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19/05/2017 | domtotal.com

Onde está o dinheiro

Em vez de ser gasto com hospitais, o dinheiro do governo está indo na surdina para outros países com os quais o Brasil mantém o que ele chama de afinidade ideológica.

Cenário perfeito para a roubalheira de quem dá e de quem recebe, não?
Cenário perfeito para a roubalheira de quem dá e de quem recebe, não? (Reprodução)

Por Fernando Fabbrini*

(Escrevi o que se segue há exatamente quatro anos, em maio de 2013. Nunca tinha sido publicado. Poucas vezes tive sensação tão agradável – e igualmente triste - ao reler um dos meus textos antigos.)

Dona Lourdes tinha se matado pra chegar na fila do hospital com a filha adoentada. Primeiro, teve de suplicar a folga à patroa; era caso urgente. Faltaria apenas na parte da manhã e faria hora extra, caso ela exigisse. Depois, passou a noite quase em claro, controlando a temperatura da menina; dormiu nada. Às cinco da matina estava no ponto do ônibus, garota pesando no colo, ardendo em febre. O ônibus atrasou; Dona Lourdes ficou ansiosa; olhava o relógio sem parar. Finalmente, chegou. Ônibus lotado, apertado, sacudindo e quase derrubando todo mundo nas lombadas da periferia. Levou mais de uma hora até o hospital.

A muitos quilômetros de distância de dona Lourdes, o Benedito – motorista de caminhão há 20 anos, velho de guerra das estradas nacionais – penava para retirar a carreta do atoleiro causado pela chuva no meio da Amazônia. Já passara três noites ali na escuridão; ele e mais dois colegas também atolados. Por sorte, dividiram sanduíches, um resto de água e cozinharam um arroz com feijão como puderam. Estradinha desgraçada! Há anos, do mesmo jeito: sem asfalto, sem sinalização, perigosa nas curvas e nas pontes traiçoeiras, a cada dia mais frágeis, podendo engolir um caminhão inteiro.

Num povoado lá da roça, os irmãos Flávio e Francisco tomaram um café com pão e margarina; pediram bênção à mãe e saíram com as mochilas rumo à escola municipal. Uniformes gastos, mas bem lavados e passados pela avó, orgulhosa de seu feito, sonhando ver os netos formados como doutores. Não seria fácil. Flávio e Francisco voltaram pra casa muito antes do almoço. A escola tinha sido depredada durante a noite; uns caras levaram tudo – computador, impressora, dinheiro da cantina – e ainda escreveram palavrões pelos corredores. Os professores, coitados, nem apareciam mais; ganhavam uma mixaria e se sentiam indignados com tudo aquilo.

Lá no hospital, Dona Lourdes foi informada de que não haveria atendimento do plantão naquele dia. Além da falta dos médicos, faltaram enfermeiras, maca, seringas, medicação, equipamentos, faltou tudo. Dona Lourdes ouviu do funcionário a desculpa de sempre: faltava, mesmo, era verba, grana, dinheiro pra aquele hospital e os demais da cidade. Voltou com a filha pra casa; perdeu o dia.

Na estrada, o Benedito ainda levou mais uma noite para sair do atoleiro. Veio um trator com cabos de aço, tiveram de pagar o reboque do próprio bolso, descontando do frete. À noite, no restaurante do posto de gasolina, a TV deu a notícia dos estragos da chuva. Um engravatado em Brasília explicou que “faltavam verbas para os trabalhos de infraestrutura rodoviária.” Benedito já conhecia aquela desculpa esfarrapada de outros telejornais.

Os meninos Flávio e Francisco perderam mais uma semana de aula; estavam com a matéria atrasada desde o início do ano. A avó, conformada, explicou que tudo isso acontecia porque não havia dinheiro e “vontade política” pra melhorar a escola. Foram dormir sem fazer o dever de casa.

O que Dona Lourdes, Benedito, Flávio, Francisco e a avó não sabem é que existe, sim, muito dinheiro. Mas é demais, milhões e milhões, uma grana absurda, incontável.

Em vez de ser gasto com hospitais, postos de saúde, ambulatórios, ambulâncias, aparelhos, medicação e salário de pessoal, o dinheiro do governo está indo na surdina para outros países com os quais o Brasil mantém o que ele chama de afinidade ideológica. Lá, esse dinheirão é gasto em campanhas políticas; ajuda a eleger ditadores e tiranetes; compra bonezinhos e bandeiras para Nicolas Maduro, cassetetes, capacetes, escudos e bombas de gás para as guardas bolivarianas. Constrói, sim, estradas, pontes, hidrelétricas – e até hospitais. Mas ficam longe, muito longe, fora do alcance do ônibus de Dona Lourdes.

O dinheiro e a vontade política da qual a avó dos meninos se referia também vai sendo usado em escolas, portos, estradas novas, asfaltadas – só que em outros países da África e América Latina. São nações sem nenhum controle dos gastos públicos e esses investimentos estão sob segredo de justiça. Cenário perfeito para a roubalheira de quem dá e de quem recebe, não?

Boa parte desses milhões que deveriam se transformar em cadernos, merenda nutritiva, salários e condições dignas de trabalho para professores brasileiros estão virando...sabem o quê? Carros de luxo, mansões, fazendas, apartamentos, viagens, joias valiosíssimas, presentes de valor absurdo, obras de arte. Isso porque o governo dá um pedaço da grana pra seus amigos, pros chegados, pro partido, pros intermediários, pros que fazem o serviço sujo e prometem não contar pra ninguém.

Este sim, é um governo afinado com a ética, a seriedade, o compromisso com os mais necessitados – e o inimigo número um das tretas, maracutaias e da corrupção. Então tá.

* Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O TEMPO. 

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