Religião

02/06/2017 | domtotal.com

Cada um ouvia em sua própria língua

Deus salva, em todos os lugares e em distintas situações, pela ação misteriosa do seu Espírito.

Nos últimos anos, muitos teólogos têm se debruçado sobre a questão pneumatológica.
Nos últimos anos, muitos teólogos têm se debruçado sobre a questão pneumatológica. (Divulgação)

Felipe Magalhães Francisco*

A profissão de fé cristã católica, em seu terceiro artigo, confessa o crer no Espírito Santo e, imediatamente, faz menção à Igreja. Isso porque desde muito cedo, a Igreja se reconheceu como que reunida, congregada, pela força do Espírito Santo. Essa associação nasce do acontecimento de Pentecostes, narrado nos Atos do Apóstolos. É curioso, no entanto, que a Igreja ocidental, ao longo da história, tenha falado tanto sobre si mesma e quase nada do Espírito Santo e de seu papel na história da salvação.

Nos últimos anos da história da teologia, muitos teólogos e teólogas têm se debruçado sobre a questão pneumatológica, isto é, do Espírito Santo. É uma tentativa de retomar um caminho dos primórdios do cristianismo, bem como reparar esse itinerário teológico ocidental, tão marcado pela perspectiva jurídica e nada pneutamatológica. A tentativa desses teólogos e teólogas tem se mostrado muito importante e permanece em aberta, dada a riqueza que a questão pneumatológica abarca.

Uma das vertentes de reflexão pneumatológica que tem crescido é a do diálogo ecumênico e do diálogo inter-religioso. Vários autores esboçaram uma teologia cristã da pluralidade religiosa que tem como ponto chave o papel do Espírito Santo, na revelação salvífica. Essa perspectiva não tira da pessoa de Jesus Cristo a importância salvífica professada pela fé cristã, mas coloca a questão cristológica em justos termos, sensíveis à perspectiva da pluralidade de religiões. Deus salva, em todos os lugares e em distintas situações, pela ação misteriosa do seu Espírito.

A riqueza do pensamento teológico que nasce dessa perspectiva, no entanto, precisa se desdobrar em ações pastorais. E, aqui, está um gargalo que precisa ser superado com bastante urgência, pois, se a teologia já consegue lidar, ainda que timidamente, com a questão da pluralidade, a prática pastoral e o dia a dia da prática religiosa, não. A intolerância religiosa gera violência. E isso se torna mais grave, quando parte dos próprios líderes religiosos. Em muitas pregações e, até mesmo, em momentos de orações, disponíveis na internet, podemos perceber a violência na fala desses líderes, tanto evangélicos quanto católicos. Certamente isso vai se desdobrando nas bases das comunidades e o preconceito para com o diferente só vai aumentando.

Se o cristianismo voltar às suas fontes, na própria prática de Jesus, perceberá uma total ação de respeito e acolhida feita por Jesus, na qual a diferença religiosa se quer é mencionada, nos seus encontros com as pessoas. Pentecostes, o evento publicizante do mistério pascal de Jesus e marca do início da missão da Igreja, também reflete o espaço para a pluralidade. O anúncio da salvação, por meio do Espírito, não uniformiza nada, ao contrário: cada ouvinte escutava o anúncio salvífico em sua própria língua. O que o Espírito de Jesus faz é criar unidade: essa, sim, gera frutos de justiça e de realização salvífica. É preciso buscá-la!

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*Felipe Magalhães Francisco é doutorando em Ciências da Religião, pela PUC-MG, e mestre e bacharel em Teologia, pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015).

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