram a leitura de tudo o que o Mestre havia ensinado e feito. Desse modo, o mistério pascal constitui uma chave de leitura importante para se ler a realidade desde a fé. Se ele constitui chave de leitura, cabe, pois, não se furtar e perguntar que aspecto esse dado cristológico/soteriológico pode iluminar a reflexão sobre a diversidade sexual bem como a comunidade cristã lida com isso. Evidentemente, reconhece-se que essas são perguntas um tanto quanto ousadas em tempos atuais, quando a comunidade dos LGBTs é simplesmente rechaçada por certos grupos religiosos fundamentalistas que mais a demonizam do que se abrem para perceber a autocomunicação de Deus a partir das pessoas pertencentes a essa comunidade. 

O princípio hermenêutico para responder a essas perguntas será a partir das vítimas. O lugar teológico são os LGBTs. Se os LGBTs constituem um lugar teológico, então se fala de Teologia Queer. O ponto de partida é a morte de Jesus. O ponto de chegada é a sua ressurreição. Ele morreu como vítima de um sistema político e religioso. Foi condenado ao suplício da cruz (cf. Mc 15,15; Mt 27,26; Lc 23,25; Jo 19,12-16). Quiseram calá-lo porque era um profeta que denunciava as injustiças que o circundavam. Denunciava pelo fato de ter escolhido ficar ao lado dos pequenos. Eram justamente esses que padeciam o sofrimento de uma política que não primava pela igualdade social e por uma religião que, com o decorrer do tempo, seus lideres foram se fechando num legalismo. O nomos (a lei) ocupava o primeiro lugar em detrimento do antropos (o homem). Desse modo, os pequenos eram simplesmente relegados para um segundo plano. Jesus se tornou vítima porque se colocou do lado das vitimas de seu tempo. Por conta disso, Deus fez justiça a vítima Jesus. Assim, “ao pregar a ressurreição de Jesus, os primeiros cristãos estavam afirmando que se realizara já a ação escatológica de Deus que salva o justo Jesus e faz justiça à vitima Jesus e com ele se inaugura o fim e a plenitude dos tempos” (SOBRINO,2000, p.70)1. Fica explicito que, a partir dessa leitura, a ressurreição é uma forma de Deus fazer justiça à vítima morta por conta da injustiça. A ressurreição é dom da justiça de Deus.

Tendo elucidado brevemente o princípio hermenêutico e o lugar teológico, a tarefa que agora se impõe é de responder teologicamente as pergunta propostas. No entanto, faz-se necessário pontuar algum dado estatístico. Um relatório de 20162 aponta que foram documentadas mais de 343 mortes de gays, bi, trans e lésbicas no Brasil. Nessa contagem se contabiliza 173 gays (50%), 144 (42%) trans (travestis e transexuais), 10 lésbicas (3%), 4 bissexuais (1%), incluindo 12 heterossexuais, como os amantes de transexuais (“T-lovers”). 31% desses assassinatos foram praticados com arma de fogo, 27% com armas brancas, incluindo ainda enforcamento, pauladas e apedrejamento. Muitos desses crimes foram cometidos com requintes de crueldade: tortura e queima do corpo. Desde que se faz coleta dos dados de mortes por conta de orientação sexual e/ou identidade de gênero, o ano de 2016 resultou no ano em que mais se contabilizou homicídios da comunidade LGBTs.

O que esses dados dizem para uma leitura desde o mistério pascal? Que a comunidade LGBTs está sendo vítima da violência. É vítima por dois motivos: 1) por assumir ser o que se é, indo na contra-mão de um padrão hetero-cis-normativo; 2) por lutar politicamente por seus direitos como minoria social. Desse modo, a comunidade vive em comunhão com o mestre Jesus. Essa comunhão não depende tão-somente de uma fides qua, mas sim de uma dinâmica existencial. Explica-se: Jesus morreu vítima pelo fato de quererem silenciá-lo. Os LGBTs morrem vítimas porque querem calá-los. Infelizmente, muitas vezes esse silêncio é imposto por uma visão deturpada de cristianismo. Embora os dados estatísticos revelem a morte física, no entanto existe a morte simbólica quando os direitos lhes são negados e os procuram invisibilizar. Em várias igrejas cristãs nota-se um rechaço de pessoas LGBTs em nome da “moral e bons costumes” para que não se profane o sagrado.  Contudo, a ressurreição como dom da justiça de Deus se descortina no horizonte como uma promessa que remete a uma esperança para a comunidade dos LGBTs. Os LGBTs constituem por assim dizer, sinal profético na história. Como vítimas, participam do mistério pascal de Cristo. Morrem e ressuscitam. Da mesma forma que na história eles experimentam a morte seja ela física seja simbólica, também, na história podem experienciar a ressurreição. Jon Sobrino chama de “ressurreições parciais” que geram esperança de ressurreição definitiva (cf. 2002, p.80). Essas ressurreições parciais são reveladas quando, por exemplo, algum direito, mesmo que a duras penas, são conquistados e quando igrejas entendem a proposta de Jesus e se abre para a acolhida do dom das pessoas em sua orientação sexual e/ou identidade de gênero.

A comunidade dos LGBTs revela algo de Deus. Revela algo da fé cristã. Mais ainda, aponta para o mistério pascal de Cristo que é cotidianamente vivenciado nas vicissitudes da história. Contemplar esse dado constitui em última análise perceber que essa comunidade muito tem a dizer a respeito do como professar a fé num Deus que morreu vítima da injustiça, mas que ressuscitou na força da resposta justa do Pai. Quando a comunidade cristã nega isso ela nega a própria Revelação de Deus em Jesus.

O mistério pascal é evocado no documento Lumen Gentium, que é a constituição dogmática do Concílio Vaticano II (1962-1965) sobre a Igreja. O documento afirma que o Filho de Deus, na natureza humana unida a si venceu a morte com a ressurreição. Por isso ele remiu e transformou o ser humano numa nova criatura. E a essa nova criatura foi comunicada o Espírito que fez dela componente de forma mística de seu corpo (cf. n.7).  Se no ponto anterior se perguntava sobre no que o mistério pascal iluminava a comunidade dos LGBTs e ficou evidenciado que ela participa desse mistério, agora pensando a partir dessa afirmação do Concílio Vaticano II, pode-se dizer que essa comunidade faz parte do povo remido e transformado numa nova criatura. Portanto, as pessoas LGBTs, do ponto de vista eclesiológico, que vai além do jurídico-canônico, podem constituir parte do Corpo de Cristo que é a Igreja por estarem associadas ao mistério pascal.  Isso independe dos setores ultraconservadores das igrejas negarem essa condição.

No entanto, o que se tem assistido com certa frequência nessas igrejas é que, ou se exclui essas pessoas com um discurso bíblico-doutrinal-fundamentalista ou se aceita desde que a pessoa se “converta” naquilo que é o padrão normativo. Desse modo, emerge a pergunta: se as pessoas LGBTs estão associadas ao mistério pascal e por conta disso podem fazer parte do Corpo de Cristo que é a Igreja, então como as comunidades de fé são chamadas a acolher as pessoas LGBTs? E ainda, acolher essas pessoas com o dom de sua orientação sexual e/ou identidade de gênero. Reconhece-se que essa é outra questão ousada e espinhosa, uma vez que o discurso da acolhida já se faz presente na fala de muitos crentes, no entanto se rechaça a acolhida do dom da orientação sexual e mais complicada ainda, a acolhida do dom da identidade de gênero, pois esses dois aspectos não são vistos na esfera do dom, da graça, mas sim da perversão contra uma perspectiva da chamada lei natural. Por isso se faz necessário para as comunidades cristã (re)visitarem teologicamente a questão da lei natural. Um testemunho de acolhida vem do Papa Francisco quando recebeu o espanhol Diego Neria Lejarraga, um homem transexual, acompanhado de sua namorada no Vaticano. Um sinal de esperança. 

No Corpus Paulinum existe uma imagem significativa da Igreja na comparação com o corpo humano. Trata-se da primeira carta à comunidade de Corinto. Nela se fala da diversidade dos membros que formam a unidade do corpo. Cada membro do corpo tem sua importância na função desempenhada (1 Cor 12,12-30). Da mesma forma é na Igreja: cada pessoa possui sua diferença como os membros de um corpo. É nessa pluralidade que se forma o Corpo de Cristo. No entanto, se faz necessário reconhecer a diferença e ver nela algo que enriquece a comunidade de fé. Para isso, constitui tarefa urgente das igrejas perceberem os LGBTs como parte integrante desse corpo. Esse reconhecimento eclesial implica inexoravelmente no ato de acolhê-los como eles são e se abrir para perceber o que Deus quer dizer às igrejas a partir da orientação sexual e identidade de gênero. Nas palavras de Ignácio Ellacuría (1930-1989), na qual Jon Sobrino se inspirou para fazer sua cristologia desde as vítimas, fica explícito que é preciso descer da cruz os povos crucificados (cf. SOBRINO, 2000, p.77-80). É preciso descer da cruz os LGBTs crucificados nas comunidades cristãs. Essa comunidade dos LGBTs tem muito a dizer para uma conversão autenticamente cristã além de revelar Deus mesmo.

De forma profética e marginal tem surgido a chamada Pastoral da Diversidade Cristã no Brasil que busca, de alguma forma, dar visibilidade ao grupo LGBTs nas igrejas. Evidentemente é uma pastoral marginal. Não vista com bons olhos por muitos. No entanto, constitui numa forma de empoderamento eclesial dessa minoria social. Outro testemunho de profecia é quando igrejas aderem ao dia contra a homotransfobia (17 de maio), como na Itália os luteranos em Palermo e as paróquias católicas em Florença, Reggio Emilia, Catânia, Trieste e Bolonha.  Rejeitar a presença dos LGBTs nas comunidades cristãs é em última análise rejeitar o próprio Jesus. Isso se evidencia de forma análoga no discurso escatológico do evangelho de Mateus (cf. Mt 25, 31-46).

[1] SOBRINO, Jon. A fé em Jesus Cristo: ensaio a partir das vítimas. Petrópolis: Vozes, 2000.

[2] Assassinato de homossexuais (LGBT) no Brasil: relatório 2016. Disponível em: http://bancariospa.org.br/wp3/wp-content/uploads/2017/01/relatc3b3rio-20162.pdf. Acesso: 13 maio 2017.

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*César Thiago do Carmo Alves pertence à Congregação Religiosa dos Filhos de Maria Imaculada (Pavonianos). É doutorando e mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). É graduado em Filosofia pelo ISTA e Teologia pela FAJE. Possui especialização em Psicologia da Educação pela PUC Minas.

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